29 de dez. de 2007

Pesquisa sobre CPMF

Fim da CPMF beneficiou os ricos e a oposição, diz pesquisa

Para a população, a real motivação para a extinção da CPMF foi o interesse da oposição em prejudicar o presidente Lula e dos ricos e empresários. É isso o que mostra uma pesquisa realizada na capital paulista pelo Brasmarket e divulgada hoje pelo jornal DCI, de São Paulo.

O instituto perguntou aos paulistanos qual o interesse por trás da queda do "imposto do cheque". A maioria respondeu que o fim do "imposto do cheque" se deveu ao interesse da oposição em prejudicar o presidente (30,8%) e em benefício de ricos e empresários (23,4%). Para 17,9% dos entrevistados o interesse no fim do tributo foi do povo em geral e para 11% o benefício é dos mais pobres. Outros 17% não quiseram opinar.

A pesquisa mostra que ao menos no discurso o governo venceu. Como a maioria da população não pagava diretamente o tributo, ficou o entendimento de que a CPMF era importante para a saúde e para os programas sociais.

O levantamento mostra mais uma vez o distanciamento das classes populares das reivindicações da classe média. Caberá agora à oposição conseguir recursos para saúde e programas sociais para não ser vista pela população como "vilã".

O Brasmarket ouviu 839 pessoas na cidade de São Paulo nos dias 20 e 21 de dezembro. A margem de erro do levantamento é de 3,5%

(Eduardo Bresciani - repórter de política)

enviada por Etevaldo Dias

Fonte: http://blogdoet.blig.ig.com.br/

26 de dez. de 2007

SERRA NA FOLHA DE SÃO PAULO

Como fazer dos limões uma laranjada

Por Celene Araújo em 25/12/2007

Criado para realizar pesquisas de opinião pública e eleitorais com o máximo rigor técnico e agilidade, o Datafolha firmou sólida reputação a partir de 1989, com a volta das eleições diretas, para as quais a própria Folha de S.Paulo teve um papel crucial e digno de constar como capítulo da História do Brasil.

Desviando-se dessa trajetória memorável, os belos limões do Datafolha ajudaram o jornal a fazer uma laranjada no domingo (16/12) para parafrasear uma expressão em voga atualmente.

Como chamada na primeira página, saiu uma relevante e oportuna pesquisa do instituto com um ranking de avaliação de governadores. O resultado mostrou a seguinte classificação e suas respectivas notas e porcentagem de aprovação:

1º - Aécio Neves (PSDB) - Minas Gerais - 7,7

2º - Cid Gomes (PSB) - Ceará - 6,6

3º - José Serra (PSDB) - São Paulo - 6,5

4º - Eduardo Campos (PSB) - Pernambuco - 6,4

5º - Roberto Requião (PMDB) - Paraná - 6,3

6º - Luiz Henrique da Silveira (PMDB) - Santa Catarina - 6,1

7º - Jacques Wagner (PT) - Bahia - 6,0

8º - Sérgio Cabral (PMDB) - Rio de Janeiro - 5,9

9º - José Roberto Arruda (DEM) - Distrito Federal - 5,3

10º - Yeda Crusius (PSDB) - Rio Grande do Sul - 4,2

O "foguete" Serra

Nas páginas internas, o assunto se desdobra ao longo de seis merecidas páginas, com matérias específicas dedicadas a vários dos governadores ranqueados. Veja se um leitor atento da edição de domingo consegue descobrir o que está destoando na série de títulos escolhidos pela Folha para suas matérias internas:

** "Aécio sofre poucas resistências para administrar Minas"

** "Tucana [Yeda Crusius] se tornou alvo no RS da classe média, do funcionalismo e do Judiciário"

** "Aprovação a Serra aumenta 10 pontos percentuais em 7 meses"

** "Avaliação positiva de Cabral cai 25%"

** "Governo do DF é rejeitado por 30% do eleitorado"

** "Só 2 dos 45 deputados do Ceará fazem oposição aberta a Cid Gomes"

** "Wagner ainda tem problemas essenciais"

Não precisa ser catedrático em semiótica para se constatar que todas as matérias são críticas aos respectivos governadores que lhes servem de tema, exceto aquela dedicada a José Serra, o governador de São Paulo. Senão, vejamos: Aécio e Cid não têm oposição em seus estados. Yeda Crusius enfrenta o ataque da classe média e dos servidores. Cabral cai, Arruda é rejeitado e Wagner "ainda tem problemas essenciais". Mas José Serra, qual foguete, "aumenta 10 pontos percentuais em 7 meses"...

