11 de out. de 2007

Choque de gestão dos tucanos

Choque de gestão de Yeda pode levar a greve geral em todo o estado

Os professores denunciam a falta de pessoal nas escolas, as más condições de trabalho, a política de enturmação (junção de turmas) e a proposta de aumento da alíquota do ICMS apresentada pela governadora.

Professores gaúchos se acorrentam em protesto contra Yeda

Uma assembléia popular da comunidade escolar foi realizada pela manhã em frente ao Palácio. Ao mesmo tempo em que ocorria essa assembléia, uma comitiva dos professores foi recebida pelo chefe da Casa Civil do governo Yeda, Luiz Fernando Zachia, que se comprometeu a abrir um canal de diálogo com a categoria a partir da próxima semana. No final da manhã, os professores tiraram as correntes e encerraram a manifestação.

Segundo a presidente do Centro de Professores do Estado do Rio Grande do Sul (Cpers Sindicato), Simone Goldschmidt, Zachia prometeu nomear um interlocutor do governo com autonomia para iniciar as negociações. Esse nome dificilmente será o da secretária de Educação, Mariza Abreu, que não tem mais canal nem clima de diálogo com o magistério. Na manifestação desta quinta, uma faixa gigante colocada diante do palácio dizia: “Fora Mariza Abreu”.

Problemas se acumulam

Os problemas no setor da educação vem desde o início do ano, quando escolas do interior do Estado ficaram sem transporte escolar por conta do não repasse de recursos do Estado para os municípios. A governadora Yeda Crusius (PSDB) decidiu aplicar a receita tucana do choque de gestão e determinou o corte de 30% das verbas de custeio em todas as secretarias. Além do atraso no repasse de recursos para os municípios, essa política atingiu em cheio também o trabalho diário nas escolas: falta de professores e de funcionários, falta de equipamentos, fechamento de bibliotecas e laboratórios.

O Cpers já denunciou ao Ministério Público uma situação de “caos na educação pública do RS provocado pela atual política de gestão da Secretaria de Educação do Estado. O sindicato solicitou ao MP a realização de investigações sobre omissões e ilegalidades, por parte do governo estadual e a adoção de medidas para reverter a atual situação. Além disso, entregou ao subprocurador-geral de Justiça para Assuntos Institucionais, Eduardo de Lima Veiga, vários documentos relatando os problemas enfrentados nas escolas. Na avaliação da entidade, a educação pública está vivendo um momento dramático no RS em função da gestão praticada pelo atual governo.

“Pode-se constatar a ausência de um projeto pedagógico, que está gerando um verdadeiro desmonte da rede pública estadual”, diz o documento entregue ao MP.

Alguns dos problemas denunciados no documento são: precariedade da estrutura física das escolas; falta de professores e funcionários; fechamento de bibliotecas, laboratórios e serviços de orientação educacional; falta de transporte escolar em várias cidades do Estado (em Santana do Livramento, por exemplo, 350 alunos ficaram sem aulas até o meio do ano por falta de transporte); turmas com até 50 alunos e junções de séries com conteúdos e interesses diferentes.

Turmas lotadas

A extinção de turmas para formação de turmas maiores nas escolas (com até 50 alguns) aprofundou a crise. A governadora defende a enturmação dizendo que “a reorganização do número de alunos por turma foi muito bem estudada e somente foi colocado em prática após um levantamento criterioso das coordenadorias regionais nos estabelecimentos de ensino”.

“Não é regra geral, mas é significante: segundo as estatísticas, em turmas muito pequenas o nível de reprovação é muito alto e, em turmas maiores, sobem os índices de aprovações”, acrescentou.

Ainda segundo a governadora, das 53.035 turmas existentes na rede estadual de educação, foram reduzidas 2.390, “representando o ingresso do mesmo número de professores em salas de aulas e serviços como bibliotecas e laboratórios”.

Greve geral

Só falta combinar com quem está na linha de frente da educação: os professores e professoras. Mais de cem, com vários diretores de escola entre eles, estiveram no MP denunciando a situação da educação no Estado. Agora, resolveram enviar um recado mais direto à governadora e foram com correntes para a frente do palácio.

O clima de desgaste do governo junto ao funcionalismo público estadual é crescente. Nos últimos dias, diversas categorias do funcionalismo começaram a debater a proposta de uma greve geral em todo o Estado contra as políticas do governo tucano.

