20 de jul. de 2008

Meu reino por um canudo

Por Marcos Fabrício Lopes da Silva em 15/7/2008

O sociólogo Gilberto Freyre, autor do clássico Casa-grande & senzala, nos deixou várias lições a respeito das "normas" que regem o modus vivendi brasileiro. Muitos se lembram da sua famosa (e contestada) tese da democracia racial. Mas, analisando o conjunto da obra deste pensador, considero que há ensinamentos mais contundentes. Citaria, por exemplo, a importância que Freyre conferiu à publicidade, ao criar o termo "anunciologia" para estudá-la. Segundo ele, o conteúdo expresso nos anúncios de jornais do século 19 demonstra as estratégias simbólicas de manutenção da ordem escravocrata, sustentada pelo direito de propriedade. Em suas investigações, Freyre elevou a publicidade à categoria de documento histórico, mostrando que ela não fica nada a dever, enquanto testemunha de uma época, às fontes tradicionais de pesquisa, como livros, manuscritos e registros cartoriais.

Essa perspectiva de Freyre deve ser levada em consideração também nos dias de hoje, considerando os altos investimentos realizados pelas organizações em publicidade. Tudo em nome da visibilidade e do lucro. Para alcançar esses dois objetivos, nada melhor do que uma técnica de venda em escala de massa, baseada em artifícios de persuasão e estratégias de convencimento, que visa a conquistar a atenção do consumidor e a sua ação de compra. O anunciante, por meio da publicidade, oferece uma isca apetitosa, cheia de atrativos. Essa "isca" é a marca, o produto, o serviço que, ao prometer saciar a fome do público-alvo, busca fisgá-lo mais pela emoção do que pela razão. A arte dessa "pescaria simbólica" consiste em seduzir o consumidor pelo encanto da melhor "isca", ou seja, aquela que, dentre as várias concorrentes, promete a saída mais fácil para a resolução do problema do cliente. Tudo em nome do seu bem-estar e conforto. Felicidade é a palavra de ordem.

Prática e teoria

Mas há um sorriso amarelo por trás do "sorriso colgate". E devemos escancará-lo para melhor diagnosticar o problema. Caminhando pelas ruas de Belo Horizonte, fui assaltado, em plena luz do dia, por um outdoor de instituição privada de ensino superior que estampava o seguinte slogan: "O mercado aprova os nossos alunos. Os alunos aprovam o nosso ensino". Logo perguntei: e o professor (sequer ele é mencionado no anúncio)? Qual é o papel do educador nesse jogo?

A meu ver, o professor deve atuar no papel de "estraga-prazeres" desse sistema, que transformou a educação em um produto, em um negócio, passando de direito universal garantido pelo Estado a prestação de serviço gerenciada pelos interesses particulares dos donos das capitanias educacionais. Sistema este que transformou os alunos em clientes, o professor em "unidade de custo ambulante" e que faz do estudante uma extensão do mercado, e não o contrário. Sistema este que transformou os encontros pedagógicos em desencontros demagógicos e que inverteu um processo importante ao promover em demasia a carreira profissional em detrimento do papel fundamental do estudante: o de pensador. Sistema este que enaltece a prática e desmerece a teoria, sendo que a prática é a filha, ora obediente, ora rebelde, da teoria. A prática aponta para a realização. Mas para que exista a realização é preciso dar vazão à abstração que a gerou.

Cidadãos e consumidores

Nessas tenebrosas transações, o diploma deixou de ser a conseqüência de um processo singular de aprendizado. Passou a ser a causa de um investimento feito em busca de um retorno imediato, garantido e sem muito esforço, de preferência. De certificado de conhecimento, o diploma passou à categoria de comprovante de renda.

É muito perigoso e reducionista tratar o estudante como cliente. Reza a cartilha comercial que o cliente sempre tem razão. Acontece que na educação a conduta é outra: deve prevalecer o debate de idéias e de ações entre os agentes envolvidos no processo, não havendo, portanto, "o dono da verdade".

