21 de jun. de 2008

DUAS CARAS E NENHUMA VERGONHA

NOVELA DA GLOBO ESCANCARA NATUREZA ANTIDEMOCRÁTICA DA EMISSORA.

Publicado no Blog do Azenha, aqui

Por Hugo R C Souza, nos jornais O Rebate e A Nova Democracia, quando a novela ainda estava no ar

Antes de a novela Duas Caras estrear na programação da Rede Globo, seu autor, o novelista Aguinaldo Silva, pareceu se inspirar em Luiz Inácio para vender o seu peixe e fazer ecoar sua vaidade. Em entrevista concedida ao jornal Folha de S. Paulo, Aguinaldo Silva disse que nunca a favela havia sido mostrada na TV da forma que sua novela passaria a mostrar. Não disse com estas palavras, mas falou com este exato grau de pretensão. Pouco tempo mais tarde, porém — justiça seja feita —, comprovou-se que ele tinha razão: a Rede Globo, por intermédio da sua novela Duas Caras, e com um nível de ódio ao povo jamais antes demonstrado, vem usando e abusando da dramaturgia picareta para veicular o credo da reação.

São muitos os temas que vem sendo ardilosamente abordados em Duas Caras, desde as Ongs até o movimento estudantil, das relações trabalhistas à vida na periferia, do crime organizado ao racismo. E são os parâmetros da direita que orientam o desenrolar da trama e definem o "quem é quem" das personagens, sempre dentro da lógica dualista do bandido e do mocinho, que caracteriza os folhetins de segunda categoria.

Segundo os valores delineados pela novela reacionária, por exemplo, está certíssima a dona de uma universidade que pretende dirigir uma instituição de ensino segundo as técnicas das linhas de montagem. Ao mesmo tempo, resistindo à ofensiva que pretende fazer com a educação o mesmo que se faz com supermercados, os professores são apresentados como preguiçosos, empenhados apenas em atrapalhar — e não em trabalhar.

A campanha antidemocrática veiculada em forma de teledramaturgia conta com muitos atores de prestígio prestando-se a papéis nem tanto. Na ficção produzida pela Rede Globo, a história é contada com a voz dos adversários do povo, no horário nobre da TV, fazendo uma dobradinha reacionária com o carro-chefe da emissora, o Jornal Nacional. Alguns personagens em especial canalizam o ódio de classe expressado sem meias-palavras em Duas Caras. Senão, vejamos:

Apologia às "milícias"

Personagem central da novela, herói — ainda que com ares de anti-herói — interpretado por Antonio Fagundes, Juvenal Antena é o fundador da favela da Portelinha e se perpetua em mandos e desmandos ao longo dos anos. À frente de um grupo de homens armados, ele é o líder populista, que se senta em um trono e atende as pessoas por ordem de chegada na sede da associação de moradores para lhes dar conselhos, dinheiro e tudo o mais. Seu heroísmo consiste em uma característica central da personagem: o fato de não deixar que o crime organizado se instale na favela.

A todo o momento suas ações são uma justificativa da existência das "milícias" que, na vida real, aterrorizam as populações dos bairros pobres tanto quanto o tráfico de drogas.

Juvenal é o líder comunitário dos sonhos das classes exploradoras, ou seja, aquele que mantém os pobres no lugar que o capitalismo lhes reserva, que trata o povo na base da rédea curta e que exalta a submissão à rotina de trabalhador alienado — e ainda passa fogo nos "vagabundos".

A favela cenográfica da Portelinha, por sua vez, foi inspirada na favela de Rio das Pedras, custou cerca de três milhões de reais para ser construída, e parte de uma premissa ardilosa: a de que o único problema da população favelada é o crime organizado, não importando e nem sendo mencionados "detalhes" como a sistemática exploração do povo sob o capitalismo ou a ausência de serviços públicos básicos nas periferias das grandes cidades.

A Rede Globo costuma colocar na boca do personagem Juvenal Antena algumas das verborragias moralistas e preconceituosas mais repetidas pelas elites hipócritas brasileiras. São frases como a que foi dita quando a personagem encontrou maconha no bolso de um assaltante nos arredores da favela: "Bagulho! Tão vendo só? É esse o combustível dos vagabundos! Caramba, eu não suporto nem o cheiro disso! Detesto quem vende. E também não passo a mão na cabeça de quem usa. Pra mim, são todos da mesma quadrilha!".

"Dama de TitânIo"

É a personagem chamada Branca, uma das heroínas da novela, interpretada pela atriz Suzana Vieira. Na trama, ganhou este apelido da imprensa após chamar a polícia para resolver a ocupação feita por estudantes da universidade que herdou do marido morto. "Dama de Titânio" remete à "Dama de Ferro" Margaret Thatcher, que, quando era primeira-ministra da Inglaterra, moveu uma guerra de aniquilação contra os sindicatos britânicos, inclusive fazendo uso do aparato policial de repressão.