Fonte: http://www.vermelho.org.br/base.asp?texto=26616

6 de out. de 2007

Livros didáticos distorcem história do país

Livros didáticos distorcem história do país
Antônio Gois

A história do Brasil ensinada para crianças e adolescentes nos bancos escolares e livros didáticos pode não ser a mesma que os principais historiadores contemporâneos conhecem.

Para historiadores ouvidos pela Folha, conteúdos desatualizados em relação em pesquisas acadêmicas e vícios como visões "engajadas" da história são comumente encontrados em livros didáticos e disseminados em sala de aula.

Para os historiador da UFRJ ( Universidade Federal do Rio de Janeiro) Manolo Garcia Florentino, autor de livros e pesquisas sobre o Brasil colonial, há uma praga do "politicamente correto" nos livros didáticos que, muitas vezes, acaba provocando efeito inverso ao pretendido pelo autor.

Florentino que ganhou prêmio do Arquivo Nacional de Pesquisa por suas pesquisas sobre escravidão no Brasil, cita como exemplo mais claro disso a forma como o negro é tratado em livros didáticos. Segundo ele, os livros, mesmo os mais politicamente corretos, acabam tratando o negro como objeto. "As figuras nos livros, salvo raríssimas exceções, mostram sempre o negro apanhando, em uma situação constrangedora em relação ao branco" diz.

Para Florentino, não se trata de "florear" a história da escravidão no Brasil. "O problema é que os livros ignoram os caso de ascensão social de negros. Há registros de negros que se tornaram livres e compravam escravos".

Apesar desses casos não serem regra no Brasil colonial, Florentino acha importante citá-los por uma questão de formação da identidade negra. "Que criança vai querer se identificar com uma figura que só apanha?"

O historiador Holien Gonçalves Beserra, coordenador da comissão técnica de avaliação dos livros didáticos de história do Ministério da Educação, concorda com Florentino, mas afirma que a situação vem melhorando. "Havia uma defasagem enorme, principalmente na história da escravidão brasileira, dos livros em relação às pesquisas acadêmicas. Os autores raramente tratavam o negro como agente social".

Para Luiz Felipe de Alencastro, professor-catedrático de história do Brasil na Universidade de Paris 4 ( Sorbonne ), na França, nem todos os defeitos dos livros didáticos são de responsabilidade de seus autores. "A sociedade é conservadora e antipobre e não se interessa em conhecer a situação de vida de um bóia-fria, por exemplo. Duvido que algum livro didático traga informações sobre empregadas domesticas exploradas em casas da classe média", diz.

Para Alencastro, o fato de livros didáticos não abordarem temas importantes - como a história da África, por exemplo - se deve ao desinteresse da academia por certos assuntos.

Vânia Leite Fróes, professora da UFF ( Universidade Federal Fluminense ) que presidiu o 21º Simpósio de História da Anpuh ( Associação Nacional de História ), afirma que, muitas vezes, a universidade falha na divulgação de suas pesquisas. "A universidade fica fechada como um gueto".

"Embora esteja tentando mudar, a universidade tem um processo de fechamento e de falha na divulgação de suas pesquisas para professores e autores de livros. Por políticas equivocadas, ela fica fechada como um gueto", afirma a Vânia.

Florentino cita também como explicação para esse fenômeno o preconceito dos pesquisadores: "Ele preferem publicar teses a trabalhar com livros didáticos".


A HISTÓRIA CONTADA NOS LIVROS DIDÁTICOS



Família Colonial

O que está nos livros:
Trecho de livro didático "História Integrada", da editora Scipione, para a 6º série do ensino fundamental:
"Durante o ciclo da cana-de-açúcar, (...) a autoridade do Senhor da casa-grande era absoluta, estando as mulheres submetidas a um papel subordinado"
Os fatos:
o modelo patriarcal, muito estudado pelo sociólogo Gilberto Freyre, não era regra, por exemplo, em São Paulo, onde há registros de mulheres que comandavam a família enquanto seus maridos, os bandeirantes, ficavam anos fora de casa.