E quem desaprova?

De acordo com o Datafolha, as três maiores notas foram as seguintes: Aécio (7,7), Cid Gomes (6,6) e Serra (6,5). Nas matérias específicas sobre os governadores, o jornal Folha de S.Paulo procura mostrar que Aécio e Cid Gomes só têm um elevado grau de aceitação porque não são fustigados pela oposição no plano regional. De 77 deputados estaduais em Minas, apenas dez fazem oposição a Aécio. De 45 deputados estaduais do Ceará, só dois enfrentam Cid Gomes, mesmo assim para fazer "críticas pontuais" na área de segurança pública. Cid Gomes passeia "com um governo quase sem oposição, formado por um leque de aliados que vai do PT ao PSDB" – e "até deputados de partidos excluídos da base aliada, como o DEM, poupam Cid de críticas mais incisivas".

Por que a Folha não concedeu a Aécio e Cid Gomes o direito de serem bem avaliados pela população por méritos de suas administrações públicas, como fez com José Serra?

Além do festivo título, encontro na matéria de Serra que ele enfrentou crises com o meio acadêmico e com o acidente nas obras do Metrô, ameaças de greve e manifestações. A Folha me informa que o governador concedeu reajustes para os funcionários na área de segurança, antecipou bônus na Educação e adiantou o décimo terceiro. Apesar dos escândalos de corrupção que enfrentou, não houve ataques do PCC nem rebeliões na Fundação Casa. Melhor: conseguiu redução de 21,76% nos homicídios, vendeu a folha de pagamento para a Nossa Caixa, parcelou a dívida, aumentou o limite de endividamento do Estado, garantiu recursos para investimentos como recuperação de vicinais, faculdades de tecnologia e o Rodoanel. Uau!

O texto esmiúça o levantamento, identificando os melhores desempenhos alcançados de acordo com os extratos sociais definidos pela pesquisa. E quem desaprova o governo Serra, por que o faz?

Neste quesito vale observar que no caso dos governadores mais bem avaliados que Serra não se tem informação sobre nenhum recorte da pesquisa (renda, escolaridade etc.)

Informar o público

Ao interpretar os números do Datafolha, o jornal destilou o preconceito segundo o qual mineiros e cearenses – ao contrário dos paulistas – não conhecem a realidade e, por isso, apóiam Aécio e Cid Gomes. Ou está dizendo que, se houvesse uma oposição vigorosa na Assembléia, o povo certamente deixaria de apoiá-los. Mas, em que pilar da ciência política está assentada a ligação de causa e efeito entre baixa oposição parlamentar e elevada popularidade de um governante? Ou o seu contrário, de elevada oposição e baixa popularidade do governante? Por acaso José Serra também tem boa nota (6,5) e pouco abaixo de Cid Gomes) pelo fato de se beneficiar de uma oposição complacente em São Paulo?

A edição, de seis páginas, é um primor de descumprimento do Manual de Redação no célebre capítulo sobre "ouvir o outro lado". No Ceará, a Folha ouviu o oposicionista Heitor Férrer (PDT) e usou uma declaração do secretário da Fazenda apenas para confirmar a crítica da oposição. Em Minas, todas as fontes ouvidas são de oposição – foram entrevistados a deputada do PT Elisa Costa e um sindicalista. No Rio Grande do Sul a mesma coisa: deu-se voz apenas ao deputado Raul Pont (PT) e ao presidente da Federação Sindical dos Servidores Públicos. Já em São Paulo, sabem quem foi entrevistado da oposição para falar da avaliação positiva de Serra? Ninguém... A matéria é olímpica e não traz entrevistas, fazendo um oba-oba para o governador paulista.

