22 de nov. de 2011

Discurso (proibido) de Vera Paiva na sansão da Lei da Comissão da Verdade

"Sexta-feira, 18 de Novembro de 2011, 11:00.  Palácio do Planalto, Brasília.
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Excelentíssima Sra. Presidenta Dilma, querida ministra dos Direitos Humanos Maria do Rosário. Demais ministros presentes. Senhores representantes do Congresso Nacional, das Forças Armadas. Caríssimos ex-presos políticos e familiares de desaparecidos aqui presentes, tanto tempo nessa luta.
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Agradecemos a honra, meu filho João Paiva Avelino e eu, filha e neto de Rubens Paiva, de estarmos aqui presenciando esse momento histórico e, dentre as centenas de famílias de mortos e desaparecidos, de milhares de adolescentes, mulheres e homens presos e torturados durante o regime militar, o privilégio de poder falar.
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Ao enfrentar a verdade sobre esse período, ao impedir que violações contra direitos humanos de qualquer espécie permaneçam sob sigilo,  estamos mais perto de enfrentar a herança que ainda assombra a vida cotidiana dos brasileiros. Não falo apenas do cotidiano das famílias marcadas pelo período de exceção. Incontáveis famílias ainda hoje, em 2011,  sofrem em todo o Brasil com prisões arbitrárias, seqüestros, humilhação e a tortura. Sem advogado de defesa, sem fiança. Não é isso que está em todos os jornais e na televisão quase todo dia, denunciando, por exemplo, como se deturpa a retomada da cidadania nos morros do Rio de Janeiro? Inúmeros dados indicam que especialmente  brasileiros mais pobres e mais pretos, ou interpretados como homossexuais, ainda são cotidianamente agredidos sem defesa nas ruas, ou são presos arbitrariamente, sem direito ao respeito, sem garantia de seus direitos mais básicos à não discriminação e a integridade física e moral que a Declaração dos Direitos Humanos consagrou na ONU depois dos horrores do nazismo em 1948.
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Isso tudo continua acontecendo, Excelentíssima Presidenta. Continua acontecendo pela ação de pessoas que desrespeitam sua obrigação constitucional e perpetuam ações  herdeiras do estado de exceção que vivemos de modo acirrado de 1964 a 1988.
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O respeito aos direitos humanos, o respeito democrático à diferença de opiniões assim como a construção da paz se constrói todo dia e a cada geração! Todos, civis e militares, devemos compromissos com sua sustentação.
Nossa história familiar é uma entre tantas registradas em livros e exposições. Aqui em Brasília a exposição sobre o calvário de Frei Tito pode ser mais uma lição sobre o período que se deve investigar.
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Em Março desse ano, na inauguração da exposição sobre meu pai no Congresso Nacional, ressaltei que há exatos  40 anos o tínhamos visto pela última vez. Rubens Paiva que foi um combativo líder estudantil na luta “Pelo Petróleo é Nosso”, depois engenheiro construtor de Brasília, depois deputado eleito pelo povo, cassado e exilado em 1964. Em 1971 era um bem sucedido engenheiro, democrata preocupado com o seu país e pai de 5 filhos. Foi preso em casa quando voltava da praia, feliz por ter jogado vôlei e poder almoçar com sua família em um feriado. Intimado, foi dirigindo seu carro, cujo recibo de entrega dias depois é a única prova de que foi preso.  Minha mãe, dedicada mãe de família, foi presa no dia seguinte, com minha irmã de 15 anos. Ficaram dias no DOI-CODI, um dos cenário de horror naqueles tempos. Revi minha irmã com a alma partida e minha mãe esquálida. De quartel em quartel, gabinete em gabinete passou anos a fio tentando encontrá-lo, ou pelo menos ter noticias. Nenhuma noticia.

Apenas na inauguração da exposição em São Paulo , 40 anos depois, fizemos pela primeira vez um Memorial onde juntamos família e amigos para honrar sua memória. Descobrimos que a data em que cada um de nós decidiu que Rubens Paiva tinha morrido variava muito, meses e anos diferentes...Aceitar que ele tinha sido assassinado, era matá-lo mais uma vez.

Essa cicatriz fica menos dolorida hoje, diante de mais um passo para que nada disso se repita, para que o Brasil consolide sua democracia e um caminho para a paz.

Excelentíssima Presidenta: temos muitas coisas em comum, além das marcas na alma  do período de exceção e de sermos mulheres, mãe, funcionária pública. Compartilhamos os direitos humanos como referência ética e para as políticas públicas para o Brasil.  Também com 19 anos me envolvi com movimentos de jovens que queriam mudar o pais. Enquanto esperava essa cerimônia começar, preparando o que ia falar, lembrava de como essa mobilização começou. Na diretoria do recém fundado DCE-Livre da USP,  Alexandre Vanucci Leme, um dos jovens colegas da USP sacrificados pela ditadura, ajudei a organizar a 1a mobilização nas ruas desde o AI-5, contra prisões arbitrárias de colegas presos e pela anistia aos presos políticos. Era maio de 1977 e até sermos parados pelas bombas do Coronel Erasmo Dias, andávamos pacificamente pelas ruas do centro distribuindo uma carta aberta a população cuja palavra de ordem era

HOJE, CONSENTE QUEM CALA.

Acho essa carta absolutamente adequada para expressar nosso desejo hoje, no ato que sanciona a Comissão da Verdade. Para esclarecer de fato o que aconteceu nos chamados anos de chumbo, quem  calar consentirá, não é mesmo?
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Se a Comissão da Verdade não tiver autonomia e soberania para investigar, e uma grande equipe que a auxilie em seu trabalho, estaremos consentindo. Consentindo, quero ressaltar, seremos cúmplices  do sofrimento de milhares de famílias ainda afetadas por essa herança de horror que agora não está apoiada em leis de exceção, mas segue inquestionada nos fatos.

A nossa carta de 1977, publicada na primeira página do jornal o Estado de São Paulo no dia seguinte, expressava a indignação juvenil com a falta de democracia e justiça social, que seguem nos desafiando. O Brasil foi o último país a encerrar o período de escravidão, os recentes dados do IBGE confirmam que continuamos uma país rico, mas absurdamente desigual... Hoje somos o último país a, muito timidamente mas com esperança, começar a fazer o que outros países que viveram ditaduras no mesmo período fizeram. Somos cobrados pela ONU, pelos organismos internacionais e até pela Revista Economist, a avançar nesse processo. Todos concordam que re-estabelecer a verdade e preservar a memória não é revanchismo, que responsáveis pela barbárie sejam julgadas, com o direito a defesa que os presos políticos nunca tiveram, é fundamental para que os torturadores de hoje não se sintam impunes para impedir a paz e a justiça de todo dia. Chile e Argentina já o fizeram,  a África do Sul deu um exemplo magnífico de como enfrentar a verdade e resgatar a memória. Para que anos de chumbo não se repitam, para que cada geração a valorize.
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Termino insistindo que  a DEMOCRACIA SE CONSTRÓI E RECONSTRÓI A CADA DIA. Deve ser valorizada e reconstruída a CADA GERAÇÃO.
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E que hoje, quem cala, consente, mais uma vez.
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Obrigada."
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Vera Paiva  (filha de Rubens Paiva)
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Tomei conhecimento agora da mensagem postada pela Vera Paiva (que reproduzo a seguir), onde ela comenta o fato de não lhe ter sido dada a palavra na cerimônia de sanção da lei que criou a Comissão Nacional da Verdade e divulga as anotações do que seria sua fala.
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Estou inteiramente solidária com a Vera Paiva e concordo com os termos de sua fala não falada. Não afirmo, mas acho que todos os familiares de mortos e desaparecidos e ex-presos que estiveram presentes (e os que estiveram ausentes, mas assinaram a Nota dos Familiares de 18/11/2011) também estão solidários com ela.
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Aliás, acho muito estranho o episódio: não falou nem a representante dos familiares nem a Ministra dos Direitos Humanos. Mal sinal!
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A explicação dada a Vera, de que tiveram que encurtar a cerimônia não me parece adequada. Pior e mais grave é a versão que circulou na imprensa (19/11/2011) de que Genoino teria influenciado no sentido de não se conceder a palavra a uma representante dos familiares porque isto poderia ser mal recebido pelos comandantes militares. Inaceitável, tanto o argumento quanto o papel de Genoino!
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Concluo dizendo: a Presidenta Dilma precisa ouvir os familiares de mortos e desaparecidos políticos; e nós precisamos nos unir para derrotar o obscurantismo, conquistar a  Verdade e a Justiça (como bem afirmou a Alta Comissária da ONU para os Direitos Humanos).
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Iara Xavier Pereira
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“Depois de saber que fui impedida de falar ontem, lembro  de um texto de meu irmão Marcelo Paiva em sua coluna, dirigida aos militares:”
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“Vocês pertencem a uma nova geração de generais, almirantes, tenentes-brigadeiros. Eram jovens durante a ditadura (…)Por que não limpar a fama da corporação?
Não se comparem a eles. Não devem nada a eles, que sujaram o nome das Forças Armadas. Vocês devem seguir uma tradição que nos honra, garantiu a República, o fim da ditadura de Getúlio, depois de combater os nazistas.
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Vera Paiva
Universidade de São Paulo - PST & NEPAIDS

FONTE  AQUI


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21 de nov. de 2011

Da insurreição armada (1935) à “União Nacional” (1938-1945): a virada tática na política do PCB

Apresentação de Francisco Carlos Teixeira da Silva (p. 11-13), professor titular de História Moderna e Contemporânea da UFRJ, do livro de Anita Leocadia Prestes, cujo título é Da insurreição armada (1935) à “União Nacional” (1938-1945): a virada tática na política do PCB, publicado pela Editora Paz e Terra, em 2001.