Guerra do Paraguai


O que está nos livros:
Trecho do livro "História e Reflexão", da editora Saraiva, para a 7º série do ensino fundamental, sobre a guerra do Paraguai: "Desde sua independência, em 1811, o Paraguai começou a se desenvolver de um modo diferente. Para isso, distribuiu terra aos camponeses, combateu a oligarquia rural improdutiva, construiu inúmeras escolas para o povo. Francisco Solano Lopez prosseguiu a obra de seu pai de construir no Paraguai um país forte e soberanos, livre da exploração do capitalismo internacional"

Os fatos:
O texto coloca os presidentes paraguaios Antônio Carlos Lopez e Solano Lopez como heróis que lutavam contra o imperialismo inglês. Para muitos historiadores, inclusive paraguaios, eles eram caudilhos e ditadores



Escravos

O que está nos livros:
Na história do Brasil Colonial, o negro aparece nos livros, com raríssimas exceções, como escravos. Trecho do livro "História Integrada", da editora Scipione, para 6º série: "A vida do escravo é um inferno. Os africanos são arrancados de sua terra de origem e trazidos como gado em navios. Sua vida na colônia é ainda pior: têm uma existência amarga e penosa"

Os fatos:
Pesquisas mostram que havia negros que ascendiam socialmente e constituíam famílias estáveis mesmo no período da escravidão.



África

O que está nos livros:
Em geral, os livros tratam os negros vindos para o Brasil por meio do tráfico de escravos como "africanos", sem diferenciá-los culturalmente e com poucas referências aos seus hábitos e maios de vida

Os fatos:
O Brasil é considerado o segundo maior país negro do mundo, atrás apenas da Nigéria. No entanto, fala-se muito pouco da história da África e de sua influência no Brasil.


Autor afirma que não existe verdade absoluta
da sucursal do Rio

Para o autor do livro "História e Reflexão", Gilberto Contrim, não existe verdades absolutas, prontas e acabadas quando se trabalha com história.

"Mais do que falar em verdade, se fala em versões. Eu trouxe um versão da Guerra do Paraguai baseada em pesquisas acadêmicas como a do argentino León Poner, que mostra que o conflito foi fomentado pelo capitalismo inglês com o objetivo de destruir um país que buscava o desenvolvimento autônomo", diz Cotrim.

Ele dá um exemplo de outra versão da história do Paraguai, comum nos livros antes da década de 70, colocando o presidente paraguaio, Solano Lopez, como o vilão do conflito, e enaltecendo brasileiros como Duque de Caxias.

O autor afirma também que a maneira como os livros didáticos tratam da escravidão e da vida social do negro tem evoluído. "A inclusão de exemplos de revoltas negras já é uma prática comum nos livros. Os autores estão dando mais exemplos da vida social dos escravos", diz, citando como exemplo um livro produzido por ele, "Saber e Fazer".

De acordo com a autora Sônia Irene do Carmo, as críticas de pesquisadores aos livros didáticos nem sempre levam em conta que há um limite para a atualização das publicações.

"O livro didático tem um limite que é dado pela capacidade de ser trabalhado no período de um ano letivo, com "x" número de horas aulas semanais. Esse limite é incompatível com as exigências que se fazem", afirma.

A Folha entrou em contato com a assessoria de imprensa da editora Scipione, que publicou o livro "História Integrada", de Cláudio Vicentino, citado no quadro que acompanha esta reportagem. No entando, até o fechamento desta edição, Vicentino não havia procurado a redação.


Professora critica descontextualização
da sucursal do Rio

A praga do politicamente correto nos livros didáticos muitas vezes descontextualiza fatos e personagens históricos. Essa é a opinião da professora Vânia Leite Fróes, da UFF ( Universidade Federal Fluminense ).

Vânia pesquisa principalmente o período medieval e aponta como um dos erros mais comuns dos livros didáticos a interpretação anacrônica de fatos históricos. "Muitos livros tratam personagens históricos mulheres como precursoras de um feminismo. É absurdo você falar dessa visão na Idade Média. Essa é uma problemática que surge para o historiador nos anos 60", diz.

Um exemplo citado por Vânia é o tratamento dado para Heloísa, cuja história ficou conhecida como a de um amor proibido com Abelardo. "Dizer que Heloísa era feminista reflete uma concepção da história mascarada pelo politicamente correto", diz.

Além do politicamente correto, os historiadores citam casos em que a história é ensinada de maneira "engajada", como o da Guerra do Paraguai ( 1865-1870 ). "Em geral, o presidente paraguaio na guerra, Solano López, é tratado como herói progressista, portador de uma luta antiimperialista. Muitos historiadores paraguaios até acham graça dessa visão de um caudilho sul-americano ", afirma o pesquisador Manolo Florentino, da UFRJ.