Nesse curto-circuito da educação como negócio, as aulas vêm se transformando em espetáculo, no qual o professor deve se comportar como um showman, isto é, o "boa-praça" que recebe seus alunos com piadas e tapinhas nas costas. Enquanto isso, a turma ri à beça, sem saber na verdade quem é o verdadeiro palhaço desse circo. Ou fingindo não saber. "Eu finjo que ensino, você finge que aprende", eis o pacto da mediocridade roubando a cena. Nesse caso, o professor deixa de ser um provocador por excelência para atuar apenas como um "facilitador". O estudante, por seu turno, torna-se um receptor passivo da aprendizagem, em vez de ser co-responsável pelo conhecimento produzido e discutido em sala de aula. Nesse reino desencantado, vale mesmo tudo pelo tão cobiçado canudo. É o que oferta a instituição privada de ensino superior, anunciante daquele desastrado outdoor. Marcado por uma faceta excessivamente operacional, que deixa a base humanista em segundo plano, esse estilo de fazer ensino superior forma uma tropa de elite de cidadãos imperfeitos e consumidores mais-que-perfeitos.

http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/artigos.asp?cod=494OPP001

18 de jul. de 2008

Educação, academia e baboseiras

Por Gabriel Perissé em 15/7/2008

Se é certo, como dizia um personagem de Shakespeare (Henrique VIII, na peça de mesmo nome), que "as palavras não são atos", também é verdade que as palavras atuam. Por isso falamos e escrevemos. Acreditamos no seu poder. Ou nos dedicaríamos apenas a fazer, fazer, fazer, sem contar nada a ninguém, sem nada anunciar ou comentar.

A vida acadêmica é o lugar das palavras, palavras que nascem da pesquisa, da reflexão. E essas palavras por vezes incomodam, como ficou manifesto na reação da secretária estadual de Educação em São Paulo, Maria Helena Guimarães de Castro, quando da famosa entrevista que concedeu à revista Veja (ed. nº 2047) em fevereiro deste ano.

Dizia Maria Helena nessa entrevista (convém anotar e guardar suas palavras...) que um dos maiores problemas da educação em São Paulo é o nível profissional dos docentes. Quando Veja lhe perguntou sobre possíveis soluções, a resposta foi curta e grossa: "Num mundo ideal, eu fecharia todas as faculdades de pedagogia do país, até mesmo as mais conceituadas, como a da USP e a da Unicamp, e recomeçaria tudo do zero."

O elogio ideológico

As palavras que vêm da USP e da Unicamp, e de outras instituições universitárias, podem (e devem) incomodar. Serão consideradas "baboseiras ideológicas" por quem se considera capacitado a agir mais do que a pensar, alegando não ter tempo a perder com discussões.

No entanto, são precisamente as palavras da academia que, não raramente, cobram do poder público menos palavras e mais ações! Como é o caso do artigo "Ensino sem demagogia" (Folha de S.Paulo, 13/07), de Dermeval Saviani (professor emérito da Unicamp), que vale a pena difundir.

O artigo, em essência, pede (estamos em época de campanha eleitoral...) que os políticos sejam coerentes com os seus discursos. De fato, afirmar com entusiasmo que a educação é prioridade e negar essa afirmação com a prática configura um comportamento cínico e demagógico dos políticos predominantes. Isso, sim, são baboseiras ideológicas: manipular as palavras para manter o outro sob controle. Concretamente: gastar o verbo e negacear as verbas.

Saviani, contudo, deveria esclarecer um importante aspecto da questão. No artigo, relaciona a precariedade das condições de trabalho do professorado paulista ao PDE (Plano de Desenvolvimento da Educação), lançado pelo MEC em 2007. Não é o momento de estabelecer essa relação... ainda.

Boa parte da problemática situação educacional de São Paulo é fruto das decisões tomadas nos últimos 14 anos por um grupo que, hoje, critica as ações e palavras do MEC. Exemplo disto é o elogio (ideológico) que o deputado federal Paulo Renato fez àquela inesquecível entrevista de Maria Helena...

Estado Policial, o que teme a grande imprensa?