A personagem é a personificação do elogio à velha postura fascista de que a questão social é caso de polícia. Uma das características da novela Duas Caras é o uso de truísmos baratos para tentar desqualificar as posturas da esquerda e legitimar as da direita. A personagem de Suzana Vieira é a campeã absoluta do uso deste estratagema. Quando decide chamar a polícia para reprimir a ocupação da universidade, ela pondera: "Se ser a favor da lei e da ordem é ser de direita, então eu sou de direita".

A granfina que debocha do povo

A esta personagem — uma socialite irônica e de fala refinada chamada Gioconda, encarnada por Marília Pêra — Aguinaldo Silva reservou a tarefa do deboche e da ridicularização das lutas e reivindicações do povo trabalhador. Quando, a propósito da ocupação da instituição de ensino de propriedade da cunhada, uma amiga diz a Gioconda que os estudantes "também chamaram para invadir a universidade o "Movimento dos Sem Casa", ela emenda, pretensamente cheia de razão: "Sem casa, sem educação, sem cultura, sem vergonha na cara!".

Em outro capítulo de Duas Caras, a personagem de Marília Pêra adverte seu marido, Barreto, um renomado advogado dos burgueses interpretado pelo ator Stênio Garcia, sobre o suposto risco de sair às ruas vestido com roupas caras: "Você é rico! E essa é a pior coisa que pode acontecer neste país do 'pobrismo'. Você está correndo perigo, Barreto! Pode ser linchado em praça pública por ostentar o seu dinheiro!".

Foi uma claríssima alusão ao assalto sofrido em São Paulo pelo apresentador da Rede Globo Luciano Huck, e à repercussão do roubo do seu relógio Rolex. Foi também um apoio a Luciano Huck, que recebeu fortes críticas por, após o assalto, ter publicado em jornais do país um artigo de cunho reacionário apelidado de Chamem o capitão Nascimento, frase de destaque no texto, referindo-se ao torturador que é o personagem principal do filme Tropa de Elite.

O intelectual-gerente

A personagem do ator José Wilker assume a reitoria da Universidade Pessoa de Moraes no meio da novela. Ele vivia em Paris, na França, onde foi ficando depois de ser exilado pela ditadura militar brasileira, sendo "repatriado" pela dona da universidade para dar um "choque de gestão" na instituição. Francisco Macieira é mais um dos heróis de Duas Caras, cabendo à personagem a representação do intelectual predileto das classes dominantes, pela ironia que significa a sua trajetória: aquele que um dia já defendeu idéias revolucionárias, mas que acabou aderindo ao receituário liberal, passando a ser um ferrenho defensor da postura dos patrões.

Macieira se relaciona com os estudantes na base da enganação, fingindo fazer-lhes concessões, ao mesmo tempo em que se empenha para impregnar cada centímetro da universidade com a lógica do mercado, incitando os professores à concorrência entre si e revogando seu direito de tirar férias.

O estudante imbecil

É o papel do jovem ator Diogo Almeida. No enredo de Duas Caras, Rudolf é presidente da agremiação estudantil da Universidade Pessoa de Moraes. A caracterização da personagem é uma afronta ao movimento estudantil brasileiro. Na novela, Rudolf só aparece dizendo coisas sem sentido, gritando palavras de ordem simplórias e escondendo-se pelos cantos para chamar a reitora de fascista, gritando quando ela passa pelos corredores da universidade. Nos embates com a dona da instituição e com o reitor, Rudolf sempre sai desmoralizado, ora apresentado como um baderneiro, ora como um ingênuo ou irresponsável.

Através de Rudolf, Aguinaldo Silva e a Rede Globo tentam desqualificar o papel da juventude no processo de emancipação dos trabalhadores e, junto, toda uma história de engajamento dos estudantes brasileiros em defesa das causas do povo.

Ironicamente, a música composta por Gonzaguinha e repetida todos os dias na abertura da novela, tinha como propósito original a exaltação da juventude que não baixa a cabeça, que luta, que se organiza.

O deputado sem ideologia

Trata-se da personagem Narciso Telerman, o político interpretado por Marcos Winter. É deputado, mas não tem partido, não tem projeto, e muito menos segue algum programa político. Parece não ter ideologia, mas — como todos que assim parecem, ou fazem questão de parecer assim — segue a ideologia das classes exploradoras. É mais um da turma do "bem", sempre pronto para estender a mão ao povo da favela da Portelinha, a mexer os pauzinhos para conseguir alguma coisa, a usar sua autoridade para tirar alguém do xadrez. Mas não está comprometido com qualquer tipo de mobilização coletiva.