A reportagem da Folha encontrou exemplo dessa visão da Guerra do Paraguai no livro "História e Reflexão", de Gilberto Cotrim, editado pela editora Saraiva.


África é ignorada, diz pesquisador
da sucursal do Rio

Para o historiador Luiz Felipe de Alencastro, a superficialidade com que os livros didáticos tratam da história da África, e suas influências sobre o Brasil, não pode ser creditada apenas aos autores dessas publicações.

"Recentemente, promovemos na USP ( Universidade de São Paulo ) dois concursos para interessados em pesquisar a história da África. Nos dois caso, apenas uma pessoa se apresentou. Há um desinteresse geral da academia pelo tema e isso acaba se refletindo nos livros didáticos".

Alencastro recebeu no mês passado um prêmio por seu livro "O Trato dos Viventes - Formação do Brasil no Atlântico Sul", em que retrata a importância de fatos históricos ocorridos no continente africano para a formação econômica do Brasil.

Para ele, há uma tendência dos historiadores do país de limitar as pesquisas ao território colonial brasileiro. "É uma visão territorial e anacrônica da história do Brasil, como se a idéia de nação sempre existisse na colônia".


Abaixo estamos reproduzindo o texto-resposta de Cláudio Vicentino, um dos autores que teve seu livro citado na reportagem.

Quarta-feira, 5 de setembro de 2001

Estou recorrendo ao Ombudsman por um erro prejudicial ao meu nome na reportagem do jornalista Antônio Gois do dia 05/09/2001, página C 9. Na reportagem foi afirmado em seu final o seguinte: "A Folha entrou em contato com a assessoria de imprensa da editora Scipione, que publicou o livro História Integrada de Cláudio Vicentino, citado no quadro que acompanha esta reportagem. No entanto, até o fechamento desta edição, Vicentino não havia procurado a redação."

Como destaco abaixo, em texto igual ao enviado ao Painel do Leitor da Folha de São Paulo, não poderia ter procurado a redação da Folha pois nada sabia sobre a reportagem. Surpreendido ao ler a reportagem no dia 05/09/01, recorri à editora que, segundo ela, foi procurada para uma matéria sobre avaliação de livros didáticos de história. Como meus livros não tinham sido avaliados no último PNLD, foi encerrado o assunto tanto pela editora como pelo jornalista. Também telefonei para o jornalista responsável pela matéria, Antônio Gois, que, ao que pareceu, admitiu muito cordialmente que houveram desencontros, não permitindo que eu fosse contatado e participasse daquela reportagem. Dessa forma, acredito que tal citação em que me responsabilizou pela não participação constituiu não apenas um erro mas também uma afirmação comprometedora.

Antes de reproduzir o email enviado ao Painel do Leitor, gostaria ainda de acrescentar o descompasso entre a manchete (o título da reportagem: "Livros didáticos distorcem história do país") e a matéria em si. Segundo Antônio Gois, a manchete não era de sua responsabilidade, pois tinha sido elaborada em São Paulo, concordando com o exagero e sua falta de sentido (ao que pareceu). Ao contrário da matéria, bastante equilibrada, ouvindo vários lados e atendendo diversas posições polêmicas quanto ao assunto referente aos livros didáticos, a manchete resumia com uma simplificação rasteira. Mais do que isso, assumia uma posição quanto à possibilidade (ou existência) de uma única história (a não distorcida).

Texto enviado ao Painel do Leitor

Gostaria de desfazer um equívoco publicado na matéria do jornalista Antônio Gois no caderno Cotidiano do dia 05/09/2001, página C 9. Ali foi afirmado que eu deixei de atender uma solicitação da reportagem da Folha de São Paulo, não procurando a redação do jornal. De fato, não poderia fazê-lo, pois desconhecia completamente tal reportagem e a solicitação. Num assunto tão importante quanto polêmico sobre os livros didáticos, gostaria muito de ter opinado. Mesmo assim, reafirmo minha disposição para outras oportunidades. Certamente a matéria de Antônio Gois abre espaço importante de discussão sobre o ensino de história, ficando longe de esgotar o assunto. O tempo de uma única história, de uma história verdadeira, indiscutível e isenta não convence mais ninguém, muito menos os jovens que tantos ainda teimam em tratá-los como eternas crianças. Professores e estudantes há muito repudiam a idéia de um livro didático oficial, portador de certezas indiscutíveis. Sobre a História efetiva, aquela que se faz na realidade concreta em que todos somos agentes, a História com H maiúsculo, vale lembrar que as distorções das perspectivas do nosso país e das atuações afirmativas para o conjunto da população brasileira continuam vivas, fortes e se escondendo num relativismo maroto, nem isentas e nem convincentes. Assim, bem além daquela manchete da reportagem ("Livros didáticos distorcem história do país") estão elites e alguns intelectuais aliados que continuam distorcendo a História (com H maiúsculo) de todos nós brasileiros.


