29 de nov. de 2007

ODIAMOS LULA

Lula, por que o ódio da imprensa?



No momento em que o Brasil entra pela primeira vez para o grupo de países com alto Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), a imprensa destaca a sabotagem parlamentar da oposição oligárquica como expressão de resistência cívica. Exalta todos os mecanismos de obstrução, após ter enquadrado o PSDB nos marcos do lacerdismo. É o conhecido agendamento que não tem qualquer compromisso com um projeto efetivo de nação. São tempos difíceis. Ativismo judiciário e partidarização da mídia como instrumentos de golpe permanente compuseram a novidade política de 2007. Talvez o que mova a roda do retrocesso seja nostalgia de tempos recentes.

Ao tomar posse como governador da Bahia, em 1947, Octávio Mangabeira, o velho cacique udenista, definiu a democracia brasileira "como uma plantinha tenra que precisa ser regada todo dia". A divulgação, em 2004, da pesquisa realizada pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) não deixava dúvidas: quase seis décadas depois do discurso do parlamentar baiano, poucos eram os vocacionados para botânica ou jardinagem em nosso país.

Dos 18 países latino-americanos pesquisados, o Brasil ficou em 15º lugar quanto à adesão popular à democracia. O estudo registrava ainda que o Brasil era o país com maior grau de democracia eleitoral. Estaríamos diante de um paradoxo? Uma contradição capaz de colocar sob suspeição o rigor metodológico empregado? Não. Para o bem e para o mal, estávamos na presença de um alerta. E a imprensa deveria acionar suas sirenes. Mas o "apreço democrático" é um disfarce recente.

Depois de 20 anos de regime militar, vivíamos um arremedo de democracia que não ousou ir além da restituição dos mecanismos representativos do sistema político e do ordenamento jurídico. Uma institucionalidade que nunca se propôs a arranhar, ainda que levemente, os interesses das elites dominantes. Sejam os das que se encastelam no universo político conservador, sejam os das abrigadas na ampla rede que vai do latifúndio aos grupos empresariais mais expressivos.

Produtos de transição por alto, em mais uma ação intramuros da nossa permanente saga pré-republicana, os governos civis que sucederam os generais de plantão não elaboraram qualquer agenda de inclusão efetiva. Sob o tacão do receituário neoliberal, a "estabilidade democrática" foi a consagração da não-política, do não-acontecimento, do não-devir.

Ao terror de Estado sobreveio a ditadura do mercado. As abstrações econômicas, expressas em riscos e cotações de títulos públicos, se superpuseram às relações sociais concretas. O estadista sensato foi redefinido como sendo aquele que tranqüiliza o capital volátil e facilita o cálculo contábil.

O pensamento único invocou sua atemporalidade, transmutou-se em ciência natural e transformou a política em apêndice ou – quem sabe? – ornamento. A mídia, em meio à tempestade, se arvorou em instância de representação da esfera pública esvaziada, através da terceirização de suas colunas de política e economia a consultorias financeiras e cientistas políticos regiamente remunerados. FHC, personificado como tipo ideal de estadista, foi uma ficcão urdida nas tramas urdidas em conhecidas redações. Se já não era possível sustentar a excelência acadêmica, salvava-se a figura do gerente sensato.

O resultado foi devastador: 52 milhões de brasileiros vivendo abaixo da linha da pobreza, taxas recordes de desemprego e 30 mil vítimas de assassinato por ano. O número de menores entre 10 e 17 anos que trabalhavam na rua atingia, segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (PNAD), um contingente de 263 mil crianças, em 2002. E dos adultos ainda empregados, apenas 45,2% contribuem para a Previdência. Aumentava a concentração de renda e acentuavam-se as desigualdades regionais. Sobreviver tendo entre 15 e 24 anos tinha virado proeza de quem sabe se esgueirar bem em vielas e condomínios.

Diante desse quadro, presenciamos, como sempre, por parte da grande imprensa, uma demonização sistemática dos movimentos sociais que pretendiam inscrever como sujeitos de direito, categorias até então à margem da história. Apresentados como disfunções, expressões patológicas, sintomas anômicos, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra(MST), a União dos Movimentos de Moradia (UMM) e a Confederação Nacional de Trabalhadores na Agricultura (Contag) produziam, como é normal em uma sociedade fracionada, confrontos ao agenciar demandas legítimas.