Um dos nomes mais em evidência para disputar o cargo de presidente da República, José Serra é um político de grande capacidade e méritos reconhecidos e respeitados até por seus adversários. Se a Folha escolher o nome dele como seu preferido para a disputa de 2010, essa pode ser uma boa opção eleitoral e um direito do jornal em fazê-lo. A cada eleição, dois expoentes das rotativas no planeta, o New York Times e o Monde, comunicam a seus leitores quais os candidatos da sua preferência, mas procuram evitar que essa escolha política contamine o noticiário. Caso a Folha adote um caminho semelhante, seria pelo menos de bom tom informar isso a seu vasto público. Com transparência, de um limão é possível sempre fazer uma boa limonada.

http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/artigos.asp?cod=465IMQ004

17 de dez. de 2007

Blog do Alon

Marketing amador (16/12)

Luiz Inácio Lula da Silva defende bem os interesses políticos dele ao mandar o ministro da Fazenda catar coquinho e esquecer do tal novo imposto para financiar a saúde. Qualquer um que raciocine cinco minutos perceberá que uma nova proposta do Executivo nesse sentido representaria a oportunidade de ouro para a oposição, especialmente o PSDB, saír do banco de areia movediça em que se meteu, ao derrubar a prorrogação de um imposto cujos recursos abastecem a saúde pública e os programas sociais do governo. Recursos que, tonificados, iriam integralmente para o Sistema Único de Saúde (SUS) em futuro próximo. Um novo projeto arrastaria novamente o governo para uma refrega no Senado, terreno desfavorável. Para debater uma agenda que nem a oposição defendeu na última campanha eleitoral. Como Lula é bem mais esperto politicamente do que Guido Mantega, aparentemente decidiu deixar o PSDB em paz na oposição, tendo que responder doravante pela atitude que adotou na votação da última quarta feira. Para quem ainda não percebeu o tamanho do problema político-eleitoral do PSDB, vale ler o artigo semanal do senador José Sarney (PMDB-AP) na Folha de S.Paulo, publicado nesta sexta-feira, a respeito da Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF). Destaco um trecho:

O certo é que, com os anos, a aplicação desse imposto foi de boa qualidade. Tem sido uma grande arma, que evitou, a partir de 2001, que fossem sonegados R$ 6 bilhões anuais. Depois, 72% dele são pagos por empresas. Apenas 17% são pagos por quem ganha mais de R$ 100 mil. A metade da população mais pobre contribui com apenas 1,8%. Ele é empregado em Bolsa Família, aposentadoria rural, saúde. Outro aspecto bom é que ele corrige as desigualdades regionais. O Norte e Nordeste, por exemplo, arrecadam 24% e recebem 42%. É uma transferência de renda. Mas a oposição não quis ouvir nada, porque, como se diz no Nordeste, quando boi não quer beber, não adianta assoviar.

Clique aqui para ler a íntegra
. É isso. Quase três quartos da CPMF são pagos por empresas. quase um quinto do dinheiro da contribuição vem da conta bancária dos brasileiros que ganham mais de R$ 100 mil (imagino que por ano), a metade mais pobre da população entra com menos de 2% do total e as regiões mais carentes do país recebem quase o dobro do que arrecadam. Trata-se, portanto, de um imposto marcadamente social. Eu conheço os argumentos contrários. Alguns deles são contorcionistas. Como por exemplo o fato inegável de que os pobres, por serem mais pobres, utilizam percentagem maior de sua renda para pagar o custo da CPMF embutido nos produtos e serviços. Respondi a isso em Quando o antipopulismo encontra a vida real:

Se fosse assim, dever-se-iam adotar alíquotas progressivas, de acordo com a renda do consumidor, nos impostos sobre valor agregado, como por exemplo o Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS). O rico pagaria uma alíquota maior de ICMS do que o pobre, ainda que ambos comprassem exatamente o mesmo produto. Ninguém propõe isso, por duas razões. A primeira razão é que se trata de uma maluquice. A segunda razão é que a pressão contra o pagamento de impostos provém principalmente de quem poderia e deveria pagar até mais do que paga hoje.