Abaixo apresentamos o editorial publicado no mesmo jornal, Folha de São Paulo, do dia 09 de setembro de 2001, por tanto, quatro dias depois da matéria ter sido publicada e três dias depois de terem recebido a resposta do autor.

História e Verdade

Embora muitos acreditem que a história seja a ciência dos fatos relativos à vida de um povo, é fenômeno relativamente comum que, de um mesmo evento, dois historiadores extraiam teses diametralmente opostos. Livros didáticos de história, como mostrou reportagem publicada pela Folha na semana passada, não escapam a essa tendência.

Atualmente, um livro brasileiro pode ser criticado seja por tratar Francisco Solano López como líder paraguaio que desejava construir um país forte e soberano seja por tratar todos os grupos étnicos de negros que aqui chegaram apenas com "africanos".

São críticas que, diga-se, fazem algum sentido. Quando se comenta a história da Guerra do Paraguai, é sem sombra de dúvida importante indicar que Solano López se opunha ao imperialismo inglês, mas não dá para deixar de mencionar que o homem era um caudilho.

Analogamente, é simplificação preconceituosa tratar como iguais todos os tipos de negros que vieram ao Brasil sem nem tentar mencionar que havia principalmente bantos e sudaneses, que, por sua vez, se subdividem em várias dezenas de etnias. É realmente desconcertante que o Brasil, a segunda maior nação negra do planeta, menor apenas do que a Nigéria, insista em ignorar tão olimpicamente a história africana.

Reparos à parte, convém registra que houve uma evolução importante. Não muitos anos atrás, os livros escolares ainda enalteciam o duque de Caxias como grande herói nacional. Embora o patrono do Exército brasileiro tenha cumprido a missão que lhe foi dada e possa ainda hoje ser considerado um herói, atualmente questiona-se o papel do Brasil num conflito com contornos genocidas como foi a Guerra do Paraguai.

Toda "verdade" histórica é antes de mais nada um versão para um conjunto de fatos. Essa é uma concepção de história bastante disseminada hoje, no que representou significativo avanço em relação aos tempos em que se acreditava numa história neutra, objetiva e baseada unicamente em fatos indisputáveis.

O risco da interpretação mais moderna é desembocar no desprezo pelo fato. Se tudo é uma questão de juízos, de ideologia, então por que o autor não fica apenas com sua tese e adapta os fatos a ela? De certo modo, isso ocorre. E não se pode afirmar que os historiadores que seguiram exclusivamente essa linha tenham trazido uma grande contribuição para a ciência histórica. O que trouxeram foi falsificação, às vezes consciente, às vezes não. Às vezes evidente, às vezes não.

Existe, obviamente, uma grande e interminável discussão teórica, que deveria, em algum grau, estar presente nos próprios livros didáticos. O fato ( se ainda é lícito falar em fato ) é que, pela diversidade de interpretação hoje à disposição de alunos e de professores, ficou mais fácil começar a entender história. Existe aqui um pouco do que Hegel chamou de dialética.

Sobenh (Sociedade Brasileira de Ensino de História), aqui.

2 de out. de 2007

Quando a polícia abre o baú da imprensa

Quando a polícia abre o baú da imprensa

Por Carlos Brickmann em 2/10/2007

Que o mensalão começou em Minas Gerais, até os fios de cabelo de Marcos Valério sabiam. A primeira investida do esquema beneficiou o governador tucano Eduardo Azeredo, candidato à reeleição (perdeu para Itamar Franco). A imprensa até que deu a notícia, embora discretamente. E esqueceu o assunto.