Virou moeda corrente o emprego do termo "Estado policial" como forma de classificar um conjunto de ações que, como destacou Leandro Fortes, na revista Carta Capital ( edição nª 504, de 16 de julho de 2008) procurava desbaratar um esquema "que concentra a própria alma das relações entre política,altas finanças e interesses privados impublicáveis". O mundo dá voltas, mas não da forma como deseja o baronato midiático.

Pensar a realidade brasileira à luz da democracia é rever o passado, entender o presente e refletir sobre o futuro, tendo como referência o comportamento da imprensa ante os princípios que, unidos, formam o ordenamento democrático pleno: participação, igualdade, liberdade e solidariedade.

Em algum momento, no atual governo, a Polícia Federal sintetizou substancialmente uma nova ordem que se contrapusesse antiteticamente ao Estado de direito? Apresentou-se como dimensão não só mais limitada, mas também degenerativa em relação a ele? Onde, para justificar a grita, ocorreu revogação de direitos individuais ou supressão de direitos? A resposta é simples. No imaginário de um poder que nunca foi independente dos interesses corporativos e de classe.

Os que hoje se apresentam como fiadores do regime democrático, instâncias de fiscalização dos Poderes, têm uma folha corrida invejável. Sempre que o aparato estatal tentou se constituir como Estado Social, em resposta direta às necessidades substanciais das classes subalternas existentes, o apoio ao retrocesso institucional foi imediato.

Os que hoje se chocam com algemas e supostas pirotecnias nunca hesitaram em legitimar torturas, extermínios e supressões de direitos. Quando foi preciso, não negaram sustentação a que o diálogo democrático fosse substituído pela imposição autocrática. A história da Folha de São Paulo, Estado de São Paulo, Jornal do Brasil se confunde com golpes e “liberalizações sobre controle"

O “Clube da Lanterna”, criado por Carlos Lacerda, foi a matriz discursiva de uma imprensa que nunca deu tréguas a governos democraticamente eleitos. Os principais órgãos de imprensa, com honrosas exceções, atuaram de forma decisiva tanto na formação de consensos da inviabilidade moral e política da preservação dos mandatos, quanto nas soluções intra-elites para resolução dos impasses..

Sequer se deram ao trabalho de atualizar métodos. Em março de 1956, o Globo estamparia em manchete que ”A UDN abre fogo contra Juscelino", reproduzindo discurso proferido na tribuna da Câmara contra o presidente:

"A verdade é que graves escândalos se processam aos olhos do presidente da República, e, ao que tudo indica, com a sua conivência ou, pelo menos, complacência. Suas marchas e contramarchas, afirmações e negativas, estados alternados de euforia e depressão tornaram-no, muito cedo, o mais fraco, hesitante, omisso e desautorizado presidente da República.” *

Transformar intenções em gestos e declarações em fatos faz parte da tradição jornalística brasileira. Importante destacar que o trecho acima foi publicado há 52 anos. Qualquer semelhança com o que é visto nas primeiras páginas da grande imprensa hoje não é coincidência, é método.Uma aula de jornalismo comparado, no tempo e no espaço.

Não muito distinto é o noticiário editorializado do Estado de S. Paulo, em 7 de abril de 1964: "O ex-presidente João Goulart teria sido visto embarcando para o exílio carregando sacos de dinheiro". Expediente narrativo tão grotesco quanto surrado. O objetivo, como hoje, é claramente golpista. Trata-se de conquistar o apoio da classe média, tradicionalmente mais receptiva aos apelos moralizantes. **

Mas talvez os mais emblemáticos exemplos de como o jornalismo, que hoje se apresenta como ferramenta da soberania popular, “enfrentou" um Estado Policial, venha de O Globo, Folha e Estado, nos anos de chumbo. Defendendo o regime militar de acusações de tortura, o diário da família Marinho, destacou em editorial intitulados "Torturas?", publicado em 1969.