Como a cultura política de uma formação social muito depende das representações simbólicas que a mídia fazia (e faz) dos atores e dos grupos políticos, o recorte resultante reproduz o que já sabemos: ao povo, quando pretende ser protagonista da própria história, é pespegado o rótulo de baderneiro. Gente que não tem causa e vive uma insatisfação difusa e inorgância. A célebre plebe rude.

Assim, tratados como caso de polícia, são apresentados como pontos de desestabilização, agentes que põem em risco o "ordenamento democrático do Estado de Direito". Logo eles, que tanto lutam por seu fortalecimento. Se observarmos as dinâmicas dos movimentos organizados, nenhum deles sinaliza para pleitos que representem rupturas com os marcos da legalidade vigente. Grosso modo, pedem à burguesia que perca sua atávica submissão ao capital externo e instaure reformas que viabilizem um capitalismo nacional, sem veleidades autárquicas. Conhecem, e muito bem, a dinâmica transnacional da economia contemporânea para propor as bravatas que a imprensa lhes atribui.

Enquanto prosperar a cultura da intolerância classista, não restará ao homem comum outro gesto que não seja o da persignação ao ouvir a palavras Direito e Estado democrático. Legítimo será indagar pelo contraponto de suas demandas: se os movimentos sociais, que agenciam novos espaços ético-políticos, são um risco à democracia, quais serão os pilares de tal forma de governo? O superávit primário visto como um fim em si mesmo? As metas de inflação? O agrobusiness que ignora o mercado interno? Com a palavra , editores e editoras do pensamento único.

Se a plantinha tenra insiste em nascer nos grotões do latifúndio improdutivo, que as elites a reguem com carinho. Porque ele, sujeito sem direitos, excluído do jogo político, alvo móvel da bala que serpenteia favelas e palafitas, tem que cuidar da parte que lhe cabe nesse jogo de soma zero que alguns chamam de vida.

Segundo o estudo do PNUD, há três anos, 54,7% dos cidadãos latino-americanos aceitariam um governo autoritário se ele pudesse resolver seus problemas econômicos. E 58,1% achavam que o presidente pode ignorar as leis.

O alerta estava dado. O encaminhamento político que seria dado a ele é que definiria. nossa situação futura. Para entendermos o ódio das páginas e telas é bom olhar dados recentes, números que incomodam os protagonistas de uma ordem cada vez mais distante. Sempre é necessário lembrarmos alguns avanços nos cinco últimos anos: reajuste salarial superior à inflação para 85% dos trabalhadores; redução da pobreza em 8%; inclusão bancária de 6 milhões de brasileiros e fim da dependência com o FMI e sua tutela,entre outros.

Para as oligarquias demo-tucanas é aí que reside o intolerável. O instinto de sobrevivência política não lhes deixa outra alternativa que não seja o de, mais uma vez, inviabilizar um país que se anuncia menos excludente e mais democrático. São incapazes de, mesmo na oposição, estabelecer um pacto de Estado. Não podem conceber que um governo dialogue com movimentos organizados. Não têm agenda ou projeto de país. Nasceram para a subalternidade e é nela que ser reconhecem como personagens relevantes. A chantagem fiscal é apenas uma das estratégias do eterno retorno do atraso. As máquinas não devem parar. O IDH veio em má hora.

Gilson Caroni Filho é professor de Sociologia das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha), no Rio de Janeiro, e colaborador do Jornal do Brasil e Observatório da Imprensa.


Gilson Caroni Filho é professor de Sociologia das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha), no Rio de Janeiro, e colaborador do Jornal do Brasil e Observatório da Imprensa.