Por que em vez da CPMF não começaram então acabando com o ICMS? Como diria o habitualmente elegante senador Sérgio Guerra (PSDB-PE), trata-se apenas de conversa fiada. Quem ganha muito não quer pagar imposto, pois não precisa do estado para nada. Ou para quase nada, já que do dinheiro a juros subsidiados do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) eles não abrem mão. Como tampouco abrem mão de dar o calote nos generosos empréstimos de bancos estatais para a atividade rural. Nem da publicidade oficial. Etc. Mas chega de lero-lero. Este post é sobre marketing, assunto no qual eu sou amador. É nessa condição que opino. Como observador atento, percebo que a vida política no Brasil tem dois momentos bem distintos, e que se alternam conforme o biorritmo eleitoral. Quando a eleição passa, entra em cena a turma que defende redução de gastos públicos, que ataca o populismo e o assistencialismo, bem como qualquer mecanismo de transferência de renda por meio do estado. Mas, quando a nova eleição vai chegando perto, o mesmo político que cultivou cuidadosamente a ladainha liberal (o que, por sinal, pode ser decisivo para que ele adentre ao panteão dos queridinhos da opinião pública e adquira a necessária imunidade) coloca uma camisa simples e vai ser filmado num restaurante popular (aqueles a R$ 1), num posto de saúde, numa creche ou em outro equipamento público qualquer destinado à população mais pobre. Até o Democratas centrou fogo no viés social de suas prefeituras em seu mais recente programa gratuito no rádio e na televisão. Aí eu fico pensando como vai ser na próxima eleição, se um marqueteiro esperto do situacionismo bolar algo mais ou menos assim. Entra um locutor, com uma cara bem feliz:

- Nos últimos anos, o Brasil melhorou. (Tantos) milhões de pessoas deixaram de ser pobres e entraram na classe média. Isso aconteceu por três motivos. O primeiro é o que o país cresceu e aumentaram muito as oportunidades de trabalho. O segundo é que com a inflação controlada e o salário maior você pode comprar mais coisas para você mesmo e para sua família. E o terceiro é que o governo Lula aumentou muito os investimentos na área social. Na saúde, na educação e no Bolsa Família.

Aí o locutor fica sério e adverte:

- Mas, cuidado. Antes de votar, pense bem. O candidato adversário é de um partido que participou do movimento para derrubar a CPMF, o imposto do cheque. E não propôs nada para colocar no lugar. Muita gente tinha críticas à CPMF, mas ela cumpria uma função importante. Todo o dinheiro ia para a área social. Ia para a saúde, para a aposentadoria rural e para o Bolsa Família. E o imposto era justo: só era cobrado de quem tinha conta em banco. E cada um pagava de acordo com o dinheiro que movimentasse na conta. O rico pagava muito e o pobre não pagava quase nada. Infelizmente, o partido do candidato adversário acabou com o imposto do cheque. Por causa disso, só nos últimos três anos mais de 100 bilhões de reais deixaram de ser aplicados na rede pública de saúde. 100 bilhões a menos em hospitais, postos de saúde, remédios e vacinas.

E conclui:

- Por isso é que é importante pensar bem antes de votar. Se eles fizeram isso quando estavam na oposição, você já imaginou o que eles serão capazes de fazer se ganharem a eleição e chegarem ao governo?

A oposição tem três anos para pensar numa boa resposta. Dada a quantidade de gênios e profissionais em suas fileiras, não vai ser difícil bolar uma que sirva.
Fonte: blog do Alon

29 de nov. de 2007

ODIAMOS LULA

Lula, por que o ódio da imprensa?



No momento em que o Brasil entra pela primeira vez para o grupo de países com alto Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), a imprensa destaca a sabotagem parlamentar da oposição oligárquica como expressão de resistência cívica. Exalta todos os mecanismos de obstrução, após ter enquadrado o PSDB nos marcos do lacerdismo. É o conhecido agendamento que não tem qualquer compromisso com um projeto efetivo de nação. São tempos difíceis. Ativismo judiciário e partidarização da mídia como instrumentos de golpe permanente compuseram a novidade política de 2007. Talvez o que mova a roda do retrocesso seja nostalgia de tempos recentes.