Narciso Telerman é o modelo de político profissional que a Globo aprecia e a encarnação do político funcional ao projeto conservador. Ou seja: não é corrupto e não se envolve com a luta política em torno das questões de classe. Ao contrário. A personagem de Marcos Winter é como o próprio ator na vida real: envolvido com projetos realizados por Ongs mancomunadas com o patronato.

Teoria da inspiração

Mas não se trata de conspiração; é puro talento! Aguinaldo Silva provavelmente não pede a orientação dos donos da Rede Globo para seguir com este excepcional rigor a cartilha da direita, nem sequer a direção da emissora precisa se preocupar em meter o bedelho nas cenas do próximo capítulo. Não. O autor da novela não suportaria o orgulho ferido. Ele é alguém que goza da total confiança das elites, perfeitamente afinado com a lógica da dominação, devoto a ela, escolado em suas artimanhas, principalmente quando se trata de contribuir com seu próprio lixo para alimentar a teledramaturgia picareta que é veiculada no Brasil.

A experiência em servidão do autor de Duas Caras vem de longe, antes mesmo do início da carreira de novelista. Aguinaldo Silva foi repórter em O Globo, onde trabalhou durante a ditadura militar a serviço dos milicos e contra as aspirações do povo. Uma de suas valiosas contribuições foi a sistemática difamação da luta armada no Brasil quando era repórter de polícia do jornal.

O jornalista francês Alain Accardo escreveu certa vez sobre a "submissão chique" dos profissionais do oligopólio dos meios de comunicação, onde, em geral, basta trabalhar "como se sente", para trabalhar "como se deve". Isto é, diz Accardo, trabalhar em defesa das normas e valores do modelo dominante. Ele se referia especificamente aos jornalistas, mas sua análise é algo que pode ser estendida, pelo menos, aos novelistas:

— Se há um ponto sobre o qual se deve insistir é que a eficácia de tal sistema repousa fundamentalmente sobre a sinceridade e espontaneidade dos que nela investem a si próprios, mesmo que este investimento implique numa certa dose de automistificação. A informação jornalística, tal como é praticada, é passível de muitas críticas e recriminações bem fundamentadas, inclusive a de enclausurar os espíritos na problemática dominante e mesmo no pensamento único. Há algo, porém, que não se pode censurar nos jornalistas, salvo, é claro, casos particulares: a boa fé com que realizam seu trabalho. Tendo internalizado perfeitamente a lógica do sistema, aderem livremente às suas exigências. Agem de forma orquestrada sem necessidade de se orquestrarem. Sua identidade de inspiração torna desnecessária a conspiração.

Ora, a fabulosa inspiração de Aguinaldo Silva para abandonar os temas politicamente corretos e editorializar a história da chamada "novela das oito" não vem de outra musa que não seja a conjuntura atual: a cruzada da Rede Globo para recuperar a grande parcela da audiência perdida em 2007 e a necessidade das elites de responder às contestações vindas do povo.

Mas, acima de tudo, o que inspira as elites e seus cães de guarda —sejam jornalistas, sejam novelistas — é a necessidade desesperada de contra-atacar, alarmados que estão com as resistências à exploração e com a mobilização organizada contra os exploradores.

30 de mai. de 2008

Novas potências

Novas potências

por Renata Cafardo, Seção: Educação fundamental s 16:44:25.

A China e a Índia devem ter em 2015 o dobro de pessoas formadas em ensino médio e em ensino superior do que os Estados Unidos e países da União Européia. Essas são previsões do grupo responsável pela avaliação Pisa, da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), que esteve no Brasil na semana passada.

Hoje, os dois países já passam antigas potências em número de pessoas qualificadas, mas a diferença nem sempre é tão significativa. Há cerca de 40 anos, o que se via era o oposto. Americanos e europeus tinham o maior número de pessoas formadas entre os países do mundo.

China e Índia, além de Coréia e Taiwan, por exemplo, têm investido fortemente para qualificar a sua população nos últimos anos. A porcentagem do PIB aplicada em educação cresceu, a oferta de vagas se multiplicou. E não só isso. Exames internacionais, como o Pisa, têm mostrado uma queda de qualidade na educação americana e de alguns países europeus e um destaque para alunos chineses, coreanos, taiwaneses. Na última prova, em 2006, enquanto Estados Unidos, França e Itália apresentaram resultados somente medianos, os chineses apareciam sempre no topo dos rankings de leitura, matemática e ciência.

http://blog.estadao.com.br/blog/renata/

Como fabricar uma crise global

Como fabricar uma crise global.