É com imenso prazer que aceito a tarefa de apresentar o (...) trabalho de pesquisa de Anita Leocadia Prestes. O livro sobre os objetivos e táticas do PCB entre 1935 e 1945, veio preencher uma lacuna básica da história política brasileira. Poucas vezes a história esteve tão cativa dos debates políticos como a história do PCB no período proposto pelo estudo de Anita Prestes. Da mesma forma, esta foi e ainda o é uma história sobre o PCB, longe de ser uma história do PCB. Assim, a própria ditadura do Estado Novo acabou por nomear e definir estratégias do partido com uma pátina de preconceito reacionário. Termos como Intentona Comunista e todo o seu campo semântico negativo; a afirmação da luta antifascista como um ardil comunista; a própria confusão entre comunistas e aliancistas (os militantes da ALN) permaneceram longamente nas páginas dos livros brasileiros. Mas não só a ditadura contagiou a história do PCB. Os liberais, hegemônicos no processo de redemocratização de 1945, viram no PCB um concorrente poderoso, capaz de mobilizar a população brasileira contra um quadro secular de exploração. Assim, procuraram colar a imagem do PCB e de seus líderes à figura do ditador do Estado Novo, em especial no episódio do chamado Queremismo – a manutenção de Vargas durante o processo de redemocratização como garantia dos direitos sociais alcançados durante a ditadura. Mesmo a historiografia universitária mais moderna muitas vezes repetiu, creio que desavisadamente, os mesmos preconceitos. Até mesmo o uso dos arquivos da repressão – só recentemente abertos à pesquisa – pode algumas vezes reafirmar visões parciais, posto que depoimentos e confissões foram muitas vezes arrancados em situações de humilhação e dor; relatórios e prontuários foram escritos para confirmar a própria necessidade da existência da polícia política e de seus servidores, quase sempre por agentes incultos e preconceituosos. Esquecia-se, assim, da advertência de Carlo Guinzburg ao pesquisar o material da Santa Inquisição (tão próximo dos arquivos da repressão no Brasil): ao buscar bruxas em tais documentos, com certeza as acharemos!
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O presente trabalho de Anita Prestes enfrenta exatamente tais problemas. De saída a autora recusa-se a utilizar uma fonte única, seja da documentação interna do PCB, seja a documentação produzida pela repressão. Os documentos são regularmente checados com depoimentos, com as conjunturas políticas e as condições sociais e econômicas existentes, recorrendo a autora aos ensinamentos de Pierre Vilar sobre a história vista como um conjunto contínuo de interconexões. O quadro teórico é informado por uma leitura gramsciniana vivificada do Marx historiador e teórico do Estado, em especial de textos como o “18 Brumário”. Assim, fontes, método e teoria formam um conjunto coerente e dinâmico, abrindo novos caminhos de compreensão para a história do PCB e, consequentemente, da história brasileira entre 1935 e 1945. Dessa forma, inúmeros preconceitos são removidos; lugares comuns são abalados e leituras tradicionais dos eventos centrais do período merecem uma nova interpretação.

Em especial destacamos a análise do período final do Estado Novo, quando os principais instrumentos de repressão do regime desmoronam e Vargas começa a reorganizar as bases de sustentação do seu governo. Assim, a autora nos mostra que o Golpe Militar que afasta Vargas em 1945 foi dirigido contra um regime que era uma pálida sombra do Estado Novo. Suas razões são fortes e alteram uma série de lugares comuns alimentados pela oposição liberal.

Destacamos ainda, a ampla capacidade da autora de articular as conjunturas nacional e internacional, caracterizar a atuação das grandes potências e seus objetivos, demonstrando um sólido conhecimento da história contemporânea.
Anita Prestes alinha-se, dessa forma, como outros historiadores que se lançaram nos últimos anos, a uma completa revisão da chamada Era Vargas. (...) Anita Prestes contribui fortemente para lançar as bases de uma história do tempo presente no Brasil. Durante largo período de nossa história, a temática referente ao Estado Novo, aos partidos políticos e, em especial, o PCB, constituía-se em campo exclusivo dos estudos de ciência política. Trabalhos como o presente livro somam-se a um vigoroso esforço para a construção da história das nossas lutas sociais. Boa parte desse esforço fundamenta-se na incorporação de um vasto arsenal teórico buscado na ciência política, com a correção de certos artificialismos pelo uso cuidadoso do método histórico.

Uma história revificada do PCB, para além dos preconceitos, restaura uma parte importante da história da resistência às injustiças sociais no país, além de evidenciar uma série de dramas pessoais, marcados ora por erros e equívocos, ora por valentia e altruísmo e muitas vezes, por tudo junto, como salta das páginas do livro de Anita Prestes.

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20 de nov. de 2011

Grécia, Itália e a visão de Marx sobre os "governos técnicos"

Se retornasse ao debate jornalístico no mundo de hoje, analisando o caráter cíclico e estrutural das crises capitalistas, Marx poderia ser lido com particular interesse hoje na Grécia e na Itália por um motivo especial: a reaparição do “governo técnico”. Na qualidade de articulista do New York Daily Tribune, um dos diários de maior circulação de seu tempo, Marx observou os acontecimentos político-institucionais que levaram ao nascimento de um dos primeiros “governos técnicos” da história, em 1852, na Inglaterra: o gabinete Aberdeen (dezembro de 1852/janeiro de 1855).

A análise de Marx é notável por sua sagacidade e sarcasmo. Enquanto o Times celebrava o acontecimento como um sinal de ingresso “no milênio político, em uma época na qual o espírito de partido está destinado a desaparecer e no qual somente o gênio, a experiência, o trabalho e o patriotismo darão direito a acesso aos cargos públicos”, e pedia para esse governo o apoio dos “homens de todas as tendências”, porque “seus princípios exigem o consenso e o apoio universais”; enquanto os editorialistas do jornal diziam isso, Marx ridicularizava a situação inglesa no artigo “Um governo decrépito. Perspectivas do gabinete de coalizão”, publicado em janeiro de 1853. 

O que o Times considerava tão moderno e bem articulado, era apresentado por Marx como uma farsa. Quando a imprensa de Londres anunciou “um ministério composto por homens novos”, Marx declarou que “o mundo ficará um tanto estupefato ao saber que a nova era da história está a ponto de ser inaugurada por cansados e decrépitos octogenários (...), burocratas que participaram de praticamente todos os governos desde o final do século passado, frequentadores assíduos de gabinetes duplamente mortos, por idade e por usura, e só mantidos vivos por artifício”.

Para além do juízo pessoal estava em questão, é claro, o de natureza política. Marx se pergunta: “quando nos promete a desaparição total das lutas entre os partidos, inclusive o desaparecimento dos próprios partidos, o que o Times quer dizer?” A interrogação é, infelizmente, de estrita atualidade no mundo de hoje, no qual o domínio do capital sobre o trabalho voltou a tornar-se tão selvagem como era em meados do século XIX.

A separação entre o “econômico” e o “político”, que diferencia o capitalismo de modos de produção que o precederam, chegou hoje ao seu ápice. A economia não só domina a política, fixando agendas e decisões, como retirou competências e atribuições que eram próprias desta, privando-a do controle democrático a tal ponto que uma mudança de governo já não altera as diretrizes da política econômica e social.

Nos últimos 30 anos, inexoravelmente, o poder de decisão foi sendo transferido da esfera política para a econômica, transformando possíveis decisões políticas em incontestáveis imperativos econômicos que, sob a máscara ideológica do “apolítico”, dissimulam, ao contrário, uma orientação claramente política e de conteúdo absolutamente reacionário. O deslocamento de uma parte da esfera política para a economia, como âmbito separável e inalterável, a passagem do poder dos parlamentos (já suficientemente esvaziados de valor representativo pelos sistemas eleitorais e majoritários e pela revisão autoritária da relação entre Poder Executivo e Poder Legislativo) para os mercados e suas instituições e oligarquias constitui, em nossa época, o maior e mais grave obstáculo interposto no caminho da democracia. As avaliações de Standard & Poor’s, os sinais vindos de Wall Street – esses enormes fetiches da sociedade contemporânea – valem muito mais do que a vontade popular.

No melhor dos casos, o poder político pode intervir na economia (as classes dominantes precisam disso, inclusive, para mitigar as destruições geradas pela anarquia do capitalismo e a violência de suas crises), mas sem que seja possível discutir as regras dessa intervenção e muito menos as opções de fundo.

Exemplos deslumbrantes disso são os acontecimentos dos últimos dias na Grécia e na Itália. Por trás da impostura da noção de um “governo técnico” – ou, como se dizia nos tempos de Marx, do “governo de todos os talentos” – esconde-se a suspensão da política (referendo e eleições estão excluídos), que deve ceder em tudo para a economia. No artigo “Operações de governo” (abril de 1853), Marx afirmou que “o mínimo que se pode dizer do governo de coalizão (“técnico”) é que ele representa a impotência do poder (político) em um momento de transição”. Os governos já não discutem as diretrizes econômicas, mas, ao contrário, as diretrizes econômicas é que são as parteiras dos governos.

No caso da Itália, a lista de seus pontos programáticos ficou clara em uma carta (que deveria ter sido secreta) dirigida pelo Banco Central europeu ao governo Berlusconi. Para “recuperar a confiança” dos mercados, é preciso avançar pela via das “reformas estruturais” – expressão que se tornou sinônimo de dano social – ou seja, redução de salários, revisão de direitos trabalhistas em matéria de contratações e demissões, aumento da idade de aposentadoria e privatizações em grande escala. Os novos “governos técnicos” encabeçados por homens crescidos sob o teto de algumas das principais instituições responsáveis pela crise (veja-se os currículos de Papademos e de Monti) seguirão esse caminho. Nem é preciso dizer, pelo “bem do país” e pelo “futuro das gerações vindouras”, é claro. Para o paredão com qualquer voz dissonante desse coro.