18 de nov. de 2007

A história revista e interpretada por várias vertentes

Entre leituras liberais, revisionistas e marxistas, a revolução evoca o embate atual que continua a opor direita e esquerda

Francisco Quinteiro Pires

Estado de São Paulo

O perigo de ignorar os fatos históricos, quando se aceita passivamente a bitola ideológica, é que eles podem se voltar contra a humanidade, impossibilitada de compreender a dimensão e os matizes do processo histórico, no qual os indivíduos podem influir de fato. Segundo o historiador Edward Acton, da Universidade East Anglia, do Reino Unido, e autor de Rethinking The Russian Revolution (Oxford), três vertentes interpretativas sobre a Revolução Russa se fizeram notar, sobretudo nos meios acadêmicos europeus, durante o século 20 - a soviética ortodoxa, a liberal e a revisionista. A primeira diz que a revolução era inevitável e irreversível e aponta o partido bolchevique como o líder legítimo da ditadura do proletariado e portador do direito de governar para sempre. A segunda entende a Revolução Russa como antidemocrática, um produto de ocasião, “um desvio na estrada da História cujo fim é o capitalismo e a democracia”. Os bolcheviques não passam de manipuladores, donos de aguda inteligência tática e dirigentes de uma massa de indivíduos vulneráveis por viverem um momento histórico de caos e fraqueza do governo. “O czar é considerado incapaz, até maluco, Lênin é apenas um estrategista competente e existe a certeza absoluta de que o regime soviético não tem legitimidade nenhuma”, diz Edward Acton.

“As abordagens soviética ortodoxa e liberal mantiveram um diálogo de surdos”, afirma Acton. “A leitura liberal, que é direitista, afirma que, no embate entre esquerda e direita, o colapso soviético representa a derrota esquerdista, e o socialismo é tido como uma experiência exclusiva da URSS”, ele continua. Até a esquerda crítica ao regime dos sovietes se sentiu derrotada. A linha revisionista rompe essa falta de diálogo, ao avaliar que a ascensão dos bolcheviques - condutores das classes operária e campesina - para implantar o socialismo é um evento histórico que não pode ser tratado como um golpe de Estado dado por uma minoria, mas como uma revolução de massas, feita de baixo para cima, por um povo frustrado - os camponeses reivindicavam o acesso à propriedade fundiária e os operários, a conquista de melhores condições de vida. “Para os revisionistas, a revolução seria feita mesmo se não eclodisse a 1ª Guerra Mundial para agravar a situação russa e os bolcheviques teriam criado um Estado para reprimir os socialistas rivais”, diz Acton. A Rússia vivia um impasse estrutural e o advento da 1ª Guerra levou ao paroxismo a crise do país. Camponeses são recrutados para lutar pela Rússia e os sobreviventes, quando desertam, têm o trunfo das armas para promover a revolução contra o governo provisório presidido por Alexander Kerenski.

Mais do que isso é prematuro afirmar quando se sabe que, com o fim da guerra fria, os regimes socialistas sob influência da URSS libertaram as academias, não mais obrigadas a utilizar a estrutura teórica marxista-leninista como ferramenta historiográfica, e os arquivos se tornaram disponíveis em razão do afrouxamento do controle político oficial. O foco historiográfico faz novos recortes como o da iconografia, do discurso, da vida privada e da sexualidade do pós-Revolução Russa.

Outro risco histórico é conceber a URSS, criada em 1922, como bloco histórico homogêneo e conseqüência dos ideais defendidos em outubro de 1917. Vários professores ouvidos pelo Estado concordam com o entendimento de que a ascensão de Joseph Stálin, nos anos 1920, fortaleceu a burocracia estatal, criadora de privilégios cuja manutenção se tornou prioridade, em detrimento da implantação progressiva do socialismo.

De acordo com o historiador Angelo Segrillo, autor de O Declínio da URSS (Record), o engessamento político-econômico do stalinismo personificado pela burocracia seria o responsável pelo imobilismo do Estado até o seu término em 1991, mesmo depois de Nikita Kruchev ter apontado no 20º Congresso do Partido Comunista da União Soviética os desmandos stalinistas e ter distendido o regime soviético. A promessa feita no começo dos anos 1960 de que a URSS, “dentro de 20 anos, ultrapassaria os EUA em produção e produtividade não seria cumprida diante do capitalismo que mudara a dinâmica da competição econômica e dera flexibilidade ao paradigma trabalhista, como no toyotismo, adequado à exigência de difusão de criatividade e sucessor do fordismo, que era semelhante à estrutura de trabalho das fábricas soviéticas na primeira metade do século 20”, diz Segrillo. No entanto a meta irrealizada não significa que o socialismo como modelo de organização econômica tenha uma ineficiência inerente, como argumentam os liberais, sobretudo quando se observam a expansão da economia soviética entre os anos 1930 e 1960 e o avanço científico-tecnológico, comprovado pelo pioneirismo na conquista do espaço nos anos 1950, segundo Segrillo. Essas comparações mostram como durante o século passado o socialismo, estado de transição entre capitalismo e comunismo, parece ter funcionado na URSS como um regime para rivalizar com o do capital e não substituí-lo, por força da atuação do proletariado no poder. As inovações soviéticas no campo militar e espacial, porém, não foram transferidas para a indústria civil.