Quando centenas de milhares de pessoas se manifestaram no México, no ano passado, contra o aumento no preço da tortilla, muitos analistas culparam os biocombustíveis. Devido aos subsídios do governo norte-americano, os agricultores desse país estavam destinando mais hectares ao milho para etanol do que para alimentos, fazendo com que os preços disparassem. Esse desvio do uso do milho foi, sem dúvida, uma das causas do aumento dos preços, embora provavelmente a especulação dos atravessadores, com a demanda por biocombustíveis, teve uma influência maior. Contudo, muitos deixaram passar uma pergunta interessante: como foi que os mexicanos, que vivem na terra onde o milho foi domesticado, chegaram a depender do grão norte-americano?

A erosão da agricultura mexicana
Não é possível entender a crise alimentar mexicana sem considerar que nos anos anteriores à "crise da tortilla" a pátria do milho foi transformada em uma economia importadora desse grão pelas políticas de “livre mercado” promovidas pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), pelo Banco Mundial (BM) e por Washington. O processo começou com a crise da dívida, no início da década de 1980. O México, um dos maiores devedores do mundo em vias de desenvolvimento, foi obrigado a implorar dinheiro do BM e do FMI para pagar o serviço de sua dívida com bancos comerciais internacionais. O preço do resgate foi aquilo que um membro do conselho executivo do BM descreveu como um “intervencionismo sem precedentes”, projetado para eliminar tarifas, regulamentações estatais e instituições governamentais de apoio, que a doutrina neoliberal identificava como barreiras para a eficiência econômica.

O pagamento de juros aumentou de 19% do gasto federal total, em 1982, para 57%, em 1988, enquanto o gasto de capital desmoronou, caindo de 19,3% para 4,4%. A redução do gasto governamental significou acabar com o crédito estatal, com os insumos agrícolas subsidiados pelo governo, com os apoios aos preços, com os conselhos estatais de comercialização e com os serviços de extensão.

Este golpe contra a agricultura camponesa foi seguido por outro ainda maior, em 1994, quando entrou em vigor o Tratado de Livre Comércio da América do Norte (TLCAN). Apesar de que esse tratado considerava uma prorrogação de 15 anos para a proteção de produtos agrícolas, entre eles o milho, em pouco tempo começou chegar milho norte-americano altamente subsidiado, fazendo com que os preços caíssem pela metade e afundando o setor do milho em uma crise crônica. Em grande parte por causa desse acordo, o México acabou consolidando-se como importador de alimentos.

Com o fechamento da entidade governamental encarregada da comercialização de milho, a distribuição das importações desse grão vindas dos Estados Unidos, assim como a do milho nacional, foi monopolizada por umas poucas empresas transnacionais de comércio, como a Cargill. Isso deu-lhes um tal poder para especular com as tendências do mercado que podem manipular e magnificar, muitas vezes, os movimentos da demanda por biocombustíveis. Ao mesmo tempo, o controle monopólico do comércio doméstico garantiu que um aumento nos preços internacionais do milho não se traduza em preços significativamente mais altos para os pequenos produtores.

Cada vez é mais difícil para os produtores mexicanos de milho furtar-se do destino de muitos outros pequenos produtores em setores como arroz, carne de gado, frango e suíno, os quais faliram devido às vantagens concedidas pelo TLCAN aos produtos subsidiados norte-americanos. Segundo um relatório do Fundo Carnegie, de 2003, as importações agrícolas dos EUA deixaram sem trabalho 1,3 milhão de camponeses, muitos dos quais migraram para o país do norte.

As perspectivas não são boas, porque o governo mexicano continua nas mãos de neoliberais que desmantelam sistematicamente o sistema de apoio ao campo.

Fabricação da crise do arroz nas Filipinas
Que a crise global de alimentos tem sua origem na restruturação da agricultura feita pelo livre mercado fica ainda mais claro no caso do arroz. Diferentemente do milho, menos de 10% da produção mundial de arroz é comercializada. Além disso, no caso do arroz não houve desvio do consumo para os biocombustíveis. Contudo, apenas neste ano os preços já triplicaram, passando de 380 dólares por tonelada, em janeiro, para mais de mil dólares, em abril. Não há dúvida de que uma boa parte dessa inflação é conseqüência da especulação dos cartéis atacadistas em uma época em que a oferta é escassa. Contudo, o maior mistério é saber por que vários países consumidores de arroz que antes eram auto-suficientes tornaram-se severamente dependentes das importações.

As Filipinas constituem um triste exemplo de como a restruturação econômica neoliberal transforma um país exportador em importador de alimentos. Esse país é o maior importador mundial de arroz. O esforço de Manila para garantir o abastecimento a qualquer preço tem se tornado manchete de capa e as fotografias de soldados que dão proteção à distribuição desse cereal nas comunidades pobres passaram a ser emblemáticas da crise global.