Mas se a esquerda não quer desaparecer tem que voltar a saber interpretar as verdadeiras causas da crise em curso e ter a coragem de propor e experimentar as respostas radicais exigidas para a sua superação.

*Marcello Musto é professor de Ciência Política na Universidade York, de Toronto.
**Artigo originalmente publicado na Carta Maior.

19 de nov. de 2011

90 ANOS DO PCB III - Vitória sobre o nazi-fascimo, Conferência da Mantiqueira e as ilusões constitucionais

O Partido Comunista do Brasil havia ousado assaltar os céus: 1935! Mas o Levante Popular armado fora derrotado e os comunistas e as massas duramente perseguidos, presos, torturados e mortos. Nos anos que se seguiram os gendarmes do fascismo em nosso país brindavam a uma vitória impossível, a destruição do partido comunista. Em 1941, Paris sucumbira à blitzkrieg nazista, atrás dela estavam Holanda, Noruega, Bélgica e Dinamarca. No apogeu da vitória nazista, Vargas saudara a nova era hitleriana e um navio cargueiro alemão era recebido no Brasil com honras de Estado. Delírios febris de uma longa noite que não tardaria em ser rasgada por inscrições firmemente desenhadas nos portos, fábricas e muros da cidade: Abaixo Vargas! Viva o Partido Comunista do Brasil - PCB!
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Derrota do fascismo na Europa, em 2 de maio de 1945

Introdução

As inscrições haviam sido feitas pela Comissão Nacional de Organização Provisória — CNOP, formada em 1941, que reunia quadros e militantes de diversas regiões do país que escaparam do cerco da repressão e assumiram a tarefa de reconstruir os fios da organização partidária entre as massas trabalhadoras. Estavam entre eles: Pedro Pomar, Maurício Grabois, João Amazonas, Diógenes de Arruda Câmara, Amarílio Vasconcelos, Júlio Sérgio de Oliveira e Mário Alves.
A luta pela reconstrução e consolidação do PCB teve que enfrentar o surgimento de posições liquidacionistas de ex-dirigentes encarcerados e vindos do exterior, que advogavam que esse processo seria um entrave à política de União Nacional. Entre eles estavam Fernando Lacerda, Silo Meireles, Carlos Marighella, Agildo Barata, Orestes Timbaúva e José Maria Crispim.

Conferência da Mantiqueira

Dois anos depois a CNOP realiza uma Conferência Nacional, que ficará conhecida como Conferência da Mantiqueira. Nela foram eleitos para o Comitê Nacional, além dos quadros da CNOP, Luis Carlos Prestes e Carlos Marighella.

Na Conferência as definições se resumem às questões táticas do momento. Também não é realizado um profundo balanço sobre o Levante de 35. Esta era tarefa fundamental com que se poderia tirar preciosas lições e elucidar questões cruciais da revolução brasileira.

Entretanto, o PCB é tomado pela falsa ideia de que, com a situação de vitória sobre o fascismo e a atmosfera democrática criada com o fim da guerra, abrira-se a possibilidade para uma transição pacífica no mundo. Pensando assim, a nova direção cairá nas ilusões constitucionais e lançará a palavra de ordem "Constituinte com Vargas". O reformismo se impulsiona lançando bases profundas no PCB, acarretando graves prejuízos para a revolução brasileira. Estas mesmas bases terão grande peso no desenvolvimento posterior do partido.
Para compreender estes acontecimentos se faz necessário abordar de forma mais detida alguns aspectos da situação mundial à época, dada a importância das modificações ocorridas no mundo após a II Guerra Mundial. A compreensão desta nova situação e um acertado balanço da experiência acumulada pelo proletariado no período se tornara decisiva para compreender os novos desafios que o movimento comunista enfrentava.

A situação política no pós-guerra

A II Guerra Mundial em seu início (1939) era "injusta, predatória e imperialista em caráter", como afirmou Mao Tsetung. Mas quando, em 22 de junho de 1941, a Alemanha invadiu a União Soviética, ocorreu uma importante mudança no caráter deste confronto. A URSS opôs à guerra injusta de dominação, a guerra justa de libertação do povo, atraindo o apoio e a solidariedade da classe operária e dos povos oprimidos de todo o mundo. A II Guerra tornou-se assim um componente importante da revolução proletária mundial.
 
Massas de todo o mundo exigiram que os governos de seus países decretassem guerra ao Eixo. Partidos comunistas de países acossados pelo fascismo, na clandestinidade, assumem a vanguarda das guerrilhas antifascistas em diversos países da Europa. O Partido Comunista da China, através da Frente Única Antijaponesa, combate a agressão nipônica. Por iniciativa da Cominter são formadas as Brigadas Internacionais na Guerra Civil Espanhola, para onde concorrem milhares de comunistas de todo o mundo. Muitos brasileiros combateram na Espanha contra o fascismo. 

Com a vitória sobre o Eixo, a situação política no mundo pós-guerra se modifica substancialmente. A derrota do nazi-fascismo significou uma derrota para todo o sistema capitalista mundial e modificou a correlação de forças no mundo.
"Das seis chamadas grandes potências imperialistas (Alemanha, Japão, Inglaterra, Estados Unidos, França, Itália), três foram eliminadas em consequência da sua derrota militar (Alemanha, Itália e Japão). Também a França foi debilitada e perdeu a sua antiga importância como grande potência. Deste modo, restaram somente duas "grandes" potências imperialistas mundiais — os Estados Unidos e a Inglaterra; mas as posições de um desses países, a Inglaterra, foram abaladas"1 .
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Logo, em 1949, um acontecimento de transcendental importância produz grandes mudanças no cenário mundial. A vitória da Revolução Chinesa incorporou 475 milhões de pessoas ao campo socialista e representou uma verdadeira viragem na História. Como observou Mao Tsetung, a China era o "centro de gravidade da Ásia, ao apoderar-se da China os imperialistas se apoderariam de toda Ásia"2. Com isso a Revolução Proletária Mundial atingira um equilíbrio estratégico de forças com o imperialismo.
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Após a vitória da revolução na China, o imperialismo foi derrotado em suas agressões na Coréia (1950-53), Vietnã (1946-54); Cuba (1959), Argélia e outros países da África (1956-62).
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Podemos resumir as modificações ocorridas no pós-guerra da seguinte forma:
  1. Surgimento do campo socialista, reunindo 12 países com uma população total de cerca de 1 bilhão de pessoas, ou um terço da população mundial.
  2. As lutas dos povos na Ásia, África e América Latina, como zonas onde convergem as contradições no mundo contemporâneo. "Centros da tempestade da revolução mundial".
  3. Crescimento do movimento de massas nas metrópoles imperialistas.
  4. Um grande desenvolvimento do Movimento Comunista Internacional.

O novo papel do imperialismo ianque

Ao contrário de uma paz duradoura, esta tinha um caráter apenas relativo e transitório, dada a situação criada com o fim da guerra. Logo, o imperialismo ianque ocupou o lugar dos fascistas alemães, italianos e japoneses na campanha anticomunista e estendeu um império mundial sem precedentes. Sua política de dominação aponta principalmente para a Europa, Ásia e América, e suas armas para a pátria do socialismo no mundo, a URSS.
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É preciso ver que, diferentemente de um fenômeno meramente europeu, o fascismo cresceu como fruto direto do desenvolvimento das formas de dominação burguesa em sua etapa imperialista. O fascismo evoluiu especialmente a partir da grande Revolução de Outubro de 1917 como contrarrevolução armada e se tornara meio convencional de dominação. Basta dizer que em 1935, quando se reuniu o VII Congresso da Cominter, dos 76 partidos comunistas que estavam representados, apenas 22 viviam na legalidade.
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A democracia burguesa após 1945, diferentemente de renunciar aos métodos fascistas, do anticomunismo, passou a combinar a caça às bruxas com a ação do oportunismo e os métodos social-democratas de chantagem e suborno.
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Mao Tsetung proclama a República Popular da China, 1º de outubro de 1949
Em seu informe à Conferência dos Partidos Comunistas na Polônia de 1947,Zhdanov alertara que "a campanha contra o comunismo, proclamada pelos círculos dirigentes americanos, que se apoiam nos monopólios capitalistas, tem como consequência logicamente inevitável a violação dos direitos e dos interesses vitais dos trabalhadores americanos, a fascistização interna da vida política dos Estados Unidos. (sublinhado nosso)
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O plano militar estratégico dos Estados Unidos prevê a criação, em tempo de paz, de numerosas bases militares e quartéis muito distantes do continente americano, destinados a serem utilizados para objetivo de agressão contra a URSS e os países da nova democracia.
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Para o ano de 1947-48, os Estados Unidos destinaram às suas forças armadas 35% de seu orçamento, onze vezes mais do que em 1937-38. No início da II Guerra Mundial, o exército dos Estados Unidos ocupava o 17º lugar entre os exércitos dos países capitalistas, enquanto hoje ocupa o primeiro. A expansão da sua política de dominação se encontrava clara no plano Marshall"3.
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No que concerne à Europa, os planos de expansão do imperialismo encontravam na chamada "Doutrina Truman" as seguintes medidas:
  1. Criação de bases americanas na parte oriental da bacia mediterrânea, com o fim de consolidar o domínio americano nesta zona;
  2. Apoio ostensivo aos regimes reacionários da Grécia e da Turquia, que representam fortalezas avançadas do imperialismo ianque contra a nova democracia nos Bálcãs (ajuda militar e técnica, concessão de empréstimos).
O próprio A. Zhdanov alertara repetidamente que: "O perigo principal para a classe operária consiste, atualmente, na subestimação das próprias forças e na superestimação das forças do adversário"4.