Diretor do Centre National de la Recherche Scientifique, na França, Michael Löwy, que não participou dos seminários e sobre quem vários especialistas escrevem no As Utopias de Michael Löwy (Boitempo), cita a filósofa Rosa Luxemburgo para afirmar a impossibilidade de “construir o socialismo sem liberdades democráticas, de opinião e organização”. Além de fortalecer os burocratas, ressuscitando o elemento autocrático do czarismo, Stálin transformara o espírito crítico em crime de Estado, apesar da advertência de Karl Marx sobre a necessidade incontornável de haver autocrítica constante dentro do socialismo. “Assassinado por um agente da GPU, serviço secreto stalinista, em 1940, no México, Trotski observava que o bolchevismo e o stalinismo eram separados por um rio de sangue”, continua Löwy. Como parece regra geral na História da humanidade, a Revolução Russa apresenta resultados imprevisíveis, apesar da clareza ideológica. O historiador Modesto Florenzano evoca Engels para declarar que os revolucionários não sabem o que fazem, enquanto estão revolucionando, e o resultado de suas ações é sempre diferente do pretendido. Autor de As Revoluções Burguesas (Brasiliense), Florenzano é um dos vários debatedores que retomam a Revolução Francesa de 1789 para entender a da Rússia em 1917. Os revolucionários bolcheviques miravam o exemplo francês, que derrubara o Antigo Regime e instalara a burguesia no poder. Lênin comemora quando a duração da Revolução Russa ultrapassa a da Comuna de Paris, de 1871. Mas, à diferença do acontecimento revolucionário na França, depois do qual uma classe exerce a dominação, representando uma parcela do país e preservando privilégios, os bolcheviques pretendiam estabelecer a ditadura do proletário, que, por ser representante da maioria da sociedade russa, organizaria democraticamente os interesses nacionais.

As revoluções se apresentam como saltos de consciência que aceleram o tempo, é como se existissem “semanas que valem por anos e que desafiam o vício intelectual de pensar que o dia de amanhã será igual ao de hoje”, reflete Valério Arcary, autor de Esquinas Perigosas da História (Xamã). O historiador Jorge Grespan cita Walter Benjamin, segundo o qual o “instante revolucionário explode o tempo contínuo”, entendido como uma sucessão natural, sem rupturas, de eventos históricos diante dos quais os indivíduos são impotentes. Grespan aponta nas contradições das crises capitalistas brechas históricas que podem ser vislumbradas por “homens de talento, cuja consciência se constitui e amadurece em contextos de discussão”; a partir dessas brechas é possível deflagrar os instantes de explosão revolucionária. Como exemplo de crises, ele menciona o colapso da Nasdaq, em 2000, e a atual debacle das hipotecas no mercado imobiliário norte-americano, cujos prejuízos eram estimados na semana passada em até US$ 60 bilhões. O filósofo húngaro István Mészáros concorda com a interpretação sobre o tempo contínuo,classificado de “eterno presente”. Em entrevista ao Estado, Mészáros, que está lançando O Desafio e o Fardo do Tempo Histórico (Boitempo), ele diz que “o mundo tem de enfrentar a necessidade de uma mudança radical, em um futuro não tão distante, em função da forma destrutiva, perdulária e insustentável com que o capital administra o planeta”. Ele afirma que o capitalismo vive uma fase de “crise estrutural” e não mais “periódica ou conjuntural”.