Os aspectos gerais da história das Filipinas são semelhantes aos do México. O ditador Ferdinando Marcos foi culpado de muitos crimes e de erros de gestão, entre os quais não ter promovido a reforma agrária, mas não pode ser acusado de privar o setor agrícola de verbas governamentais. Para amenizar o descontentamento dos camponeses, o regime entregou fertilizantes e sementes subsidiados, promoveu mecanismos de crédito e construiu infra-estrutura rural. Durante os 14 anos da sua ditadura, em apenas um, 1973, foi necessário importar arroz, devido aos extensos prejuízos causados por furacões. Quando Marcos fugiu do país, em 1986, havia 900 mil toneladas métricas de arroz estocadas nos armazéns do governo.

Paradoxalmente, os anos seguintes, com um governo democrático, viram encolher a capacidade de investimento governamental. O BM e o FMI, atuando em representação de credores internacionais, pressionaram o governo de Corazón Aquino para que desse prioridade ao pagamento da dívida externa, que chegava a 26 bilhões de dólares. Aquino concordou, apesar de ter sido advertida pelos economistas de seu país de que seria “inútil procurar por um plano de recuperação que seja consistente com o pagamento da dívida estabelecido pelos nossos credores”.

Entre 1986 e 1993, entre 8 e 10% do PIB saiu das Filipinas cada ano para pagar o serviço da dívida. A proporção dos gastos governamentais com o pagamento de juros, aumentou de 7%, em 1980, para 28%, em 1994; os gastos de capital caíram de 26% para 16%. Em resumo, o serviço da dívida tornou-se prioridade do orçamento nacional.

O gasto com agricultura caiu para menos da metade. O BM e seus acólitos locais não estavam preocupados, porque um dos propósitos de estar apertando o cinto era deixar que o setor privado fizesse investimentos no campo. Mas a capacidade agrícola ruiu rapidamente, o regadio cessou e por volta do fim da década de 1990 apenas 19% da rede viária do país estava pavimentada, contra 82% na Tailândia e 75% na Malásia. As colheitas eram, em geral, anêmicas; o rendimento médio do arroz era de 2,8 toneladas por hectare, muito abaixo do conseguido na China, Vietnã e Tailândia, onde os governos promoviam ativamente a produção rural. A reforma agrária definhou na era posterior a Marcos, privada de recursos para serviços de apoio, que tinham sido a chave para as bem-sucedidas reformas de Taiwan e da Coréia do Sul.

Como no México, os camponeses filipinos enfrentaram a retirada em grande escala do Estado como fonte de apoio. E o corte em programas agrícolas foi seguido pela liberalização comercial; a entrada das Filipinas na Organização Mundial do Comércio (OMC) teve o mesmo efeito que o TLCAN para o México. Ser membro da OMC requeria eliminar quotas de importações agrícolas, exceto para o arroz, e permitir que uma certa quantidade de cada produto entrasse com taxas reduzidas. Apesar de que foi permitido ao país manter uma quota nas importações de arroz, teve que admitir uma quantidade equivalente a entre um e 4% do consumo doméstico nos 10 anos seguintes. De fato, como conseqüência da queda na produção derivada da falta de apoio oficial, o governo importou muito mais do que isso para compensar uma possível escassez. Essas importações, que aumentaram de 263 mil toneladas, em 1995 para 2,1 milhões em 1998, fizeram cair o preço do cereal, desalentando os produtores, e manteve a produção em um nível muito inferior ao dos principais provedores do país, Tailândia e Vietnã.

As conseqüências da entrada das Filipinas na OMC varreram o resto da agricultura como um furacão. Diante da invasão de importações baratas de milho, os camponeses reduziram a terra dedicada a essa cultura de 3,1 milhões de hectares, em 1993, para 2,5 milhões no ano 2000. A importação massiva de cortes de frango praticamente acabou com essa indústria e foi também o aumento de importações que afetou a produção de aves, suínos e vegetais.

Os economistas do governo prometeram que as perdas em milho e outras culturas tradicionais seriam mais do que compensadas pela nova indústria exportadora de cultivos “de alto valor agregado”, como flores, aspargos e brócolis. Pouco de tudo isso aconteceu. O emprego agrícola caiu de 11,2 milhões, em 1994, para 10,8 milhões, em 2001.

O duplo golpe do ajuste imposto pelo FMI e a liberalização comercial imposta pela OMC fez com que uma economia agrícola em grande medida auto-suficiente passasse a ser dependente das importações e marginalizou constantemente os agricultores. Tratou-se de um processo cujo sofrimento foi descrito por um negociador do governo filipino durante uma sessão da OMC em Genebra: “Nossos pequenos produtores agrícolas são massacrados pela brutal injustiça do entorno do comércio internacional”.