Dissolução da Cominter

Em 1943 fora apresentada pelo Presidiun Executivo da Internacional Comunista a proposta de sua dissolução, baseada principalmente nos seguintes pontos:
  1. A IC cumprira seu papel. Agrupou e impulsionou as diferentes forças do movimento operário, formando e desenvolvendo autênticos partidos marxistas-leninistas.
  2. À maior complexidade e diversidade da situação política e das tarefas em cada país já não correspondiam aos métodos e formas existentes na Cominter, tornando-se mais um empecilho no desenvolvimento dos partidos comunistas em cada país.
  3. Se desmascararia com isso toda a propaganda imperialista dos pactos anti-Cominter e de que os partidos comunistas não são organizações nacionais e sim representantes dos interesses "russos".
A declaração sobre a dissolução salientava ainda que para os comunistas as formas de organização devem servir à política e não o contrário, e de que também Marx, que havia fundado a Primeira Internacional, procedeu a sua dissolução quando esta já havia cumprido sua missão.
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Todo o período dos anos de 1930 e 1940 como continuação das décadas anteriores constituem não apenas uma das mais heroicas páginas na epopeia da humanidade pela liberdade, mas também uma extraordinária experiência para o movimento comunista internacional acerca da estratégia e tática do proletariado. No entanto, experiências capitulacionistas como a do Partido Comunista da Itália, sob liderança de Togliatti, impunham a realização de um balanço mais detido.
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Em particular se fazia necessário o balanço da experiência concreta da aplicação da linha de Frente Única, definida pelo VII Congresso da IC, pelos diferentes partidos comunistas no mundo. O aprofundamento de tal balanço poderia levantar importantes problemas e questões de suma importância para estabelecer corretamente a estratégia e tática do proletariado e seus métodos de luta, assim como responder aos novos desafios que a nova situação demandava. Neste sentido, a Cominter dissolvida em 1943, e mesmo o órgão que a substituiu, a Cominforn (Informação Comunista), poderia ser um importante instrumento para a luta ideológico-política deste balanço.
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Além disso, a situação que se abrira após 1945, de imenso desenvolvimento do MCI, fez surgir em seu seio, como antítese de seu desenvolvimento, uma contracorrente revisionista, oposta ao socialismo e à revolução.

Browderismo e o revisionismo moderno

Este novo revisionismo foi representado primeiro por Earl Browder, secretário do Partido Comunista do USA. Nele já estavam contidos os principais elementos do revisionismo moderno, que logo foi desenvolvido por Tito na Iugoslávia, Togliatti na Itália, Thorez na França, sendo finalmente sistematizado por Krushov no XX Congresso do PCUS, em 1956.
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"Browder começou a revelar seu revisionismo por volta de 1935. Seu lema era: "O comunismo é o americanismo do século XX"5.
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Em suas obras "Teerã: Nosso Caminho na Guerra e na Paz"; "Teerã e América", e "Os Comunistas e a Unidade Nacional", Browder "pregava que a Declaração de Teerã, firmada pela União Soviética, Estados Unidos e Grã-Bretanha tinha aberto perante o mundo uma época de ‘prolongada confiança e cooperação’ entre o capitalismo e o socialismo e podia assegurar uma ‘paz estável por gerações’ (...) .
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Portanto, era necessário opor-se a toda ‘explosão do conflito de classes em nosso país’ e ‘reduzir ao mínimo e colocar limites definidos’ à luta de classes interna
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Browder advogava que depois da II Guerra Mundial, certos países ‘alcançaram as condições em que se tornou possível uma transição pacífica ao socialismo’.
Difundia o ponto de vista de que uma nova guerra seria ‘uma devastação verdadeiramente catastrófica de uma grande parte do mundo (...)’ e de que era necessário ‘nossa ênfase num acordo que supere todas as divisões de classe’ para acabar com o desastre da guerra"6.
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Como observara Mao Tsetung: "A linha oportunista de Browder não foi criticada e liquidada pelo movimento comunista internacional em seu conjunto. Nas novas circunstâncias do pós-guerra, a corrente revisionista experimentou um novo desenvolvimento nas fileiras comunistas de certos países que declararam sua adesão à linha de ‘transição pacífica’. Esta linha tem sua representação destacada na teoria das ‘reformas estruturais’ de Togliatti, que advoga que o proletariado chegue à direção do Estado pela via legal da democracia burguesa e que se leve a cabo a transformação socialista da economia nacional mediante uma ‘nacionalização’ e uma ‘programação’ que sirvam ao capital monopolista"7.
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Partidos comunistas como o italiano (2,3 milhões de membros) e o francês (1,3 milhão de membros), que haviam desenvolvido heroicamente as guerrilhas antifascistas, capitularam frente a burguesia, desarmando suas unidades militares, eliminando a condição de se garantir a hegemonia do proletariado na frente única, integrando-se à legalidade da democracia burguesa.
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Assim se concretizara o perigo de tomar a luta contra o fascismo como uma etapa estratégica à parte da revolução. O próprio Dimitrov advertira no VII Congresso da Cominter (1935), o perigo de se relegar às mãos da burguesia a hegemonia na frente. 
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O caso mais notório foi o da Itália, onde o Partido Comunista, PCI, comandou o desarmamento das forças guerrilheiras e ingressou no governo de coalizão hegemonizado pela burguesia, tornando-se Togliatti ministro da justiça.

A vitória da Guerra Popular na China

Também na China a influência do browderismo teve eco através das posições de Liu Shao Chi, que, após a guerra de resistência contra o Japão, preconizou que a China havia passado a uma nova etapa "de democracia e paz" e que os partidos comunistas deveriam passar da luta armada à luta não armada, de massas e parlamentar. Queria que fossem entregues o exército e as bases de apoio revolucionárias a Chiang Kai-shek, para alçar postos oficiais no governo reacionário e cooperar com a construção do país, ou seja, a "União Nacional".
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Prestes sai da prisão e sobe ao palanque do lado de Vargas
Para derrotar as influências do revisionismo no interior do partido, o PCCh, aplicando resolutamente a dialética materialista, foi quem compreendeu a questão do revisionismo no interior do partido comunista e a luta de linhas como força impulsionadora do desenvolvimento partidário8.
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Mao Tsetung refutou as falsas considerações de Browder e demonstrou como os imperialistas ianques substituíam Hitler nas palavras de ordem anti-soviéticas como pretextos para explorar e dominar o povo em seu país e em outras nações. Frente à ameaça de uma agressão imperialista à URSS, a luta no campo diplomático e determinados acordos com as potências capitalistas eram justas. Entretanto, tais compromissos estabelecidos na diplomacia internacional "não exigem dos povos do mundo capitalista compromissos com seus próprios países". Pelo contrário, de que conjurar a guerra imperialista era possível se "as forças populares passassem à luta resoluta e efetiva contra as forças da reação mundial"9
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Foi neste período que, demarcando posição sobre a situação internacional, Mao Tsetung formulara sua importante tese e conceito fundamental para o povo revolucionário: "O imperialismo e todos os reacionários são tigres de papel". Mao explicou a dupla natureza do imperialismo: do ponto de vista tático são tigres verdadeiros, devoradores de gente, enquanto que do ponto de vista estratégico são tigres de papel. Na realidade, em longo prazo não são os reacionários, mas o povo que é poderoso. 
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Em essência, somente o  PCCh, sob a liderança de Mao Tsetung, soube aplicar corretamente a linha da Frente Única, derrotando as posições de Liu Shao-chi. Diante da invasão japonesa, o PCCh formou a frente única com o Kuomintang e outras forças democráticas. Dirigindo o Exército Popular de Libertação, manteve a independência do proletariado no seio da Frente Única Antijaponesa. Quando foi expulso o invasor entrou em questão a hegemonia, e o PCCh soube romper esta unidade e desenvolveu a terceira guerra civil revolucionária como guerra de libertação contra a grande burguesia compradora-burocrática representada pelo Kuomintang e contra o imperialismo ianque que a apoiava, levando a revolução até o final, proclamando a República Popular em 1949.
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Diferentemente da França e Itália, na China o proletariado não entregou as armas e partindo de suas bases de apoio desenvolveu a luta armada como Guerra Popular até a tomada do poder em todo o país. Esta não é apenas uma especificidade da Revolução Chinesa, mas uma continuação direta do desenvolvimento dialético do movimento revolucionário do proletariado desde a Comuna de Paris (1871) e a Revolução de Outubro (1917), dentro das condições surgidas após o ascenso do fascismo e da guerra.
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É precisamente isso que Stalin destacava ao afirmar a particularidade do desenvolvimento da revolução na China, que representava uma viragem na história da humanidade. Consiste em que a contrarrevolução armada combate não mais o povo desarmado, mas a revolução armada. Stalin afirmava que esta era uma das particularidades e uma das vantagens da Revolução Chinesa. 
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Assim podemos ver como era questão chave tirar lições das experiências destes grandes acontecimentos para poder se preparar para a nova situação criada no pós-guerra, separar marxismo de revisionismo e estabelecer a linha geral para o movimento comunista internacional. A ausência deste balanço (síntese) de forma organizada não permitiu assimilar toda a riqueza dos erros e acertos para impulsionar a ofensiva da revolução proletária, terminando por favorecer a ação do revisionismo moderno que se gestara desde o início dos anos de 1940.