Sendo ou não o comunismo a alternativa possível, a vigência de 25 de outubro de 1917, que mudou o curso do século 20, ganha sentido à medida que a discussão isenta de paixões cegas mostra os erros que não devem ser repetidos. “O passado se vive no presente como projeção do futuro”, conclui Grespan. Cada geração precisa reescrever o passado, porque o presente, embora tendendo a contínuo, apresenta mudanças e desafios diferentes. Os 90 anos de Revolução Russa soam o alarme sobre a carência de calor no debate em torno de temas históricos, o qual pode contribuir para liquefazer a névoa sobre a História.

Jon Lee Anderson e sua tréplica

Prezado Diogo Schelp:

Agradeço pelo sua ‘gentil’ resposta. (Soube que você é de fato uma pessoa muito ‘gentileza’; você mesmo o disse duas vezes em suas mensagens.) Só agora percebo, o mal-entendido entre nós nasceu exclusivamente por conta de meu caráter profundamente falho. Eu jamais deveria ter presumido que você recebera meu email inicial em resposta ao seu ou minha segunda mensagem a respeito de sua reportagem, muito menos deveria ter considerado que você pudesse ter decidido ignorá-los. É evidente que você tem um sistema de bloqueio de spams muito rigoroso. Uma dica técnica: talvez devesse configurar seus sistema como ‘moderado’ e não ‘extremo’. Se o fizer, talvez comece a receber seus emails sem quaisquer problemas. Lembre-se, Diogo: moderado, não ‘extremo’. Esta é a chave.

Você me acusa de ser antiético, um ‘mau jornalista’. Questiona até se posso ser chamado de jornalista. Nossa, você TEM raiva, não tem?

Enquanto tento parar as gargalhadas, me permita dizer que, vindo de você, é elogio. Permita, também, recapitular por um momento a metodologia utilizada por você para distorcer as informações que o público de Veja recebeu:

Você publicou na capa e na reportagem uma grande quantidade de fotografias de Che, aproveitando-se assim da popularidade da imagem de Guevara para vender mais cópias de sua revista. Para preencher seu texto, você pinçou uma certa quantidade de referências previamente escritas sobre ele – incluindo a minha – para sustentar sua tese particular, qual seja, a de que o heroismo de Che não passa de uma construção marxista, como sugere seu título: ‘Che, a farsa do herói’.

Para chegar a uma conclusão assim arrasa-quarteirão, você também entrevistou, pelas minhas contas, sete pessoas. Uma delas era um antigo oponente de Che dos tempos da Bolívia. As outra seis, exilados cubanos anti-castristas, incluindo ex-prisioneiros políticos e veteranos de várias campanhas paramilitares para derrubar Fidel. (Um destes, o professor Jaime Suchlicki, você não informou a seus leitores, é pago pelo governo dos EUA para dirigir o assim chamado Projeto de Transição Cubana.) Percebi também que você prestou particular atenção no testemunho de Felix Rodriguez, ex-agente da CIA responsável pela operação que culminou na execução de Che. O fato de que você o destaca quer dizer que você o considera sua melhor testemunha? Ou terá sido porque ele foi o único que algum repórter realmente entrevistou pessoalmente? Os outros, parece, Veja só falou com eles por telefone. Mas como são rigorosos os critérios de reportagem de Veja!

Como disse em minha ‘carta aberta’ a você, escrever uma reportagem deste tipo usando este tipo de fonte é o equivlente a escrever um perfil de George W. Bush citando Mahmoud Ahmadinejad e Hugo Chávez. Em outras palavras, não é algo que deva ser levado a sério. É um exercício curioso, dá para fazer piada, mas NÃO é jornalismo. Dizer a seus leitores, como você diz na abertura da reportagem, que ‘Veja conversou com historiadores, biógrafos, ex-companheiros de Che no governo cubano’ passa a impressão de que você de fato fez o dever de casa, que estava oferecendo aos leitores um trabalho jornalístico bem apurado, que apresentaria algo novo. Infelizmente, a maior parte do que você escreveu é mera propaganda, um requentado de coisas que vêm sendo ditas e reditas, sem muitas provas, pela turma de oposição a Fidel em Miami nos últimos quarenta e tantos anos.