"'O Brasil está sendo apresentado em vários países da Europa Ocidental como sede de um regime que colocou a barbárie no Poder, jornais franceses, alemães, belgas, austríacos, ingleses, holandeses, italianos publicam freqüentemente matérias fantasiosas a respeito de 'banhos de sangue' que aqui ocorreriam de torturas etc. (...) 0 Governo está no dever de destruir todas as mentiras que se dizem no exterior contra o regime brasileiro, que, aliás, salvou o País dos mais terríveis torturadores'".

A Folha, da família Frias, no ano seguinte, mostraria toda sua "capacidade de resistência" à ditadura.

"'O país encontra-se em paz, em calma (...) A economia está revigorada (...) Planos de alto valor social e econômico estão em execução - a Transamazônica, o Programa de Integração Social, a campanha contra o analfabetismo etc. (...) Apesar disso, insiste-se lá fora em denegrir a imagem do Brasil (...) Não há outra explicação para essa campanha: má-fé mesmo, uma espécie de represália por não termos permitido que deitasse raízes aqui uma ideologia totalitária e materialista que acredita encontrar na América Latina campo propício para sua expansão'."

O Estadão também não negaria munição às práticas dos porões, transformadas em política de Estado.

"'A opção dos governos que se seguiram à Revolução de 1964 a favor do sistema econômico da livre iniciativa é responsável pelo que hoje já é considerado como o 'milagre econômico brasileiro', e o êxito da política econômica brasileira é a principal causa da campanha anti-Brasil, promovida nos países do Ocidente por elementos que, esquecidos das causas de seu progresso econômico e servindo, consciente ou inconscientemente, aos propósitos do comunismo internacional, remendou aos países do 'Terceiro Mundo' a receita moscovita do 'desenvolvimento não capitalista' tipo nasserista, peruano ou 'democrata cristão' chileno".

São esses mesmos veículos que hoje se apresentam como garantidores da titularidade dos nossos direitos constitucionais। São eles que vêem no governo uma inequívoca inflexão autoritária. Alguém acredita em bruscas rupturas com o passado? Conversões súbitas não merecem melhor análise. Ou, quem sabe, o problema não resida no Estado Policial. Mas em quem o presida.

Gilson Caroni Filho

21 de jun. de 2008

DUAS CARAS E NENHUMA VERGONHA

NOVELA DA GLOBO ESCANCARA NATUREZA ANTIDEMOCRÁTICA DA EMISSORA.

Publicado no Blog do Azenha, aqui

Por Hugo R C Souza, nos jornais O Rebate e A Nova Democracia, quando a novela ainda estava no ar

Antes de a novela Duas Caras estrear na programação da Rede Globo, seu autor, o novelista Aguinaldo Silva, pareceu se inspirar em Luiz Inácio para vender o seu peixe e fazer ecoar sua vaidade. Em entrevista concedida ao jornal Folha de S. Paulo, Aguinaldo Silva disse que nunca a favela havia sido mostrada na TV da forma que sua novela passaria a mostrar. Não disse com estas palavras, mas falou com este exato grau de pretensão. Pouco tempo mais tarde, porém — justiça seja feita —, comprovou-se que ele tinha razão: a Rede Globo, por intermédio da sua novela Duas Caras, e com um nível de ódio ao povo jamais antes demonstrado, vem usando e abusando da dramaturgia picareta para veicular o credo da reação.

São muitos os temas que vem sendo ardilosamente abordados em Duas Caras, desde as Ongs até o movimento estudantil, das relações trabalhistas à vida na periferia, do crime organizado ao racismo. E são os parâmetros da direita que orientam o desenrolar da trama e definem o "quem é quem" das personagens, sempre dentro da lógica dualista do bandido e do mocinho, que caracteriza os folhetins de segunda categoria.

Segundo os valores delineados pela novela reacionária, por exemplo, está certíssima a dona de uma universidade que pretende dirigir uma instituição de ensino segundo as técnicas das linhas de montagem. Ao mesmo tempo, resistindo à ofensiva que pretende fazer com a educação o mesmo que se faz com supermercados, os professores são apresentados como preguiçosos, empenhados apenas em atrapalhar — e não em trabalhar.