Ao tomar posse como governador da Bahia, em 1947, Octávio Mangabeira, o velho cacique udenista, definiu a democracia brasileira "como uma plantinha tenra que precisa ser regada todo dia". A divulgação, em 2004, da pesquisa realizada pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) não deixava dúvidas: quase seis décadas depois do discurso do parlamentar baiano, poucos eram os vocacionados para botânica ou jardinagem em nosso país.

Dos 18 países latino-americanos pesquisados, o Brasil ficou em 15º lugar quanto à adesão popular à democracia. O estudo registrava ainda que o Brasil era o país com maior grau de democracia eleitoral. Estaríamos diante de um paradoxo? Uma contradição capaz de colocar sob suspeição o rigor metodológico empregado? Não. Para o bem e para o mal, estávamos na presença de um alerta. E a imprensa deveria acionar suas sirenes. Mas o "apreço democrático" é um disfarce recente.

Depois de 20 anos de regime militar, vivíamos um arremedo de democracia que não ousou ir além da restituição dos mecanismos representativos do sistema político e do ordenamento jurídico. Uma institucionalidade que nunca se propôs a arranhar, ainda que levemente, os interesses das elites dominantes. Sejam os das que se encastelam no universo político conservador, sejam os das abrigadas na ampla rede que vai do latifúndio aos grupos empresariais mais expressivos.

Produtos de transição por alto, em mais uma ação intramuros da nossa permanente saga pré-republicana, os governos civis que sucederam os generais de plantão não elaboraram qualquer agenda de inclusão efetiva. Sob o tacão do receituário neoliberal, a "estabilidade democrática" foi a consagração da não-política, do não-acontecimento, do não-devir.

Ao terror de Estado sobreveio a ditadura do mercado. As abstrações econômicas, expressas em riscos e cotações de títulos públicos, se superpuseram às relações sociais concretas. O estadista sensato foi redefinido como sendo aquele que tranqüiliza o capital volátil e facilita o cálculo contábil.

O pensamento único invocou sua atemporalidade, transmutou-se em ciência natural e transformou a política em apêndice ou – quem sabe? – ornamento. A mídia, em meio à tempestade, se arvorou em instância de representação da esfera pública esvaziada, através da terceirização de suas colunas de política e economia a consultorias financeiras e cientistas políticos regiamente remunerados. FHC, personificado como tipo ideal de estadista, foi uma ficcão urdida nas tramas urdidas em conhecidas redações. Se já não era possível sustentar a excelência acadêmica, salvava-se a figura do gerente sensato.

O resultado foi devastador: 52 milhões de brasileiros vivendo abaixo da linha da pobreza, taxas recordes de desemprego e 30 mil vítimas de assassinato por ano. O número de menores entre 10 e 17 anos que trabalhavam na rua atingia, segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (PNAD), um contingente de 263 mil crianças, em 2002. E dos adultos ainda empregados, apenas 45,2% contribuem para a Previdência. Aumentava a concentração de renda e acentuavam-se as desigualdades regionais. Sobreviver tendo entre 15 e 24 anos tinha virado proeza de quem sabe se esgueirar bem em vielas e condomínios.

Diante desse quadro, presenciamos, como sempre, por parte da grande imprensa, uma demonização sistemática dos movimentos sociais que pretendiam inscrever como sujeitos de direito, categorias até então à margem da história. Apresentados como disfunções, expressões patológicas, sintomas anômicos, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra(MST), a União dos Movimentos de Moradia (UMM) e a Confederação Nacional de Trabalhadores na Agricultura (Contag) produziam, como é normal em uma sociedade fracionada, confrontos ao agenciar demandas legítimas.

Como a cultura política de uma formação social muito depende das representações simbólicas que a mídia fazia (e faz) dos atores e dos grupos políticos, o recorte resultante reproduz o que já sabemos: ao povo, quando pretende ser protagonista da própria história, é pespegado o rótulo de baderneiro. Gente que não tem causa e vive uma insatisfação difusa e inorgância. A célebre plebe rude.