Minha questão não é política. Escrevi um livro, como você mesmo disse, que é ‘a mais completa biografia’ de Che. Há muito lá que pode ser utilizado para criticar Che, mas também há muitos aspectos a respeito de sua vida e personalidade que muitos consideram admiráveis. Em outras palavras, é um retrato por inteiro. Como sempre disse, escrevi a biografia para servir de antídoto aos inúmeros exercícios de propaganda que soterraram o verdadeiro Che numa pilha de hagiografias e demonizaçoes, caso de seu texto.

Não cometa o erro de me acusar de defender Che porque critico você. Serei claro: a questão aqui não é Che, é a qualidade do seu jornalismo. Sua reportagem, no fim das contas, é simplesmente ruim e me choca vê-la nas páginas de uma revista louvável como Veja. Seus leitores merecem mais do que isso e, se aparecerei ou não novamente nas páginas da revista enquanto você estiver por aí, não me preocupa. O que PREOCUPA é que, com tantos jornalistas brilhantes como há no Brasil, foi a você que Veja escolheu para ser ‘editor de internacional’.

Cordialmente,

Jon Lee Anderson.

A arrogância colonialista - Mauro Santayana

O presidente Hugo Chávez é descuidado e franco no que fala. Usa, em sua retórica antiimperialista, metáforas quase divertidas, como chamar Bush de diabo. Mas não exagerou ao qualificar o ex-primeiro ministro espanhol José Maria Aznar de fascista. Aznar, produto típico da Opus Dei, que se reorganiza com novo alento na Espanha, sempre tratou a América Latina com desdém. Em 2002, em Madri, atreveu-se a dar ordens ao Presidente Eduardo Duhalde, da Argentina, para que aceitasse e cumprisse as exigências do FMI. Reincidiu na grosseria, ao telefonar a Buenos Aires, logo depois, como um dono de fazenda telefona para seu capataz, a fim de determinar-lhe a assinatura imediata do acordo com o órgão.

Conforme disse o próprio Ministro de Relações Exteriores da Espanha, Miguel Angel Moratinos, Aznar deu ordens ao embaixador da Espanha em Caracas para que apoiasse o golpe contra Chávez em 2002. Com o presidente eleito preso pelos golpistas, o Embaixador foi o primeiro a cumprimentar o empresário Pedro Carmona, que, também com o entusiasmado aplauso do representante dos Estados Unidos, tomava posse do governo, para ser desalojado do Palácio de Miraflores horas depois.

Não se pode pedir a Chávez que trate bem o ex-primeiro ministro espanhol, embora talvez lhe tivesse sido melhor ignorá-lo no encontro de Santiago. Mas, como comentou, na edição de ontem de El Pais, o jornalista Peru Egurdide, há um crescente mal-estar na América Latina com a presença econômica espanhola, identificada como “segunda conquista”. A Espanha opera hoje serviços como os bancários, de água, energia, telefonia e estradas, que não satisfazem os usuários. Ainda na noite de sexta-feira, em reunião fechada, Lula e Bachelet trataram do assunto com Zapatero, de forma veemente – longe dos jornalistas.

Mas se Chávez, mestiço venezuelano, homem do povo, fugiu à linguagem diplomática, o Rei Juan Carlos foi imperial e grosseiro, ao dizer-lhe que se calasse. O Rei, criado por Franco, tem deixado a majestade de lado para intervir cada vez mais na política espanhola – conforme o El Pais critica em seu editorial de ontem. Em razão disso, as reivindicações federalistas dos povos espanhóis (sobretudo dos catalães e dos bascos) se exacerbam e indicam uma tendência para a forma republicana de governo. Pequenos episódios revelam o conflito latente entre os espanhóis e seu rei. Já em 1981, quando do frustrado golpe contra o Parlamento Espanhol, o comportamento de sua majestade deixou dúvidas. Ele levou algumas horas antes de se definir pela legalidade democrática. Para muitos, o golpe chefiado por Millan del Bosch pretendia que todos os poderes fossem conferidos a Juan Carlos, em um franquismo coroado.