O PCB e a política de "União Nacional"

Também no Brasil as posições do browderismo penetraram profundamente na direção do PCB, influenciando a luta interna e causando grandes prejuízos para o partido e a revolução brasileira.
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A Conferência da Mantiqueira definira como principal tática concentrar todas as forças na luta decidida para ajudar a derrotar o nazi-fascismo e apoiar a União Soviética. Os comunistas organizaram ativa campanha pelo envio de tropas brasileiras ao lado dos aliados.
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Vargas rompe relações diplomáticas com a Alemanha e a Itália, declara guerra ao Eixo e decide enviar tropas à guerra ao lado das forças aliadas.
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Já em 1944 o PCB substitui a consigna revolucionária de 1935 de "Todo poder à ANL" pela oportunista de "União Nacional na Paz e na Guerra". A mesma de Browder, logo substituída por União Nacional para a Democracia e o Progresso.
Com a vitória dos aliados em 1945, o PCB organiza vigorosa jornada pela anistia aos presos políticos, coroada de pleno êxito, sendo Prestes e demais dirigentes libertados. Prestes assume a direção do Comitê Nacional eleito e o amplia para quadros vindos do liquidacionismo, sem que estes tenham feito nenhuma autocrítica.
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O balanço superficial de 1935, tomado como um erro de tipo golpista, e a entrada do Brasil na guerra levam a direção do PCB a mudar a caracterização do governo Vargas, passando a considerá-lo um representante da ala "progressista" da burguesia nacional, sendo um aliado da classe operária e cabendo ao partido apoiar setores progressistas no governo através da política de "União Nacional".
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É de suma importância destacar desde já que esta tese da existência de "setores progressistas no governo", devendo então os revolucionários "apoiar tal governo", é a enfermidade que se tornou crônica no movimento popular e de esquerda no país, manifestando-se quase que como ato contínuo na vida do partido comunista, de suas frações e da "esquerda" brasileira, no período mais recente e dias atuais.
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A influência do browderismo como reformismo fica evidente quando, com o PCB já na legalidade, Prestes, em seu famoso discurso no estádio de São Januário, no Rio de Janeiro, afirma: "Antes da guerra, nós, comunistas, lutávamos contra a democracia burguesa aliada dos senhores feudais mais reacionários e submissa ao capital estrangeiro colonizador, opressor, explorador e imperialista. Hoje, o problema é outro, a democracia burguesa volta-se para a esquerda(sublinhadonosso). Prestes fala de uma "derrota definitiva do fascismo" como sendo possível através da política de "União Nacional". Ora, na condição de país semicolonial, a experiência histórica confirma, é pura traição pretender unir o povo em torno do velho Estado que é o principal instrumento da dominação imperialista. 
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Vejamos como Prestes repete os mesmos argumentos de Browder, de capitulação frente ao imperialismo e de conciliação de classes: "Mas cabe igualmente a todos nós, os democratas do mundo inteiro, apoiar e sustentar a colaboração das três grandes potências, lutando sem repouso pela paz interna em nossa própria Pátria, não poupando esforços para encontrar sempre a solução harmônica e pacífica de todas as divergências e contradições de classes que porventura nos possam separar e dividir" (Prestes, 1945).
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E ainda: "Todos juntos, porém, operários e patrões progressistas, camponeses e fazendeiros democratas, intelectuais e militares, havemos de vencê-la, dirigir nossa Pátria pelo caminho do progresso e salvar nosso povo do aniquilamento físico". (...) "O imperialismo está moribundo e o capital estrangeiro perde a sua característica mais reacionária para se transformar em fator de progresso e prosperidade para todos os povos" (Prestes, 1945) (todos sublinhados são nossos).
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O governo Vargas chegara ao final da guerra profundamente desgastado. Os grandes clamores das massas no mundo e no Brasil, em defesa da democracia e contra o fascismo, tornavam a sua permanência no governo e seu Estado Novo insustentáveis.
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Temendo perder o controle frente às crescentes manifestações populares pela democracia, a grande burguesia e os latifundiários, orientados pelo imperialismo ianque, promovem um golpe militar de Estado depondo Vargas. Para tal serviram-se da glória da FEB, da qual um dos comandantes, o general Eurico Gaspar Dutra, totalmente integrado ao comando das forças armadas do USA, tornara-se homem de sua confiança.
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O governo Dutra convoca eleições gerais e a Assembleia Constituinte e o PCB obtém expressivas votações populares e bancadas fortes no parlamento.
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O PCB, desde sua reconstrução, realizara fecunda atividade entre as massas, lançando bases para o rápido desenvolvimento de suas fileiras. Por sua combatividade e destemor nos anos do Estado Novo, os comunistas gozavam de grande prestígio entre as massas no país. São os heroicos combatentes de 1935, são também parte dos contingentes que lutaram contra o nazi-fascismo na Europa, incorporados na FEB e nas resistências armadas organizadas pelos comunistas naquele continente.
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O PCB impulsiona amplas organizações na cidade entre trabalhadores, estudantes, artistas e intelectuais de peso, como Jorge Amado, Cândido Portinari, Graciliano Ramos, Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira e outros. Grandes comícios são realizados. No campo, organiza ligas camponesas em diversas partes do país.
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Nas eleições de 1947 são maiores os êxitos eleitorais do PCB, que se torna majoritário em vários centros operários do país. Neste ano, o partido chega a ter mais de duzentos mil afiliados. A euforia com o reformismo e o legalismo tomam conta do Partido. Esta euforia, no entanto, não duraria muito tempo.

O terror anticomunista

Dutra, como agente direto do imperialismo ianque, que agora consolidara suas posições enquanto potência dominante, aplicará a política do anticomunismo segundo os padrões ianques da "Guerra Fria" que tem como objetivo estratégico consolidar sua hegemonia no campo capitalista, através de sua integração mundial econômica, militar e política, ademais da ingerência e influência culturais.
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No mesmo ano, o PCB é posto na ilegalidade e os mandatos dos comunistas, cassados.Dutra ordena feroz repressão e, sem qualquer pretexto, prende e tortura os comunistas, intervém nos sindicatos, destituindo seus dirigentes. Em janeiro de 1948 cassa o mandato de todos os parlamentares eleitos pela legenda do Partido Comunista do Brasil e passa, em operações encobertas ou não, a assassinar numerosos militantes.
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O PCB volta à ilegalidade acossado pela brutal repressão. A ofensiva de Dutra é parte da ofensiva contrarrevolucionária capitaneada pelo imperialismo ianque. No interior do PCB ganha força a luta contra as ilusões constitucionais. Com o Manifesto de janeiro de 1948, o PCB iniciará um processo autocrítico do reformismo, que se aprofundará com o famoso Manifesto de agosto de 1950, retomando as teses do caminho revolucionário armado para a tomada do poder.
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Em que pese todas as debilidades criadas com o fenômeno de um reformismo embasado teoricamente, o processo de desenvolvimento do PCB obtém importantes avanços. E o principal é a formação de uma nova geração de quadros e militantes comunistas mais forjados e com maior domínio do marxismo-leninismo. O PCB rompe profundamente com a forte tendência obreirista de suas origens, que buscava identificar as influências pequeno-burguesas apenas na origem de classe dos militantes. O PCB aumentara seu trabalho entre as massas e adquirira maior maturidade política.  
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Mas vejamos que, assim como ocorreu com a maior parte do movimento comunista internacional, o PCB não se empenhou em realizar um sério e aprofundado balanço sobre a experiência de Frente Única. Um esforço em sintetizar as experiências de 1935 com a ANL e a de outras internacionais, como a exitosa Revolução Chinesa, poderiam seguramente levar o PCB a tirar acertadas e preciosas lições. Poderia levar à ruptura com concepções dogmáticas, subjetivistas, atacar na raiz o reformismo para persistir pelo caminho revolucionário. 
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Em particular, os métodos conciliadores adotados por Prestes nesta fase servirão para fazer sobreviver no interior do Partido o revisionismo que fora fincando bases sólidas na direção do PCB, ora de forma aparente, ora de forma velada. Apesar de certa viragem à esquerda com o Manifesto de agosto de 1950, a influência do browderismo, com seu liquidacionismo, não tardaria a voltar à tona.

 1 - Zhdanov, Andrei. Pela paz, a democracia, e a indepência dos povos. Setembro de 1947.
2 -  Mao Tsetung. Adeus Leighton Stuart!. Agosto de 1949
3 - Plano Marshall: consiste na formação de um bloco de países ligados com regular empenho aos USA e na oferta de créditos americanos aos países europeus, em pagamento da renúncia à sua independência econômica e, em seguida, à sua independência política. É, além disso, fundamental no "Plano Marshall" a reconstrução das regiões industriais da Alemanha Ocidental, controladas pelos monopólios americanos. (Zhdanov, Ibidem).
4 - Zhdanov. Op. Cit.
5 - A revolução proletária e o revisionismo de Kruchov, de março de 1964. Nono Comentário do PCCh na polêmica com o PCUS (1963/64). A Carta Chinesa. Ed Terra.
6 - Idem
7 - Ibidem
8 - O PCCh desenvolveu como método de luta de duas linhas as campanhas de retificação, sendo a primeira delas a realizada em Yenan em 1942, que combateu o subjetivismo, permitindo derrotar os desvios de direita e "esquerda" e integrar a linha política geral com amplas massas. Tal contribuição será decisiva para a luta contra o revisionismo moderno e desembocará na Grande Revolução Cultural Proletária, como abordaremos em artigos posteriores.
9 - Mao Tsetung, Entrevista com a jornalista americana Anna Louise Strong, agosto de 1946.


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14 de nov. de 2011

90 ANOS DO PCB (O Levante Popular armado de 1935)

Passados quase 76 anos, as classes dominantes de nosso país cumprem anualmente com seu rito de difamação e injúrias contra o Levante Popular de 35. Apesar de derrotado, o Levante expressou pela primeira vez e de forma clara o programa revolucionário do proletariado brasileiro e o caminho para a conquista do poder para as massas populares através da luta armada.
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Revoltosos quando saíam presos do 3º Regimento de Infantaria da Praia Vermelha

Apesar de não ter podido tirar todas consequências práticas de sua própria formulação, ela fora produto de profunda autocrítica das ilusões eleitoreiras e constitucionais. Mas também é notório que os grunhidos e urros da reação enfurecida, que desde então cunhou seu grotesco bordão de "intentona comunista" para difamar democratas, progressistas e comunistas, revela como o velho Estado de grandes burgueses e latifundiários a serviço do imperialismo treme ante uma revolução popular.