Assim, tratados como caso de polícia, são apresentados como pontos de desestabilização, agentes que põem em risco o "ordenamento democrático do Estado de Direito". Logo eles, que tanto lutam por seu fortalecimento. Se observarmos as dinâmicas dos movimentos organizados, nenhum deles sinaliza para pleitos que representem rupturas com os marcos da legalidade vigente. Grosso modo, pedem à burguesia que perca sua atávica submissão ao capital externo e instaure reformas que viabilizem um capitalismo nacional, sem veleidades autárquicas. Conhecem, e muito bem, a dinâmica transnacional da economia contemporânea para propor as bravatas que a imprensa lhes atribui.

Enquanto prosperar a cultura da intolerância classista, não restará ao homem comum outro gesto que não seja o da persignação ao ouvir a palavras Direito e Estado democrático. Legítimo será indagar pelo contraponto de suas demandas: se os movimentos sociais, que agenciam novos espaços ético-políticos, são um risco à democracia, quais serão os pilares de tal forma de governo? O superávit primário visto como um fim em si mesmo? As metas de inflação? O agrobusiness que ignora o mercado interno? Com a palavra , editores e editoras do pensamento único.

Se a plantinha tenra insiste em nascer nos grotões do latifúndio improdutivo, que as elites a reguem com carinho. Porque ele, sujeito sem direitos, excluído do jogo político, alvo móvel da bala que serpenteia favelas e palafitas, tem que cuidar da parte que lhe cabe nesse jogo de soma zero que alguns chamam de vida.

Segundo o estudo do PNUD, há três anos, 54,7% dos cidadãos latino-americanos aceitariam um governo autoritário se ele pudesse resolver seus problemas econômicos. E 58,1% achavam que o presidente pode ignorar as leis.

O alerta estava dado. O encaminhamento político que seria dado a ele é que definiria. nossa situação futura. Para entendermos o ódio das páginas e telas é bom olhar dados recentes, números que incomodam os protagonistas de uma ordem cada vez mais distante. Sempre é necessário lembrarmos alguns avanços nos cinco últimos anos: reajuste salarial superior à inflação para 85% dos trabalhadores; redução da pobreza em 8%; inclusão bancária de 6 milhões de brasileiros e fim da dependência com o FMI e sua tutela,entre outros.

Para as oligarquias demo-tucanas é aí que reside o intolerável. O instinto de sobrevivência política não lhes deixa outra alternativa que não seja o de, mais uma vez, inviabilizar um país que se anuncia menos excludente e mais democrático. São incapazes de, mesmo na oposição, estabelecer um pacto de Estado. Não podem conceber que um governo dialogue com movimentos organizados. Não têm agenda ou projeto de país. Nasceram para a subalternidade e é nela que ser reconhecem como personagens relevantes. A chantagem fiscal é apenas uma das estratégias do eterno retorno do atraso. As máquinas não devem parar. O IDH veio em má hora.

Gilson Caroni Filho é professor de Sociologia das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha), no Rio de Janeiro, e colaborador do Jornal do Brasil e Observatório da Imprensa.


Gilson Caroni Filho é professor de Sociologia das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha), no Rio de Janeiro, e colaborador do Jornal do Brasil e Observatório da Imprensa.



18 de nov. de 2007

A história revista e interpretada por várias vertentes

Entre leituras liberais, revisionistas e marxistas, a revolução evoca o embate atual que continua a opor direita e esquerda

Francisco Quinteiro Pires

Estado de São Paulo

O perigo de ignorar os fatos históricos, quando se aceita passivamente a bitola ideológica, é que eles podem se voltar contra a humanidade, impossibilitada de compreender a dimensão e os matizes do processo histórico, no qual os indivíduos podem influir de fato. Segundo o historiador Edward Acton, da Universidade East Anglia, do Reino Unido, e autor de Rethinking The Russian Revolution (Oxford), três vertentes interpretativas sobre a Revolução Russa se fizeram notar, sobretudo nos meios acadêmicos europeus, durante o século 20 - a soviética ortodoxa, a liberal e a revisionista. A primeira diz que a revolução era inevitável e irreversível e aponta o partido bolchevique como o líder legítimo da ditadura do proletariado e portador do direito de governar para sempre. A segunda entende a Revolução Russa como antidemocrática, um produto de ocasião, “um desvio na estrada da História cujo fim é o capitalismo e a democracia”. Os bolcheviques não passam de manipuladores, donos de aguda inteligência tática e dirigentes de uma massa de indivíduos vulneráveis por viverem um momento histórico de caos e fraqueza do governo. “O czar é considerado incapaz, até maluco, Lênin é apenas um estrategista competente e existe a certeza absoluta de que o regime soviético não tem legitimidade nenhuma”, diz Edward Acton.