Agora, alguns anos depois, o tema volta à primeira página, mas só porque a Polícia Federal concluiu seu relatório. Nesse tempo todo, nenhum meio de comunicação investigou o caso por conta própria. Nem mesmo quando Walfrido dos Mares Guia, apontado como partícipe do primeiro mensalão, foi nomeado ministro do governo petista, apontado como partícipe do segundo mensalão. Silêncio. Agora o assunto foi retomado – mas desde quando a imprensa precisa ser pautada pela Polícia Federal?

É feio. E, no entanto, faz parte de um rol de assuntos nunca muito bem explicados, casos que não ficaram em segredo, mas mereceram pouquíssimo destaque e nenhum investimento em reportagem. O caso dos duzentinhos, por exemplo, na época em que, por iniciativa tucana, conseguiu-se aprovar a reeleição do presidente da República. E era um caso interessante, até pelo nome de um dos parlamentares citados – Ronivon. A filha extraconjugal de um senador mereceu amplo espaço, muito maior que o do filho extraconjugal de outro senador (e, nos dois casos, a acusação era a mesma: mães e crianças seriam mantidas por grandes empresas). O caso do metrô paulista, onde um acidente comeu sete vidas, há muitos e muitos meses, também não ganhou investigação. Ninguém pediu sequer para ver o projeto executivo da estação que virou buraco. E não é coisa apenas tucana: os túneis petistas em São Paulo ficaram inundados logo após a inauguração e foi preciso reformá-los. Cadê as matérias?

Pois é: há assuntos que entram na moda, há assuntos que não há força humana capaz de colocá-los na mídia. Tudo bem, vai ver que o mundo é assim. Mas precisava transformar o mensalão tucano, na imprensa, em mensalão mineiro?

Observatório da Imprensa, aqui.

30 de set. de 2007

Hobsbawm prevê fim do império americano


Hobsbawm prevê fim do império americano

Folha - Em A Era das Revoluções, o sr. fez uma descrição do mundo no século 18. Se fosse fazer a mesma análise do mundo hoje, que aspectos seriam mais relevantes?

Eric Hobsbawm - Eu tentaria começar a descrevê-lo pelo que se pode ver do espaço. No começo da era das revoluções, o único resultado da ação do homem na Terra que podia ser visto do alto era a Grande Muralha da China. Agora podemos ver muito mais. A partir dos foguetes, se percebe o declínio das florestas, o tamanho e a luz das metrópoles, o reflexo de guerras e catástrofes. Se no século 18 sequer tínhamos uma visão global, agora podemos estar no espaço para conferi-la. Em segundo lugar, uma das grandes dificuldades do século 18, a de como ir de um lugar para o outro, passou por uma revolução sem precedentes. Também chamaria a atenção para o que justamente não se pode ver do espaço, a revolução sem precedentes que é a internet. E outros temas como o fim do campesinato e o novo lugar das mulheres. Mas estou muito velho pra um esforço desses...

Folha - Em seu novo livro, ao criticar a ação dos EUA no Iraque, o sr. diz que os valores ocidentais não podem ser simplesmente apresentados como ''importações tecnológicas cujos benefícios são imediatamente óbvios''. Em que momento o que era sonho virou pesadelo?

Hobsbawm - Sempre foi um pesadelo quando se fez uso de poder militar para exportar valores. As idéias podem viajar, mas não a bordo de tanques. Os ideais da Revolução Francesa se espalharam pela Espanha, pela América Latina e causaram grandes transformações políticas. Mas, quando a França quis exportar suas instituições à força, não teve sucesso. Quando uma intervenção não conta com certo consenso local, tende a fracassar. A idéia por trás de certo imperialismo dos direitos humanos era de que regimes tirânicos seriam tão imunes a influências externas que precisariam ser removidos pela força. Mas trata-se de uma concepção antiga, de um mundo pré-1989, pré-redemocratização de regiões como a América Latina.

Folha - O sr. diz que o objetivo de seu novo livro foi ajudar os jovens a enfrentar o século 21 com o pessimismo necessário. Por quê?

Hobsbawm - O fato é que as perspectivas não são boas. Não me refiro apenas à política internacional, mas também aos assuntos relacionados ao ambiente. Hoje já não se pode dizer tão seguramente, como nos séculos 19 e 20, que estamos num caminho de progresso. Questões como crise de energia e falta de água são reais. Outro processo que não vai parar é o da globalização, e talvez o preparo que se exija dos jovens é para que saibam como lidar com essa aceleração dramática.