Introdução

Apesar das enormes debilidades e carências que marcaram os primeiros anos de vida do PCB, aos 13 anos de sua fundação ele empreendeu um dos feitos mais importantes da nossa história e do movimento comunista brasileiro: o levante armado antifascista conhecido como Levante Popular de 35. 

Recorreremos a longos trechos do texto A Gloriosa Bandeira de 35, sabidamente de autoria do destacado dirigente comunista Pedro Pomar, publicado pela primeira vez em 1975 no jornal clandestino A Classe Operária (então órgão oficial do Partido Comunista), por ocasião dos 40 anos do levante. Ela constitui-se a melhor análise e síntese sobre o Levante Popular de 35 produzidas pelo Partido Comunista do Brasil nesta fase.

Crise do imperialismo e escalada fascista

Com o irrompimento da crise geral, que se aprofundou com o crack da bolsa de Nova Iorque de 1929, o sistema capitalista vivenciou, até 1933, a mais profunda crise que já havia sofrido.
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Para descarregar sobre os ombros do proletariado a conta da crise e deter o ascenso do movimento comunista, os círculos de poder imperialistas passam aos métodos de dominação mais terroristas. O fascismo, como contrarrevolução armada no poder, estende-se por toda a Europa e todo o mundo.
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Em 1931 o Japão invade a Manchúria, nordeste da China, e em 1933 o Partido Nacional-Socialista de Adolf Hitler sobe ao poder na Alemanha. Em outubro de 1935, a Itália de Mussolini invadia a Etiópia e a convertia em sua colônia. A Alemanha de Hitler armava-se febrilmente a fim de rever pela força os tratados de paz do pós-I Guerra, apoderar-se da Europa e arremeter sobre a União Soviética.

O VII Congresso da Internacional Comunista

A primeira onda da revolução proletária tinha adquirido grande impulso em 1917, e refluíra momentaneamente com as derrotas das tentativas de insurreição na Alemanha e Hungria, voltando a adquirir força nos anos de 1920 e 1930, com o crescimento e consolidação dos Partidos Comunistas em grande parte dos países do mundo.
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Fruto dos êxitos da campanha de bolchevização levada a cabo a partir de seu V Congresso (1924), a Internacional Comunista (Cominter) passou de 65 partidos em 1928 a 76 em 1935.
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Nos meses de julho e agosto de 1935, realizou-se o histórico VII Congresso da Internacional Comunista.À base do relatório de George Dimitrov, o Congresso fez uma completa caracterização do fascismo, definindo-o como "a aberta ditadura terrorista dos elementos mais chauvinistas, mais terroristas do capital financeiro". Demonstrou que "seu poder era feroz, mas precário, que sua ofensiva podia ser detida e derrotada. Todavia, o proletariado devia unir-se urgente e imperativamente, e formar uma frente com todas as forças interessadas na defesa das liberdades, do progresso social e da paz". 
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Frente à escalada fascista, a Cominter formulará a política da frente única da classe operária contra o fascismo, a fim de arrebatar massas sob influência da social-democracia e outras correntes, para uni-las contra o fascismo e a guerra e na defesa dos direitos democráticos dos trabalhadores, estabelecendo um governo da frente popular onde isso fosse possível.
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Apesar de determinadas imprecisões conceituais, como as que deram margem a ilusões burguesas, particularmente nos partidos dos países imperialistas, sobre uma suposta etapa antifascista antes da revolução socialista, que terminou levando partidos a sérios desvios (Togliatti na Itália, Thorez na França, Earl Browder no USA, etc.), as deliberações do VII Congresso da Cominter foram decisivas para munir o proletariado em todo mundo de uma ofensiva linha política antifascista que resultou fundamental para a derrota do nazi-fascismo.

Ascensão fascista no Brasil

O Brasil, como analisa Pomar, padecendo dos males crônicos do predomínio do latifúndio arcaico e subjugação ao imperialismo, encontrava-se muito afetado pela crise de 1929-32. Em meio às dificuldades financeiras, Vargas dava maiores privilégios aos grupos econômicos estrangeiros e aos latifundiários, agravando as condições de vida e de trabalho das massas.

Por sua vez, as medidas progressistas reformistas como voto secreto, jornada de 8 horas, nacionalização do subsolo, direito da mulher ao voto, reconhecimento dos sindicatos, têm como objetivo obter uma base social para a nova acomodação de forças no poder e especialmente corporativizar as massas. E, claro, nenhuma medida que tocasse a principal questão: as relações de propriedade da terra e seu o monopólio. Por isso mesmo, Vargas só atacou aquelas oligarquias mais débeis do Nordeste. Conquistando da fração compradora (exportadores, importadores e banqueiros) a hegemonia do Estado, a fração burocrática (industriais) vai utilizá-la para alavancar seus capitais e, em estreita aliança com os latifundiários semifeudais e associado ao imperialismo, impulsionar o capitalismo burocrático no país.
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Olga Benário escoltada por policial após interrogatório na Polícia Central, RJ

Inclusive depois de derrotar a burguesia paulista na guerra civil de 1932, a aliança de Vargas com as velhas oligarquias reforçou-se mais ainda. O Partido Comunista continuava perseguido, na clandestinidade, enquanto os integralistas1 recebiam franco encorajamento ao tempo que Vargas estreitava relações os regimes fascistas da Europa.
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"Em decorrência dessa política, generalizava-se o descontentamento entre o povo. Nas cidades, o proletariado e as massas trabalhadoras lutavam em favor de seus interesses vitais, das liberdades públicas, fortaleciam suas organizações de classe (...) No interior, os camponeses criavam suas primeiras Ligas, pugnavam por justiça e formavam pequenos grupos de autodefesa para se oporem à prepotência dos latifundiários."*

Desenvolvimento do PCB

Após a autocrítica dos desvios de direita de fins dos anos de 1920 e início dos de 1930 (como a linha eleitoreira do BOC) e com maior vinculação com a Cominter, a direção do PCB adquiriu uma base maior de conhecimento do marxismo-leninismo e o trabalho de massas do partido se ampliou consideravelmente nos principais centros operários do país. 
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A compreensão das teses desenvolvidas pela IC sobre a revolução nos países coloniais/semicoloniais representa um salto significativo do partido, rompendo com as análises superficiais e subjetivistas sem, entretanto, livrar-se de transposições mecanicistas da experiência internacional à realidade brasileira.
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A partir da III Conferência Nacional (1929) o partido decide pela adoção da linha da revolução democrática, agrária-antifeudal e anti-imperialista, definindo o proletariado, os assalariados agrícolas e camponeses pobres como as forças motrizes da revolução. Na III Conferência dos Partidos Comunistas da América do Sul e do Caribe em 1934, em Moscou, enfatizou-se anecessidade da mobilização de amplas massas na luta contra o imperialismo e seus agentes locais, formando a mais ampla frente anti-imperialista.