“As abordagens soviética ortodoxa e liberal mantiveram um diálogo de surdos”, afirma Acton. “A leitura liberal, que é direitista, afirma que, no embate entre esquerda e direita, o colapso soviético representa a derrota esquerdista, e o socialismo é tido como uma experiência exclusiva da URSS”, ele continua. Até a esquerda crítica ao regime dos sovietes se sentiu derrotada. A linha revisionista rompe essa falta de diálogo, ao avaliar que a ascensão dos bolcheviques - condutores das classes operária e campesina - para implantar o socialismo é um evento histórico que não pode ser tratado como um golpe de Estado dado por uma minoria, mas como uma revolução de massas, feita de baixo para cima, por um povo frustrado - os camponeses reivindicavam o acesso à propriedade fundiária e os operários, a conquista de melhores condições de vida. “Para os revisionistas, a revolução seria feita mesmo se não eclodisse a 1ª Guerra Mundial para agravar a situação russa e os bolcheviques teriam criado um Estado para reprimir os socialistas rivais”, diz Acton. A Rússia vivia um impasse estrutural e o advento da 1ª Guerra levou ao paroxismo a crise do país. Camponeses são recrutados para lutar pela Rússia e os sobreviventes, quando desertam, têm o trunfo das armas para promover a revolução contra o governo provisório presidido por Alexander Kerenski.

Mais do que isso é prematuro afirmar quando se sabe que, com o fim da guerra fria, os regimes socialistas sob influência da URSS libertaram as academias, não mais obrigadas a utilizar a estrutura teórica marxista-leninista como ferramenta historiográfica, e os arquivos se tornaram disponíveis em razão do afrouxamento do controle político oficial. O foco historiográfico faz novos recortes como o da iconografia, do discurso, da vida privada e da sexualidade do pós-Revolução Russa.

Outro risco histórico é conceber a URSS, criada em 1922, como bloco histórico homogêneo e conseqüência dos ideais defendidos em outubro de 1917. Vários professores ouvidos pelo Estado concordam com o entendimento de que a ascensão de Joseph Stálin, nos anos 1920, fortaleceu a burocracia estatal, criadora de privilégios cuja manutenção se tornou prioridade, em detrimento da implantação progressiva do socialismo.

De acordo com o historiador Angelo Segrillo, autor de O Declínio da URSS (Record), o engessamento político-econômico do stalinismo personificado pela burocracia seria o responsável pelo imobilismo do Estado até o seu término em 1991, mesmo depois de Nikita Kruchev ter apontado no 20º Congresso do Partido Comunista da União Soviética os desmandos stalinistas e ter distendido o regime soviético. A promessa feita no começo dos anos 1960 de que a URSS, “dentro de 20 anos, ultrapassaria os EUA em produção e produtividade não seria cumprida diante do capitalismo que mudara a dinâmica da competição econômica e dera flexibilidade ao paradigma trabalhista, como no toyotismo, adequado à exigência de difusão de criatividade e sucessor do fordismo, que era semelhante à estrutura de trabalho das fábricas soviéticas na primeira metade do século 20”, diz Segrillo. No entanto a meta irrealizada não significa que o socialismo como modelo de organização econômica tenha uma ineficiência inerente, como argumentam os liberais, sobretudo quando se observam a expansão da economia soviética entre os anos 1930 e 1960 e o avanço científico-tecnológico, comprovado pelo pioneirismo na conquista do espaço nos anos 1950, segundo Segrillo. Essas comparações mostram como durante o século passado o socialismo, estado de transição entre capitalismo e comunismo, parece ter funcionado na URSS como um regime para rivalizar com o do capital e não substituí-lo, por força da atuação do proletariado no poder. As inovações soviéticas no campo militar e espacial, porém, não foram transferidas para a indústria civil.