A campanha antidemocrática veiculada em forma de teledramaturgia conta com muitos atores de prestígio prestando-se a papéis nem tanto. Na ficção produzida pela Rede Globo, a história é contada com a voz dos adversários do povo, no horário nobre da TV, fazendo uma dobradinha reacionária com o carro-chefe da emissora, o Jornal Nacional. Alguns personagens em especial canalizam o ódio de classe expressado sem meias-palavras em Duas Caras. Senão, vejamos:

Apologia às "milícias"

Personagem central da novela, herói — ainda que com ares de anti-herói — interpretado por Antonio Fagundes, Juvenal Antena é o fundador da favela da Portelinha e se perpetua em mandos e desmandos ao longo dos anos. À frente de um grupo de homens armados, ele é o líder populista, que se senta em um trono e atende as pessoas por ordem de chegada na sede da associação de moradores para lhes dar conselhos, dinheiro e tudo o mais. Seu heroísmo consiste em uma característica central da personagem: o fato de não deixar que o crime organizado se instale na favela.

A todo o momento suas ações são uma justificativa da existência das "milícias" que, na vida real, aterrorizam as populações dos bairros pobres tanto quanto o tráfico de drogas.

Juvenal é o líder comunitário dos sonhos das classes exploradoras, ou seja, aquele que mantém os pobres no lugar que o capitalismo lhes reserva, que trata o povo na base da rédea curta e que exalta a submissão à rotina de trabalhador alienado — e ainda passa fogo nos "vagabundos".

A favela cenográfica da Portelinha, por sua vez, foi inspirada na favela de Rio das Pedras, custou cerca de três milhões de reais para ser construída, e parte de uma premissa ardilosa: a de que o único problema da população favelada é o crime organizado, não importando e nem sendo mencionados "detalhes" como a sistemática exploração do povo sob o capitalismo ou a ausência de serviços públicos básicos nas periferias das grandes cidades.

A Rede Globo costuma colocar na boca do personagem Juvenal Antena algumas das verborragias moralistas e preconceituosas mais repetidas pelas elites hipócritas brasileiras. São frases como a que foi dita quando a personagem encontrou maconha no bolso de um assaltante nos arredores da favela: "Bagulho! Tão vendo só? É esse o combustível dos vagabundos! Caramba, eu não suporto nem o cheiro disso! Detesto quem vende. E também não passo a mão na cabeça de quem usa. Pra mim, são todos da mesma quadrilha!".

"Dama de TitânIo"

É a personagem chamada Branca, uma das heroínas da novela, interpretada pela atriz Suzana Vieira. Na trama, ganhou este apelido da imprensa após chamar a polícia para resolver a ocupação feita por estudantes da universidade que herdou do marido morto. "Dama de Titânio" remete à "Dama de Ferro" Margaret Thatcher, que, quando era primeira-ministra da Inglaterra, moveu uma guerra de aniquilação contra os sindicatos britânicos, inclusive fazendo uso do aparato policial de repressão.

A personagem é a personificação do elogio à velha postura fascista de que a questão social é caso de polícia. Uma das características da novela Duas Caras é o uso de truísmos baratos para tentar desqualificar as posturas da esquerda e legitimar as da direita. A personagem de Suzana Vieira é a campeã absoluta do uso deste estratagema. Quando decide chamar a polícia para reprimir a ocupação da universidade, ela pondera: "Se ser a favor da lei e da ordem é ser de direita, então eu sou de direita".

A granfina que debocha do povo

A esta personagem — uma socialite irônica e de fala refinada chamada Gioconda, encarnada por Marília Pêra — Aguinaldo Silva reservou a tarefa do deboche e da ridicularização das lutas e reivindicações do povo trabalhador. Quando, a propósito da ocupação da instituição de ensino de propriedade da cunhada, uma amiga diz a Gioconda que os estudantes "também chamaram para invadir a universidade o "Movimento dos Sem Casa", ela emenda, pretensamente cheia de razão: "Sem casa, sem educação, sem cultura, sem vergonha na cara!".