A grande transformação
A experiência do México e das Filipinas repetiu-se em um país após outro, todos sujeitos aos manejos do FMI e da OMC. Um estudo da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) em 14 países descobriu que os níveis de importações agrícolas em 1995-98 excederam os de 1990-94. Não foi surpresa, visto que um dos principais objetivos do acordo agrícola da OMC era abrir mercados em países em vias de desenvolvimento, para que eles absorvessem a produção excedente do norte.

Os apóstolos do livre mercado e os defensores do dumping parecem estar em extremos opostos do espectro, mas as políticas que defendem produzem o mesmo resultado: uma agricultura capitalista industrial globalizada. Os países em desenvolvimento entram em um sistema em que a produção de carne e grãos para exportação está dominada por grandes fazendas industrializadas, como as administradas pela transnacional tailandesa CP, nas quais a tecnologia é melhorada continuamente por avanços em engenharia genética de companhias como a Monsanto. E a eliminação de barreiras tarifárias e não tarifárias facilita que surja um supermercado agrícola global de consumidores de elite e de classe média, atendidos por corporações de comércio de grãos, como Cargill e Archer Daniels Midland, e por varejistas transnacionais de alimentos, como a britânica Tesco e a francesa Carrefour.

Não se trata somente da perda progressiva da auto-suficiência alimentar nacional ou da segurança alimentar, mas daquilo que a africanista Deborah Bryceson, de Oxford, denomina “descamponesização”, ou seja, da supressão de um modo de produção para fazer do campo um lugar mais apropriado para a acumulação intensiva de capital. Esta transformação é traumática para centenas de milhões de pessoas, porque a produção camponesa não é somente uma atividade econômica: é um modo de vida milenar, uma cultura, o que é uma das razões de que na Índia os camponeses deslocados ou marginalizados tenham optado pelo suicídio. Calcula-se que uns 15 mil camponeses indianos acabaram com suas vidas.

A queda de preços, resultado da liberalização comercial, e a perda do controle sobre as sementes, agora em mãos das empresas de biotecnologia, fazem parte de um problema integral, assinala Vandana Shiva, ativista pela justiça global: “Na globalização, o camponês ou camponesa perde sua identidade social, cultural e econômica de produtor. Agora, um camponês é ‘consumidor’ das sementes e químicos caros vendidos pelas poderosas corporações transnacionais através de poderosos latifundiários e agiotas locais”.

* Versão reduzida do artigo que será publicado na edição do The Nation (Nova York) no dia 2 de junho. Reproduzido com autorização do autor.

** Walden Bello é analista e ex-diretor executivo do instituto de pesquisa e ativismo Enfoque no Sul Global, com sede em Bangkok.

Tradução: Naila Freitas / Verso Tradutores

Reproduzido da Agencia Carta Maior.


20 de abr. de 2008

As vivandeiras rondam os bivaques dos granadeiros


Lideranças do DEM se deslocam movidas por nostalgia de caserna


Ao atacar a política indigenista do governo, o comandante militar da Amazônia, general Augusto Heleno, não cometeu apenas um ato de insubordinação, ferindo o Regime Disciplinar do Exército. Trouxe à tona, pelas reações que produziu em círculos conservadores a repreensão do presidente Lula, velhos questionamentos sobre a presença dos militares na cena política.

O que há em comum entre as notas distribuídas pelo presidente do Clube da Aeronáutica, tenente-brigadeiro Ivan Frota, pelo presidente do Clube Militar, general Gilberto de Figueiredo e o posicionamento, também através de nota, do presidente do DEM, Rodrigo Maia? O que os une além do flagrante vezo autoritário? Um pretorianismo fora de época. Uma aposta equivocada de que conflitos distributivos, tal como no passado recente, encontrariam instituições debilitadas, incapazes de acomodá-los dentro dos marcos de um Estado democrático.

A presunção do trio parece ignorar que o rico inventário das ações dos movimentos sociais comportou a construção de sólidas casamatas tanto nos centros urbanos quanto no mundo rural. E foi isso que conferiu solidez ao Estado democrático. Numa sociedade totalmente distinta da existente em 1964, Ivan Frota, Rodrigo Maia e Gilberto de Figueiredo comportam-se como criações de Luigi Pirandello: três personagens a procura de uma "crise militar".

Esquecem que o golpe de Estado veio para barrar a emergência de movimentos sociais em um contexto específico: no plano interno, as debilidades estruturais do capitalismo brasileiro, no externo, a carga ideológica de um cenário internacional marcado pela lógica da Guerra Fria. O autoritarismo e a centralização do poder político no estamento militar tiveram como substrato o sonho da “potência emergente." O desgaste e o enfraquecimento de 20 anos de ditadura tornam possível, hoje, dramatizar o seu papel político.