Diretor do Centre National de la Recherche Scientifique, na França, Michael Löwy, que não participou dos seminários e sobre quem vários especialistas escrevem no As Utopias de Michael Löwy (Boitempo), cita a filósofa Rosa Luxemburgo para afirmar a impossibilidade de “construir o socialismo sem liberdades democráticas, de opinião e organização”. Além de fortalecer os burocratas, ressuscitando o elemento autocrático do czarismo, Stálin transformara o espírito crítico em crime de Estado, apesar da advertência de Karl Marx sobre a necessidade incontornável de haver autocrítica constante dentro do socialismo. “Assassinado por um agente da GPU, serviço secreto stalinista, em 1940, no México, Trotski observava que o bolchevismo e o stalinismo eram separados por um rio de sangue”, continua Löwy. Como parece regra geral na História da humanidade, a Revolução Russa apresenta resultados imprevisíveis, apesar da clareza ideológica. O historiador Modesto Florenzano evoca Engels para declarar que os revolucionários não sabem o que fazem, enquanto estão revolucionando, e o resultado de suas ações é sempre diferente do pretendido. Autor de As Revoluções Burguesas (Brasiliense), Florenzano é um dos vários debatedores que retomam a Revolução Francesa de 1789 para entender a da Rússia em 1917. Os revolucionários bolcheviques miravam o exemplo francês, que derrubara o Antigo Regime e instalara a burguesia no poder. Lênin comemora quando a duração da Revolução Russa ultrapassa a da Comuna de Paris, de 1871. Mas, à diferença do acontecimento revolucionário na França, depois do qual uma classe exerce a dominação, representando uma parcela do país e preservando privilégios, os bolcheviques pretendiam estabelecer a ditadura do proletário, que, por ser representante da maioria da sociedade russa, organizaria democraticamente os interesses nacionais.

As revoluções se apresentam como saltos de consciência que aceleram o tempo, é como se existissem “semanas que valem por anos e que desafiam o vício intelectual de pensar que o dia de amanhã será igual ao de hoje”, reflete Valério Arcary, autor de Esquinas Perigosas da História (Xamã). O historiador Jorge Grespan cita Walter Benjamin, segundo o qual o “instante revolucionário explode o tempo contínuo”, entendido como uma sucessão natural, sem rupturas, de eventos históricos diante dos quais os indivíduos são impotentes. Grespan aponta nas contradições das crises capitalistas brechas históricas que podem ser vislumbradas por “homens de talento, cuja consciência se constitui e amadurece em contextos de discussão”; a partir dessas brechas é possível deflagrar os instantes de explosão revolucionária. Como exemplo de crises, ele menciona o colapso da Nasdaq, em 2000, e a atual debacle das hipotecas no mercado imobiliário norte-americano, cujos prejuízos eram estimados na semana passada em até US$ 60 bilhões. O filósofo húngaro István Mészáros concorda com a interpretação sobre o tempo contínuo,classificado de “eterno presente”. Em entrevista ao Estado, Mészáros, que está lançando O Desafio e o Fardo do Tempo Histórico (Boitempo), ele diz que “o mundo tem de enfrentar a necessidade de uma mudança radical, em um futuro não tão distante, em função da forma destrutiva, perdulária e insustentável com que o capital administra o planeta”. Ele afirma que o capitalismo vive uma fase de “crise estrutural” e não mais “periódica ou conjuntural”.

Sendo ou não o comunismo a alternativa possível, a vigência de 25 de outubro de 1917, que mudou o curso do século 20, ganha sentido à medida que a discussão isenta de paixões cegas mostra os erros que não devem ser repetidos. “O passado se vive no presente como projeção do futuro”, conclui Grespan. Cada geração precisa reescrever o passado, porque o presente, embora tendendo a contínuo, apresenta mudanças e desafios diferentes. Os 90 anos de Revolução Russa soam o alarme sobre a carência de calor no debate em torno de temas históricos, o qual pode contribuir para liquefazer a névoa sobre a História.