Os dirigentes latino-americanos tentarão, diplomaticamente, amenizar a repercussão do estrago, mas o “cala a boca” de Juan Carlos doeu em todos os homens honrados do continente. O rei atuou com intolerável arrogância, como se fossem os tempos de Carlos V ou Filipe II. A linguagem de Zapatero foi de outra natureza: pediu a Chávez que moderasse a linguagem. Como súdito em um regime monárquico, não pôde exigir de Juan Carlos o mesmo comportamento – o que seria lógico no incidente.

Durante os últimos anos de Franco, a oposição republicana espanhola se referia ao Príncipe com certo desdém, considerando-o pouco inteligente. Na realidade, ele nada tinha de bobo, mas, sim, de astuto, vencendo outros pretendentes ao trono e assumindo a chefia do Estado. Agora, no entanto, merece que a América Latina lhe devolva, e com razão, a ofensa: é melhor que se cale.

Os disfarces de Novembro

Os disfarces de Novembro

Mauro Santayana

Queixa-se a senhora Celina Vargas do Amaral Peixoto da parcialidade com que se analisa o Estado Novo, instaurado há 70 anos. Ela - e com justas razões - se diz parcial, posto que neta do grande presidente Vargas. Mas reivindica dos historiadores o exame sereno daqueles oito anos em que, com o Parlamento fechado, a imprensa sob censura e o controle policial dos cidadãos, Getúlio deu prosseguimento à construção do Brasil moderno.

Todos os movimentos da História obedecem a razões múltiplas, que se reúnem para determinar a mudança - e toda mudança abre caminho a outra. O Estado Novo era concebido desde a Revolução de 30, que pretendera ser a segunda proclamação da República. O país, depois da Primeira Guerra Mundial e de suas conseqüências, já não cabia no hesitante modelo de 1891. A Revolução de Outubro, na Rússia, despertara novas forças históricas. Ao mesmo tempo, a descoberta, quase repentina, de que éramos um país grande e rico, suscitava outra consciência nacionalista. Durante a colônia e o império, a nação tentava impor-se contra o jugo europeu. Nos anos 20, em conseqüência da vitória aliada em 1918, os Estados Unidos já mostravam a que vinham.

Essa reivindicação nacionalista, nutrida dos ideais de justiça social, é que mobiliza os tenentes, empurra a Coluna Prestes e - acautelada contra a ambição hegemônica de São Paulo - leva Getúlio ao poder.

O grupo de Vargas se dividia entre os republicanos formais e os que queriam a radicalização revolucionária. Nos últimos havia a convicção, certa ou errada, de que era preciso romper os cânones republicanos de 1889. Ao mesmo tempo, o regime soviético, o nazismo, o fascismo de Mussolini e a estrita regulamentação da economia norte-americana (New Deal) pelo Estado, suscitavam a idéia de governos fortes. As frustradas insurreições militares - a paulista, em 32, e a da Aliança Nacional Libertadora, em 35 - e a organização paramilitar dos integralistas, induziram alguns militares a aconselhar a instauração de ordem policial rigorosa.

Não tendo sido possível substituir a ditadura das oligarquias estaduais por sistema político-partidário moderno, as lideranças políticas não se entendiam com respeito à sucessão presidencial de 1938. Benedito Valadares, não tendo conseguido articular um nome de Minas, opunha-se tanto a Armando Salles, de São Paulo, quanto ao paraibano José Américo, candidato da situação. Correndo por fora, o candidato Plínio Salgado engrossava suas falanges de cunho fascista, com grupos militarizados e apoios explícitos nas Forças Armadas. Não encontrando um tertius, Valadares sugeriu a Getúlio a solução revolucionária, e enviou Francisco Negrão de Lima aos Estados a fim de articular o apoio ao golpe. O diário de Vargas, a partir de setembro, dá indicações quase telegráficas dos fatos, dia a dia, até 10 de novembro. Nesse período de oito anos, Vargas reconheceu a cidadania da classe operária, com a legislação trabalhista, e assentou os alicerces do projeto nacional, a que daria prosseguimento em seu governo democrático de 1951 a 1954, interrompido pela tragédia de agosto, e retomado mais tarde por Juscelino, Jânio, Jango e alguns governos militares.