Assim, como interpretar a vociferação do presidente do Clube da Aeronáutica quando ele ameaça uma autoridade legítima e democraticamente eleita?: "que o presidente não se atreva a tentar negar-lhe (ao general Heleno) o sagrado dever de defender a soberania e a integridade do Estado brasileiro (...). Caso se realize tal coação, o país conhecerá o maior movimento de solidariedade, partindo de todos os recantos deste imenso país, jamais ocorridos nos tempos modernos de nossa História".

Certamente o protofascimo tem um caldo cultural. A perda de prestígio político leva um ator a exacerbar seu grau de irracionalidade. Pegar uma questão pontual, pequena e elevá-la à condição de “democracia abalada" é um expediente tão surrado quanto inútil. Quem tiver o hábito de ler os comunicados do presidente do Clube da Aeronáutica verá que o discurso é recorrente. E patético.

Quando o general Gilberto de Figueiredo considera "estranho o presidente da República pedir explicações sobre o caso. Não me consta que tenha adotado o mesmo procedimento quando ministros do seu partido contestam publicamente a política econômica do governo", deixa trair um inconformismo não muito diferente do seu colega da Aeronáutica. Na verdade, revela uma linha de raciocínio que compreende as Forças Armadas ainda convertidas em sujeitos de poder altamente coporativistas e com amplas margens de autonomia no sistema político. Em suma, mais um personagem fora do tempo e do espaço.

E o que dizer do DEM quando sua Comissão Executiva Nacional “vem a público exigir medidas efetivas contra o clima de quase insurreição que temos vivido; alertar a opinião pública para a irresponsabilidade contínua do governo no uso do dinheiro público e manifestar apoio ao comandante militar da Amazônia, general Augusto Heleno Ribeiro Pereira – ameaçado e intimidado depois que solicitou mudanças na política indigenista"?

O que temos aqui é um partido em risco de extinção, sem projeto e perfeitamente dispensável pelas duas agendas em disputa. Uma agremiação que teve a votação diminuída de 2000 a 2004 e, na proximidade de uma eleição municipal, não conta com máquina estadual para puxar votos. Suas lideranças se deslocam movidas por nostalgia de caserna. Dos tempos prestigiosos em que era Arena, depois PDS até se reciclar em PFL. É banzo de quem se veste com roupagem do presente à espera de uma "ação redentora" que lhe restitua o passado e o sentido. Para isso, açula pijamas, imaginando as vistosas fardas de outrora.

É triste, ridículo, mas não passa disso a nossa “crise militar”.

*Gilson Caroni Filho é professor de Sociologia das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha), no Rio de Janeiro, e colaborador do Jornal do Brasil e Observatório da Imprensa.


9 de abr. de 2008

CARTÕES CORPORATIVOS

Peça de surrealismo afeita à "grande imprensa"

Por Gilberto C. Marotta em 8/4/2008


Ainda é cedo para dizer se o (mal) chamado "escândalo do dossiê" irá ferir mais a ministra Dilma Rousseff e o governo Lula ou o senador Álvaro Dias e a oposição, mas de uma coisa tenho certeza: feriu, mais uma vez e gravemente, o jornalismo brasileiro. É impressionante a cobertura tendenciosa, a tentativa canhestra de transformar em escândalo o que é corriqueiro e, principalmente, de incentivar o clima de Fla x Flu político, sobretudo por Veja e Folha, o que infelizmente não constitui novidade alguma. Veja (ops!) as matérias, julgue por si mesmo. As manchetes, então, que maravilha! Ora se menciona "relatório" e "banco de dados", como diz o governo, ora e mais freqüentemente o "dossiê", como quer a oposição (a eleita e a midiática) e, muitas vezes, assim, não precedido de um cauteloso "suposto", como manda o jornalismo responsável, ou melhor, o jornalismo, simplesmente, uma vez que jornalismo verdadeiro prescinde de adjetivos.

Mas, aos fatos: houve um relatório, feito na Casa Civil. Nada extraordinário, uma vez que o governo já o admitiu. Intui-se que estava sendo feito um levantamento preventivo, tanto do ponto de vista administrativo (fossem os provocadores o TCU, elementos da própria oposição ou o diabo em pessoa) quanto do ponto de vista político, sabedor do uso sensacionalista que a oposição (imprensa, inclusive) vem tentando dar à questão dos cartões corporativos.