Folha - O sr. disse que não é mais um comunista porque o comunismo já não está mais na agenda do mundo. Por que o anticomunismo está tomando formas tão agressivas?

Hobsbawm - O comunismo como movimento que conglomera muita gente já não existe. Não se trata mais de uma alternativa no Ocidente. A partir de 1989, passou a ser diferente. Com relação à China, por exemplo, o que quer que esteja acontecendo de errado lá não tem nada que ver com o comunismo. Também não acho que os trabalhadores que assinaram manifestos pelo comunismo no passado pensem que acreditaram num Deus que falhou. Apenas quiseram fazer uma opção, que não deu certo. Hoje, achar que o comunismo é um mal concreto é algo que está limitado ao meio intelectual. Mais especificamente, a intelectuais de países em que o comunismo foi muito influente no debate político. Então chegou um momento em que essas pessoas quiseram reagir contra, como se estivessem pedindo desculpas. Por exemplo, François Furet [historiador francês, autor de ''Pensando a Revolução Francesa''], quando o conheci, ele não era apenas um comunista, mas um enfático militante stalinista. E depois virou-se completamente.

Folha - No prefácio de seu novo livro o sr. diz que suas convicções políticas são indestrutíveis.

Hobsbawm - Sim, minha convicção de ser de esquerda continua. Me posiciono fortemente contra o imperialismo e contra as forças que acham que fazem um bem a outros países ao invadi-los, e contra a tendência de pessoas que, por serem brancas, são superiores. Essas certezas eu não abandono. Mas algumas das minhas convicções mudaram. Não creio mais que o comunismo como foi aplicado poderia dar certo. E não sou mais revolucionário.

Porém, não acho que tenha sido mau para mim e para minha geração termos sido revolucionários. Cresci na Alemanha de Hitler, sempre odiarei totalitarismos.

Folha - O sr. diz no livro que uma chave para entender o que há de diferente no império norte-americano é que os outros grandes impérios do passado sabiam que não eram os únicos, no tempo em que exerceram o poder, e nenhum ambicionou uma dominação global. O que essa diferença revela?

Hobsbawm - Não acho que exista hoje, como nunca existiu, espaço para um único império no planeta. Mesmo o Império Romano, à sua época, não era o único e sabia disso. Havia o persa, o chinês. Brevemente, no século 19, pode ter parecido possível, por razões tecnológicas, que parte do mundo respondesse a um país, como foi o caso do Reino Unido. Mas a Inglaterra nunca quis tentar exercer todo esse poder. A política do Império Britânico era apenas a de seguir a lógica e os interesses de sua economia. Por um breve momento, realmente controlou boa parte do planeta. Mas tampouco houve um grande inimigo. Acho que o mundo continuará a ser plural, com algumas unidades políticas que serão mais poderosas que as outras. Mas não haverá um único império.

Folha - Mas o sr. acredita que a supremacia norte-americana esteja em vias de se dissolver?

Hobsbawm - A Guerra do Iraque está demonstrando que exercer influência no mundo todo não será possível. Ela está demonstrando que mesmo uma grande concentração de poder militar não pode controlar um Estado relativamente fraco sem certa aprovação ou consenso deste. Defendo no livro que o projeto norte-americano está falindo. O que não significa que os EUA se tornarão um país mais fraco, ou que estejam em declínio ou colapso. Mesmo que percam os seus soldados, continuarão sendo uma nação importante, econômica e politicamente.

Folha - Mas onde estão os indícios dessa falência, além do fracasso da intervenção militar no Iraque?

Hobsbawm - O império norte-americano não permanecerá, entre outras razões, por questões internas. A maior parte dos norte-americanos não quer saber de imperialismo e sim de sua economia interna, que tem mostrado fragilidades. Logo os projetos de dominação mundial terão de dar lugar a preocupações econômicas. E os outros países, se não podem conter os EUA, têm de acreditar que é possível tentar reeducá-los.

Folha - O sr. tem defendido que a reação à Al Qaeda é mais perigosa do que os atentados promovidos pelo grupo. Por quê?

Hobsbawm - O projeto político da Al Qaeda é o de recriar a área do califado muçulmano, da Pérsia até a Espanha. Isso é algo completamente fora de questão, uma utopia. O modo como a Al Qaeda se desenvolveu, em pequenos grupos ativos, é muito mais eficiente do que o terrorismo de outros tempos, muito por conta do elemento do homem-bomba. O homem-bomba não é apenas eficaz do ponto de vista objetivo, ele é também mais assustador, porque emocionalmente as pessoas acham difícil entendê-lo, justificá-lo.