O problema atual nas relações com a Bolívia faz lembrar o estadista. Quinze dias depois do golpe, era assinado o acordo com La Paz, para a construção da ferrovia de Corumbá a Santa Cruz de la Sierra, em troca de petróleo cru boliviano - e de concessões petrolíferas naquele país. Essa mesma noção estratégica o levou a juntar-se aos aliados contra o Eixo, a partir de 1941. Os movimentos neocolonial

Os disfarces de novembro

Mauro Santayana

Queixa-se a senhora Celina Vargas do Amaral Peixoto da parcialidade com que se analisa o Estado Novo, instaurado há 70 anos. Ela - e com justas razões - se diz parcial, posto que neta do grande presidente Vargas. Mas reivindica dos historiadores o exame sereno daqueles oito anos em que, com o Parlamento fechado, a imprensa sob censura e o controle policial dos cidadãos, Getúlio deu prosseguimento à construção do Brasil moderno.

Todos os movimentos da História obedecem a razões múltiplas, que se reúnem para determinar a mudança - e toda mudança abre caminho a outra. O Estado Novo era concebido desde a Revolução de 30, que pretendera ser a segunda proclamação da República. O país, depois da Primeira Guerra Mundial e de suas conseqüências, já não cabia no hesitante modelo de 1891. A Revolução de Outubro, na Rússia, despertara novas forças históricas. Ao mesmo tempo, a descoberta, quase repentina, de que éramos um país grande e rico, suscitava outra consciência nacionalista. Durante a colônia e o império, a nação tentava impor-se contra o jugo europeu. Nos anos 20, em conseqüência da vitória aliada em 1918, os Estados Unidos já mostravam a que vinham.

Essa reivindicação nacionalista, nutrida dos ideais de justiça social, é que mobiliza os tenentes, empurra a Coluna Prestes e - acautelada contra a ambição hegemônica de São Paulo - leva Getúlio ao poder.

O grupo de Vargas se dividia entre os republicanos formais e os que queriam a radicalização revolucionária. Nos últimos havia a convicção, certa ou errada, de que era preciso romper os cânones republicanos de 1889. Ao mesmo tempo, o regime soviético, o nazismo, o fascismo de Mussolini e a estrita regulamentação da economia norte-americana (New Deal) pelo Estado, suscitavam a idéia de governos fortes. As frustradas insurreições militares - a paulista, em 32, e a da Aliança Nacional Libertadora, em 35 - e a organização paramilitar dos integralistas, induziram alguns militares a aconselhar a instauração de ordem policial rigorosa.

Não tendo sido possível substituir a ditadura das oligarquias estaduais por sistema político-partidário moderno, as lideranças políticas não se entendiam com respeito à sucessão presidencial de 1938. Benedito Valadares, não tendo conseguido articular um nome de Minas, opunha-se tanto a Armando Salles, de São Paulo, quanto ao paraibano José Américo, candidato da situação. Correndo por fora, o candidato Plínio Salgado engrossava suas falanges de cunho fascista, com grupos militarizados e apoios explícitos nas Forças Armadas. Não encontrando um tertius, Valadares sugeriu a Getúlio a solução revolucionária, e enviou Francisco Negrão de Lima aos Estados a fim de articular o apoio ao golpe. O diário de Vargas, a partir de setembro, dá indicações quase telegráficas dos fatos, dia a dia, até 10 de Novembro. Nesse período de oito anos, Vargas reconheceu a cidadania da classe operária, com a legislação trabalhista, e assentou os alicerces do projeto nacional, a que daria prosseguimento em seu governo democrático de 1951 a 1954, interrompido pela tragédia de Agosto, e retomado mais tarde por Juscelino, Jânio, Jango e alguns governos militares.

O problema atual nas relações com a Bolívia faz lembrar o estadista. Quinze dias depois do golpe, era assinado o acordo com La Paz, para a construção da ferrovia de Corumbá a Santa Cruz de la Sierra, em troca de petróleo cru boliviano - e de concessões petrolíferas naquele país. Essa mesma noção estratégica o levou a juntar-se aos aliados contra o Eixo, a partir de 1941. Os movimentos neocolonialista contra a América Latina tornam atualíssimo o nacionalismo de Vargas.

istas contra a América Latina tornam atualíssimo o nacionalismo de Vargas.