A fundação da Aliança Nacional Libertadora - ANL

No dia 1º de agosto de 1934 o Jornal A Classe Operária anuncia a filiação ao partido de Luis Carlos Prestes, herói da Coluna Invicta que recebera seu nome2.
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Para auxiliar o trabalho partidário e a revolução, a Cominter envia importantes quadros, como os alemães Arthur Ewert (Harry Berger) e Olga Benário, o argentino Rodolfo Ghioldi, o alemão Johann de Graaf, o italiano Amleto Locatelli, o soviético Pavel Stutchevski, o estadunidense Victor Allen Baron e outros.
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Em 23 de agosto de 1934 realizou-se, por iniciativa dos comunistas, o 1º Congresso Nacional Contra a Guerra, a Reação e o Fascismo, no teatro João Caetano no Rio, com a participação de cerca de dez mil pessoas. Os choques entre integralistas e antifascistas tornavam-se cada vez mais violentos. No dia 7 de outubro de 1934, uma manifestação de integralistas na Praça da Sé, na cidade de São Paulo, foi dissolvida pelas forças antifascistas, reunidas numa primeira ação conjunta para a qual foi decisiva a iniciativa do PCB.
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Em março de 1935 a Aliança Nacional Libertadora - ANL inicia legalmente e de forma entusiástica suas atividades. Seu programa básico é também um importante avanço ao traduzir as aspirações democráticas revolucionárias das classes populares e, repercutindo rapidamente, mobilizou amplas massas por sua execução. Os principais pontos programáticos são:
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1Suspensão em definitivo do pagamento das dívidas externas, sob o fundamento de que já haviam sido pagas há muito;
2Nacionalização imediata de todas as empresas imperialistas, "arapucas" para as quais o povo trabalhava sob terrível exploração;
3Proteção aos pequenos e médios lavradores; entrega da terra dos grandes proprietários aos camponeses e trabalhadores que as cultivavam, visto serem seus únicos e legítimos proprietários;
4Gozo das mais amplas liberdades pelo povo, nele incluídos os estrangeiros que aqui trabalhavam e eram tão explorados quanto os brasileiros; e
5Constituição de um Governo Popular orientado somente pelos interesses do povo brasileiro.
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Esse programa simples se expressou no lema: Pão, Terra e Liberdade
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No ato da instalação, o nome de Luis Carlos Prestes foi aclamado para a presidência de honra da Aliança. Após lançada, a ANL logrou se desenvolver rapidamente como relata Pedro Pomar:
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"O entusiasmo com que as massas receberam a Aliança e seu programa ultrapassou as expectativas. Em pouco tempo, estruturaram-se núcleos aliancistas na maioria dos Estados. Só na capital da República, Rio de Janeiro, neles inscreveram-se mais de 50 mil membros. Em suas fileiras incorporaram-se principalmente trabalhadores, soldados, marinheiros, cabos e sargentos — as camadas mais pobres das cidades. (...) Nunca se testemunhara tão poderoso movimento patriótico de massas, tamanho interesse pelo debate dos problemas nacionais (...) Paralelamente, cresciam as organizações sindicais do proletariado, surgiam centros da intelectualidade em defesa da cultura, associações femininas, entidades juvenis (...)."*
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Ainda assim, só após a reunião do Comitê Central, realizado em maio daquele ano, foram derrotadas as posições sectárias na direção do PCB, que propunham "soviets de operários, camponeses, soldados e marinheiros", que restringiam os setores médios (pequena e média burguesias). Foi sancionada a defesa do Governo Popular Nacional Revolucionário (GPNR), sintetizado na consigna sugerida pela IC: Todo poder à ANL!
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No célebre manifesto de 5 de julho3 da ANL, Prestes propagandeia ardorosamente a necessidade de um Governo Popular Nacional Revolucionário, apontando o levantamento armado do povo como único caminho para sua construção. É a partir daí que a consigna de um Governo Popular Nacional Revolucionário é adotada oficialmente pela ANL. Com o manifesto de 5 de julho a consigna Todo poder à ANL! é lançada para todo país.
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Membros do Comitê Revolucionário de Natal, detidos após a derrota
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O PCB luta por assegurar a independência do proletariado e combate as influências reformistas e legalistas no seio da ANL. Em artigo publicado no jornal A Classe Operária, o comunista Lauro Reginaldo da Rocha (Bangú) combate as ilusões de "resolver a situação nacional dentro dos quadros do atual regime, com Getúlio ou outro Getúlio qualquer no governo, dentro da ordem e da lei feudal-burguesa".
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Bangú prossegue enfatizando a importância do campesinato como aliado fundamental do proletariado: "Ao proletariado cabe a tarefa de estar vigilante e iniciar as lutas com o seu fundamental aliado: os camponeses, contra os grandes senhores de terras e contra as empresas imperialistas, conquistando no processo dessas lutas a hegemonia nas lutas pela libertação nacional do povo brasileiro"4.
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O Partido Comunista prega abertamente a luta armada pelo poder, consigna que logo será adotada pela própria direção da ANL já em maio de 1935: "O que nós, da ANL, proclamamos é a necessidade de um governo surgido realmente do ‘povo em armas’",esclarecendo a seguir que "o GPNR não significará a liquidação da propriedade privada sobre os meios de produção, nem tomará sob o seu controle as fábricas e empresas nacionais"5.

A reação recrudesce

"Mal completara três meses de funcionamento legal, em julho, o governo decretou o fechamento da ANL, sob a acusação de que arquitetara ‘um plano comunista para a tomada do poder’. (...) O nazista Filinto Müller, chefe de polícia de Vargas, desencadeou imediata e drástica perseguição não só aos militantes aliancistas como aos dirigentes de sindicatos independentes e demais organizações democráticas. Sedes foram varejadas; ativistas presos e enquadrados na Lei de Segurança como ‘subversivos’, ‘agentes vermelhos a soldo do estrangeiro’.
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Ao mesmo tempo, o governo e a reação continuavam a apoiar por todos os meios os bandos integralistas. Criaram uma polícia especial objetivando espalhar o terror, aumentaram os efetivos da polícia política. Por seu turno, o Exército e a Marinha entregavam-se ao expurgo de praças e oficiais suspeitos de antifascismo, apressavam-se para prevenir qualquer intento do protesto popular." *

A insurreição de novembro

Com a decretação da ilegalidade, a ANL sofre grande refluxo. O partido toma a decisão de desencadear o levante armado antes de recuperar a sua mobilização. Pomar relata os acontecimentos da situação dramática que se criara para o partido. Diz ele: "O Partido Comunista não vacilou: resolveu preparar e desencadear a insurreição armada. (...) em novembro, sentindo que os acontecimentos se precipitavam, contando com a influência da ALN entre praças e oficiais das Forças Armadas e julgando que o nome de Prestes galvanizaria o Exército, a direção do Partido apressou o desfecho da ação armada e lançou a palavra de ordem de Governo Nacional Popular Revolucionário, com Prestes à frente.
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A 23 de novembro irrompeu em Natal, Rio Grande Norte, a sublevação dos soldados, cabos e sargentos do 21º BC, ali aquartelado. Diversos setores da classe operária e do povo, que já vinham realizando greves e manifestações reivindicatórias e anti-imperialistas, juntaram-se imediatamente aos rebelados (..) Os revoltosos aprisionaram os agentes do governo que não conseguiram fugir. Instaurou-se naquele dia o primeiro governo popular revolucionário da história do país.
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Compunham o novo governo: o sapateiro José Praxedes, encarregado do aprovisionamento; o sargento Quintino Clementino de Barros, da defesa; o funcionário público Lauro Cortes do Lago, do interior; o estudante João Galvão, da Viação (transportes); e o funcionário dos Correios e Telégrafos José Macedo, das Finanças. As medidas iniciais adotadas pelo Governo Revolucionário destinaram-se a baratear os preços dos gêneros alimentícios e das tarifas dos transportes, a moralizar a administração pública, a mobilizar forças para o prosseguimento da luta armada.
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As massas populares exultaram com o triunfo, confraternizaram com os insurretos, deram-lhes completo apoio (...) Rapidamente o movimento se estendeu às cidades do Ceará. Pensava-se levá-lo a todo interior do Estado e a Pernambuco, cujas tradições revolucionárias permaneciam vivas.
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Na manhã do dia 24 de novembro, em Pernambuco, sublevara-se o 29º BC próximo a Recife. Mas o levante foi apenas parcial. Também o vigoroso movimento operário e popular da combativa greve dos ferroviários da Great Western, não tivera tempo de tomar armas. E os insurretos do 29º BC, embora portando-se com extrema bravura, ficaram isolados e tiveram que, ao final, renderem-se.
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Ao saber desses acontecimentos, a direção nacional do partido julgou de seu indeclinável dever prestar solidariedade aos revolucionários do Nordeste, fortalecer a luta que se iniciara. Decidiu-se de imediato lançar ao combate as forças  sob sua influência no Rio de Janeiro e em outros Estados.
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A reação já estava alarmada e se prenunciavam batalhas duríssimas. "Ainda assim, na madrugada de 27 de novembro, efetivou-se o levantamento de numerosos contingentes de soldados e oficiais do 3º Regimento de Infantaria e do Regimento Escola de Aviação, duas das mais importantes unidades militares do Rio.
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Os núcleos aliancistas e as células comunistas nessas unidades executaram sem vacilações, com intrepidez, as diretivas do Partido e da ANL. Os combates, como se previa, foram violentíssimos. A reação concentrou rapidamente efetivos várias vezes superiores, a fim de cercar e atacar os regimentos sublevados (...) Após quase dez horas ininterruptas de luta os sublevados tiveram que se render.
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Nesse mesmo dia 27, o movimento insurrecional do Rio Grande do Norte também cessou praticamente, ante o ataque de forças imensamente superiores (...) Alguns grupos guerrilheiros que ainda subsistiram no interior do Estado, sem experiência e sem confiança neste formidável método de luta, acabaram entregando-se ou dispersando-se.(sublinhado nosso)
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Após quatro dias, durante os quais despertaram a esperança e o entusiasmo das grandes massas exploradas e oprimidas, travaram batalhas heroicas os combatentes antifascistas, com os comunistas à frente, foram batidos, temporariamente postos fora de ação.
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Sobre os revolucionários derrotados recaiu o pesado e cruel, o castigo dos cruzados da ordem. Fuzilaram sumariamente vários soldados prisioneiros. Os que sobreviveram foram recolhidos a presídios, ilhas, navios, etc. Eram milhares. Vargas reclamou e obteve do Congresso o estado de sítio para todo o país.
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Em seguida, levantaram um coro de calúnias com o propósito de difamar a conduta dos revolucionários; difundiram que haviam assassinado oficiais a sangue-frio, violentado moças, etc. A verdade, no entanto, segundo testemunhas insuspeitas, é que os revolucionários agiram com grande generosidade, jamais desrespeitando os prisioneiros." *
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Com a derrota, praticamente toda a direção do PCB é presa. O dirigente comunista alemão Harry Berger, é submetido as mais bárbaras torturas que se tem notícia, resiste bravamente até perecer de suas faculdades mentais. "Berger entregou a nosso povo não apenas sua vida, mas toda sua razão". Sua companheira Elise Saborowski é entregue junto a Olga Benário à Alemanha nazista, onde são assassinadas em um campo de concentração. O comunista estadunidense Victor Allen Baron é assassinado na tortura.

O golpe fascista do Estado Novo

À derrota do levante seguiu-se profunda desarticulação do partido, tendo seus comitês regionais, com exceção da Bahia, totalmente desmantelados e o comitê central tomado por provocadores e policiais. Só pouco a pouco e principalmente com início da Segunda Guerra Mundial que o partido irá se rearticulando. 
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"De 1936 para 1937, a ameaça ‘comunista’ parecia de tal modo inexistente que o ministro da Justiça ordenou a soltura dos presos aliancistas, com exclusão dos mais implicados, dos chefes. Bastou, porém que as correntes populares começassem a dar sinal de vida para que todo o panorama repentinamente voltasse a ficar sombrio."*
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Amedrontadas, as forças reacionárias desencadeiam o golpe fascista de 10 de novembro de 1937, que instaura o chamado Estado Novo, com uma Constituição calcada em modelos fascistas. Vargas teve que recorrer à invenção do famoso Plano Cohen6 para justificar o Estado Novo. Em 1940, no apogeu das vitórias de Hitler, Vargas saudaria a nova era fascista.
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Este golpe se dirige fundamentalmente contra os comunistas, submetidos a um regime de terror, ao mesmo tempo em que atinge vastos setores populares e personalidades democráticas. 
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O PCB, mesmo nestas duríssimas condições com seus quadros presos e incomunicáveis nos porões fascistas, além de profundamente infiltrado, defende suas organizações lutando contra o terrorismo estadonovista e continua liderando a campanha antifascista, como a mobilização para a guerra contra o Eixo7.
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Entretanto, embora exaltasse a insurreição de 35, a direção do partido vai abandonando os objetivos revolucionários e se limita a reivindicações mais imediatas, caminhando paulatinamente para o nacional-reformismo.