Em outro capítulo de Duas Caras, a personagem de Marília Pêra adverte seu marido, Barreto, um renomado advogado dos burgueses interpretado pelo ator Stênio Garcia, sobre o suposto risco de sair às ruas vestido com roupas caras: "Você é rico! E essa é a pior coisa que pode acontecer neste país do 'pobrismo'. Você está correndo perigo, Barreto! Pode ser linchado em praça pública por ostentar o seu dinheiro!".

Foi uma claríssima alusão ao assalto sofrido em São Paulo pelo apresentador da Rede Globo Luciano Huck, e à repercussão do roubo do seu relógio Rolex. Foi também um apoio a Luciano Huck, que recebeu fortes críticas por, após o assalto, ter publicado em jornais do país um artigo de cunho reacionário apelidado de Chamem o capitão Nascimento, frase de destaque no texto, referindo-se ao torturador que é o personagem principal do filme Tropa de Elite.

O intelectual-gerente

A personagem do ator José Wilker assume a reitoria da Universidade Pessoa de Moraes no meio da novela. Ele vivia em Paris, na França, onde foi ficando depois de ser exilado pela ditadura militar brasileira, sendo "repatriado" pela dona da universidade para dar um "choque de gestão" na instituição. Francisco Macieira é mais um dos heróis de Duas Caras, cabendo à personagem a representação do intelectual predileto das classes dominantes, pela ironia que significa a sua trajetória: aquele que um dia já defendeu idéias revolucionárias, mas que acabou aderindo ao receituário liberal, passando a ser um ferrenho defensor da postura dos patrões.

Macieira se relaciona com os estudantes na base da enganação, fingindo fazer-lhes concessões, ao mesmo tempo em que se empenha para impregnar cada centímetro da universidade com a lógica do mercado, incitando os professores à concorrência entre si e revogando seu direito de tirar férias.

O estudante imbecil

É o papel do jovem ator Diogo Almeida. No enredo de Duas Caras, Rudolf é presidente da agremiação estudantil da Universidade Pessoa de Moraes. A caracterização da personagem é uma afronta ao movimento estudantil brasileiro. Na novela, Rudolf só aparece dizendo coisas sem sentido, gritando palavras de ordem simplórias e escondendo-se pelos cantos para chamar a reitora de fascista, gritando quando ela passa pelos corredores da universidade. Nos embates com a dona da instituição e com o reitor, Rudolf sempre sai desmoralizado, ora apresentado como um baderneiro, ora como um ingênuo ou irresponsável.

Através de Rudolf, Aguinaldo Silva e a Rede Globo tentam desqualificar o papel da juventude no processo de emancipação dos trabalhadores e, junto, toda uma história de engajamento dos estudantes brasileiros em defesa das causas do povo.

Ironicamente, a música composta por Gonzaguinha e repetida todos os dias na abertura da novela, tinha como propósito original a exaltação da juventude que não baixa a cabeça, que luta, que se organiza.

O deputado sem ideologia

Trata-se da personagem Narciso Telerman, o político interpretado por Marcos Winter. É deputado, mas não tem partido, não tem projeto, e muito menos segue algum programa político. Parece não ter ideologia, mas — como todos que assim parecem, ou fazem questão de parecer assim — segue a ideologia das classes exploradoras. É mais um da turma do "bem", sempre pronto para estender a mão ao povo da favela da Portelinha, a mexer os pauzinhos para conseguir alguma coisa, a usar sua autoridade para tirar alguém do xadrez. Mas não está comprometido com qualquer tipo de mobilização coletiva.

Narciso Telerman é o modelo de político profissional que a Globo aprecia e a encarnação do político funcional ao projeto conservador. Ou seja: não é corrupto e não se envolve com a luta política em torno das questões de classe. Ao contrário. A personagem de Marcos Winter é como o próprio ator na vida real: envolvido com projetos realizados por Ongs mancomunadas com o patronato.