Pois bem. Sabemos que a oposição, para atingir Dilma e ao mesmo tempo blindar FHC, vazou, através do senador Álvaro Dias, parte desse relatório. Há que se saber, antes de qualquer coisa, se há crime no comportamento de um senador da República ao divulgar dados sigilosos ou documento público (integral ou fragmentado) sem pedir investigação ou denunciar o funcionário público autor do vazamento. No mínimo, há que se saber quais as relações de um senador da oposição com um suposto espião (prevaricador) no governo. Por nada disso a "grande imprensa" parece se interessar. Sabemos que jogo ela faz, a quem cumpre exclusiva e implacavelmente condenar ou defender.

Onde estão os "chantageados"?

Mas, bem pior que isso, o furo enorme, similar à cratera do metrô de São Paulo, é uma trupe de jornalistas (?), alguns bastante experientes, embarcar de mala e cuia na hipótese de "chantagem", quando não houve até agora um mísero cidadão que se dissesse chantageado e quando nem a imprensa, nem os parlamentares da oposição são capazes de apontar no relatório, ou em qualquer de seus fragmentos, elementos ilegais ou imorais que pudessem ser utilizados em uma chantagem. Se não há vítimas, nem elementos, onde se sustenta a acusação ao governo? Não obstante, as expressões estão lá, nas capas e nos miolos, nos horários nobres e em outros nem tanto, em grandes e pequenos caracteres: "dossiê", "chantagem"...

Produz-se, assim, mais uma peça de surrealismo tão afeita à nossa "grande imprensa" e aos dois principais partidos de oposição, o PSDB e o DEM/PFL. Todos conhecemos, aliás, a expertise dos tucanos com dossiês. Quem tem dúvida, consulte a íntegra do discurso do senador e ex-presidente José Sarney, proferido na tribuna em 20 de março de 2002, disponível no site do jornalista Luiz Carlos Azenha.

Da mesma forma, ninguém me tira da cabeça que foi forjado nos comitês tucanos o famoso dossiê que levou, em 2006, a eleição majoritária para o 2º turno. Não, não nego os aloprados. Eles existiram, meteram os pés pelas mãos e acabaram prejudicando enormemente o PT naquela ocasião. Mas foram enrolados, caíram como patinhos numa armadilha bem urdida pelos espsdbecialistas que conseguiram, de uma só tacada, prejudicar as candidaturas Lula, Mercadante e ainda – esse, o feito mais espetacular, que contou com evidente cumplicidade dos jornais – blindar Serra, banindo as fotos e vídeos de ambulâncias, comprometedores, definitivamente da mídia.

Aqui e lá, o DNA é o mesmo, vê-se pelo modus operandi: utiliza-se um suposto dossiê para carimbar no governo Lula e no PT a pecha de "chantagistas". Mas, perguntinha simples e necessária... Onde estão os chantageados e quais são as ilegalidades ou imoralidades que permitiriam a chantagem? Silêncio! O absurdo é tamanho que, mais do que nunca, cabe perguntar: que jornalismo é esse?

Pérolas a porcos

A ministra Dilma Rousseff, cuja competência, arrojo e seriedade costumam ser reconhecidos até por seus adversários mais ferrenhos, disse em alto e bom som: "Há tentativa de escandalizar o nada!" Como notou um leitor, num desses blogs da vida, haverá o momento – como houve o da "epidemia" de febre amarela, em que assistiremos ao efeito contrário, a "nadificação do escândalo", mais uma jogada de nossos showrnalistas (a expressão é do jornalista José Arbex Jr.), que pode ser resumidamente descrita do seguinte modo: no momento em que os fatos começarem a evidenciar que, das duas uma, ou as duas, o crime não foi do governo, mas sim da oposição; e que houve má-fé da imprensa no episódio, esse último "escândalo" desaparece instantaneamente das manchetes e capas sem deixar vestígios. As prioridades e artimanhas se voltarão, então, para o próximo escândalo que, seja ele qual for, terá que ser produzido.

Alguns jornalistas da blogosfera andaram fazendo levantamentos mais detalhados sobre as manifestações da imprensa no caso. Vale a pena dar uma olhada no que está publicado no blog do jornalista Luis Nassif, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, e aqui.. E por Paulo Henrique Amorim, aqui. E aqui, quentinha, a indignada entrevista da ministra ao Estado de S.Paulo (sexta, 4/4).

O resto, são pérolas aos porcos. Pregação (lenga-lenga reacionária) aos convertidos de sempre, cada vez mais desesperados com os índices de aprovação recorde do governo Lula e a destacada atuação da ministra Dilma, eventual candidata a sucedê-lo. Ao chafurdar em mais essa trapalhada, a oposição (imprensa, inclusive) credencia-se a prestar contribuição inestimável e definitiva à candidatura governista. Que venha 2010!

Leia também: O caso [ocaso] de Veja

Por Luis Nassif