Imperecíveis lições

Não obstante os heroicos êxitos, a política do PCB e seu trabalho de frente única padeceram de sérias debilidades, que o conduziram à derrota. Especialmente subestimou e desprezou o campesinato. Ainda que o PCB tenha avançado em compreender as forças motrizes e o caráter da revolução, a construção da ANL fora praticamente restrita aos grandes centros urbanos. O partido, mesmo que continuadamente reiterasse o papel dos camponeses, não se lançara seriamente na sua mobilização e organização.
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Tampouco, ao elencar as classes que compunham a frente única, identificou o papel de cada classe no seio da frente, bem como o conteúdo antifeudal da revolução, relegando na prática o papel do campesinato no processo revolucionário, não apenas como aliado seguro, mas como força principal a ser dirigida pelo proletariado.
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Vejamos que em seu relatório ao VII Congresso da Cominter, Dimitrov, esclarecendo o sentido concreto que devia ter a frente única nos países submetidos ao imperialismo, e particularizando o nosso, dizia: "No Brasil, o Partido Comunista, que construiu uma base correta para o desenvolvimento da frente única anti-imperialista com a fundação da Aliança Nacional Libertadora, deve fazer o máximo de esforços para estender ainda mais esta frente e atrair, antes e acima de tudo, as massas de milhões de camponeses com o propósito de orientá-las na formação de unidades do exército popular revolucionário devotado até o fim ao estabelecimento do poder da Aliança Nacional Libertadora"(sublinhado nosso).*
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"Também o inolvidável Harry Berger insistiria na importância da atividade entre as massas rurais. Berger, dirigente comunista alemão que a Internacional Comunista incumbira de ajudar a luta dos trabalhadores brasileiros, assim que chegou ao Brasil passou a estudar pessoalmente a experiência do surgimento das Ligas Camponesas e de guerrilhas na região do Baixo São Francisco, em Alagoas."
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Argumentava que "enquanto os comunistas não se ligassem às massas camponesas e conquistassem seu apoio, seria impossível obter a vitória, bem como a direção do movimento revolucionário pelo proletariado"* (sublinhado nosso).

O caminho da revolução

Como muito bem afirmou Pedro Pomar, onde mais fortemente se manifestaram as deficiências ideológico-políticas do partido foi na concepção e no método da luta armada, que se resumem a estratégia e tática na luta pelo poder. "(...) O Partido, porém, confiava numa vitória fácil, não levando em conta a realidade, a correlação de forças desfavorável e a própria época imperialista."
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O PCB, ainda muito influenciado pelas posições "tenentistas", superestimou o peso de seu apoio e papel da luta nos quartéis. Além do mais subestimou o impacto produzido pela ilegalidade da ANL, que fizera que milhares de núcleos e militantes desaparecessem da noite para o dia. 
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Ainda que os manifestos e palavras de ordem tenham sido um importante instrumento de mobilização, convocando as massas de forma clara e ofensiva, estes não encontravam organizações de combate estruturadas à altura destas tarefas. Isto tanto ao nível dos núcleos da ANL, mas também, e principalmente, quanto à preparação ainda que embrionária de um exército popular revolucionário.
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Ao propugnar a palavra de ordem do GNPR e deflagrar o movimento, o PCB e a ANL se defrontaram não apenas com grupos de poder muito bem encastelados, mas com a base mesma de sustentação do capitalismo burocrático no país – o latifúndio, a grande burguesia e o imperialismo – o que inevitavelmente já colocava, dada a correlação de forças, a necessidade de um processo prolongado com o qual as forças do povo poderiam passo a passo, do pequeno ao grande, irem se fortalecendo no combate à reação, enfraquecendo-a paulatinamente até inverter essa correlação de forças.
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Ainda que a inevitável derrota se produzisse nas capitais, estas poderiam se tornar apenas derrotas parciais, se o partido munido de uma direção justa, convertesse todo trabalho acumulado na continuação da insurreição através da guerra de guerrilhas no campo; construir passo a passo um exército guerrilheiro popular para derrotar parte por parte o inimigo, transformando assim o fracasso do assalto ao poder de novembro numa exitosa guerra prolongada.
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Vejamos que, em documento de balanço, de junho de 1936, o Comitê Central do PCB dá importantes indicações dos erros cometidos: "No caso de insucesso nos demais pontos do Nordeste, preparar-se para o prosseguimento da luta armada em pontos estratégicos do interior e onde as condições fossem mais favoráveis para a guerra de movimento, criando guerrilhas em todos os pontos percorridos."
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Lembremos que neste mesmo período (de 1934 a 1936) ocorrera a Longa Marcha na China. E as ideias de Mao Tsetung sobre a guerra popular e o cerco da cidade pelo campo já haviam triunfado no Partido Comunista da China, em janeiro de 1935 na reunião ampliada do Birô Político em Tsunyi, cujo aprendizado é de valor inestimável para todos comunistas e de vigorosa vigência na atualidade. O PCCh, diante da derrota da insurreição operária de Xangai em 1927, com a traição de Chiang Kai-shek e o massacre de dezenas de milhares de comunistas, voltara-se para o campesinato sob a liderança de Mao Tsetung, que organizara o Levantamento da Colheita de Outono. Sob esta base, o PCCh ergueu um poderoso exército de operários e camponeses que, através da guerra de guerrilhas estabelecera a primeira base de apoio revolucionária nas montanhas Tchincan, expandindo-a noutras regiões, resolvendo assim problemas chaves para a revolução nos países dominados, como a questão da revolução de nova democracia, da frente única revolucionária, da construção do exército popular, da guerra popular e de seu caráter prolongado.
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Berger inclusive, "durante os cursos de formação política, fazia brilhante exposição a respeito da revolução na China, onde estivera antes, explicando as razões da hoje chamada Grande Marcha, quando o exército de Mao Tsetung e Chu-Te se deslocaram para o interior, onde se encontravam acuados pelas tropas de Chiang Kaichek a fim de postar-se na retaguarda das tropas invasora do Japão, colocando estas entre dois fogos e organizando assim o que se denominara Guerra de Resistência anti-Japonesa, que propiciara a organização do Governo de Coalizão em Tchumking".8
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Contudo o PCB, sofrendo ainda das influências de sua origem e de uma pouco sólida assimilação do marxismo-leninismo, não soube aprender e considerar essas preciosas lições.

Um marco histórico

Em seu balanço Pedro Pomar afirma:
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"Em 1935, as massas deram um salto em sua consciência sobre a necessidade da revolução, ao perceberem que esta deve ser obra delas próprias, de sua iniciativa, de sua unidade, de seus sacrifícios, de suas ações combativas, de uma orientação justa. (...)
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A importância extraordinária da insurreição de 35 reside no fato de que pela primeira vez situou em forma concreta, em termos práticos, para os militantes comunistas e as forças populares, a tarefa da preparação e do desencadeamento da luta armada.
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Nela foram postulados pela primeira vez e de maneira nova os problemas essenciais da revolução brasileira, na fase atual, melhor caracterizadas suas forças motrizes e seus inimigos fundamentais, indicando o caminho da frente única e o da luta armada, bem como revelada a fisionomia de seu verdadeiro dirigente, o proletariado revolucionário, guiado pelo Partido Comunista do Brasil."*

Notas:
*Pedro Pomar, A Gloriosa bandeira de 1935, jornal A Classe Operária nº 102, de novembro de 1975.
1 Integralistas-membros de organização brasileira de orientação fascista e com dispositivos paramilitares, fundandada por Plínio Salgado. Utilizavam fardamento militar de cor verde e usavam a saudação em tupi-guarani Anauê!. Eram conhecidos jocosamente por galinhas verdes.
2 Prestes desde o término da Coluna entabulara discussões com o PCB e o Birô Sul Americano da Cominter em Montevidéu, e depois, em Moscou onde residiu, sendo aceito como membro apenas em 1934.
3 O 5 de Julho era uma data memorável da luta anti-oligarquias no país, fora em 5 de julho de 1922 o Levante do Forte de Copacabana e de 1924 a revolução em São Paulo, episódios que conformavam o Movimento Tenentista que deu origem à Coluna Prestes.
4 "O Governo Popular Nacional Revolucionário e o seu programa", maio de 1935 Arquivo Getúlio Vargas (AGV).
5 A Classe Operária nº 180, de 1O de maio de 1935.
6 Plano Cohen — Uma suposta manobra comunista para a tomada do poder através de assassinatos e invasão de lares. O Plano não passava de uma fraude para justificar o golpe de Estado. Frente à suposta "ameaça vermelha", o governo pediu ao Congresso a decretação de estado de guerra, concedido em 10 de outubro de 1937.
7 Forças do Eixo – denominação dada à coligação nazi-fascista formada principalmente pela Alemanha, Itália e Japão.
8 Lima, Heitor Ferreira. Caminhos percorridos – memória de militância. São Paulo, Brasiliense, 1982. Pg. 200.
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FONTE: http://www.anovademocracia.com.br/no-81/3628-o-levante-popular-armado-de-1935

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