Teoria da inspiração

Mas não se trata de conspiração; é puro talento! Aguinaldo Silva provavelmente não pede a orientação dos donos da Rede Globo para seguir com este excepcional rigor a cartilha da direita, nem sequer a direção da emissora precisa se preocupar em meter o bedelho nas cenas do próximo capítulo. Não. O autor da novela não suportaria o orgulho ferido. Ele é alguém que goza da total confiança das elites, perfeitamente afinado com a lógica da dominação, devoto a ela, escolado em suas artimanhas, principalmente quando se trata de contribuir com seu próprio lixo para alimentar a teledramaturgia picareta que é veiculada no Brasil.

A experiência em servidão do autor de Duas Caras vem de longe, antes mesmo do início da carreira de novelista. Aguinaldo Silva foi repórter em O Globo, onde trabalhou durante a ditadura militar a serviço dos milicos e contra as aspirações do povo. Uma de suas valiosas contribuições foi a sistemática difamação da luta armada no Brasil quando era repórter de polícia do jornal.

O jornalista francês Alain Accardo escreveu certa vez sobre a "submissão chique" dos profissionais do oligopólio dos meios de comunicação, onde, em geral, basta trabalhar "como se sente", para trabalhar "como se deve". Isto é, diz Accardo, trabalhar em defesa das normas e valores do modelo dominante. Ele se referia especificamente aos jornalistas, mas sua análise é algo que pode ser estendida, pelo menos, aos novelistas:

— Se há um ponto sobre o qual se deve insistir é que a eficácia de tal sistema repousa fundamentalmente sobre a sinceridade e espontaneidade dos que nela investem a si próprios, mesmo que este investimento implique numa certa dose de automistificação. A informação jornalística, tal como é praticada, é passível de muitas críticas e recriminações bem fundamentadas, inclusive a de enclausurar os espíritos na problemática dominante e mesmo no pensamento único. Há algo, porém, que não se pode censurar nos jornalistas, salvo, é claro, casos particulares: a boa fé com que realizam seu trabalho. Tendo internalizado perfeitamente a lógica do sistema, aderem livremente às suas exigências. Agem de forma orquestrada sem necessidade de se orquestrarem. Sua identidade de inspiração torna desnecessária a conspiração.

Ora, a fabulosa inspiração de Aguinaldo Silva para abandonar os temas politicamente corretos e editorializar a história da chamada "novela das oito" não vem de outra musa que não seja a conjuntura atual: a cruzada da Rede Globo para recuperar a grande parcela da audiência perdida em 2007 e a necessidade das elites de responder às contestações vindas do povo.

Mas, acima de tudo, o que inspira as elites e seus cães de guarda —sejam jornalistas, sejam novelistas — é a necessidade desesperada de contra-atacar, alarmados que estão com as resistências à exploração e com a mobilização organizada contra os exploradores.

30 de mai. de 2008

Novas potências

Novas potências

por Renata Cafardo, Seção: Educação fundamental s 16:44:25.

A China e a Índia devem ter em 2015 o dobro de pessoas formadas em ensino médio e em ensino superior do que os Estados Unidos e países da União Européia. Essas são previsões do grupo responsável pela avaliação Pisa, da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), que esteve no Brasil na semana passada.

Hoje, os dois países já passam antigas potências em número de pessoas qualificadas, mas a diferença nem sempre é tão significativa. Há cerca de 40 anos, o que se via era o oposto. Americanos e europeus tinham o maior número de pessoas formadas entre os países do mundo.

China e Índia, além de Coréia e Taiwan, por exemplo, têm investido fortemente para qualificar a sua população nos últimos anos. A porcentagem do PIB aplicada em educação cresceu, a oferta de vagas se multiplicou. E não só isso. Exames internacionais, como o Pisa, têm mostrado uma queda de qualidade na educação americana e de alguns países europeus e um destaque para alunos chineses, coreanos, taiwaneses. Na última prova, em 2006, enquanto Estados Unidos, França e Itália apresentaram resultados somente medianos, os chineses apareciam sempre no topo dos rankings de leitura, matemática e ciência.

http://blog.estadao.com.br/blog/renata/