Por outro lado, se olharmos para o número de pessoas mortas não só pela Al Qaeda mas por todos os terroristas e homens-bomba até hoje, em termos absolutos, é algo muito pequeno. É um erro achar que a Al Qaeda é uma ameaça ao mundo. A reação à Al Qaeda, essa sim, tem sido perigosa. Não só porque está produzindo uma intervenção militar massiva em locais em que não deveria haver nenhuma intervenção militar. Mas também porque está sendo responsável pela diminuição do respeito aos direitos humanos no Ocidente. É claro que seria ridículo não levar a Al Qaeda a sério. Mas bombardear países não é o modo de lidar com esse tipo de problema. Nunca foi. A questão deve ser resolvida pelos meios tradicionais aplicados no passado, contra o IRA (Exército Republicano Irlandês) e outros grupos terroristas. Por meio de estratégias de investigação policial, da infiltração, de ações localizadas. Trata-se de um problema policial, não militar.

Folha - Quando conversamos, em 2002, por ocasião do lançamento de sua biografia, Tempos Interessantes, o sr. disse que considerava a América Latina um ''fantástico laboratório de transformações históricas''. Ainda pensa assim?

Hobsbawm - Sim, ainda acho que se trata de um continente em que é possível acompanhar desde o momento em que a natureza foi dominada e as pessoas se estabeleceram até a rápida modernização, industrial e da sociedade, ao mesmo tempo. Algo que em outros lugares levaria gerações na América Latina acontece de modo muito acelerado. Visitei o Brasil pela primeira vez há 40 anos. E hoje observo que o país mudou dramaticamente.

Folha - Para o bem?

Hobsbawm - Deixando de lado juízos de valor... O que me impressiona hoje é perceber que antes eu considerava 40 anos um tempo muito longo na história, e agora sei que cabe numa vida humana. Para um historiador, a América Latina, o Brasil, são lugares onde você pode acompanhar um processo inteiro. Como foi importante para Darwin em relação à biologia, acontece da mesma forma para a história. Mas o que continua sendo um mistério para mim é por que, apesar de seu grande potencial, a América Latina tenha permanecido à margem da história ocidental e aí continua. E é desse modo, também, que está entrando no século 21.

Folha - O sr. não vê perspectivas?

Hobsbawm - Não para a América Latina como um todo, possivelmente para o Brasil.

Folha - O sr. segue otimista com o governo Lula?

Hobsbawm - Não tenho acompanhado de forma pontual, mas no geral o Brasil está melhor. A economia, o padrão de vida das pessoas. Em outros aspectos, segue uma bagunça. É interessante notar que, no que diz respeito às diferenças sociais, o país não está mais sozinho. O resto do mundo também ficou socialmente mais polarizado. O Brasil tem uma chance hoje de, como a Argentina em certo momento do século 19, desenvolver-se economicamente muito rápido a partir da exportação de produtos primários. Há uma crise de produtos naturais no mundo e o Brasil tem um potencial ilimitado em relação à produção de alimentos.

Folha - O que o sr. acha de Hugo Chávez?

Hobsbawm - É uma figura simpática, tem senso humor, não é um intelectual, economista, teórico, mas se transformou em mais do que mais um militar latino-americano que tomou o poder. Ele teve sucesso ao se transformar num símbolo genuíno de liderança para a América Latina. Ele continua, mas supera o que simbolizou Fidel Castro. E tem muita sorte de ter tanto petróleo por trás.

Folha - E Fidel Castro? O que ficará da Revolução Cubana?

Hobsbawm - Cuba já vive a fase de transição pós-Castro. Castro será lembrado como uma lenda, uma tocha da emancipação da América Latina em relação aos EUA, uma expressão dramatizada de sua aspiração por independência, um símbolo antiimperialista. Vai ser lembrado por conquistas sociais que nenhum outro país latino-americano alcançou. Acho que não foi suficientemente dito ainda o quanto melhorou a qualidade e a expectativa de vida dos cubanos. Porém, fundamentalmente, o projeto cubano não pode ser considerado um sucesso. Economicamente, foi um desastre até, assim como a tentativa de revolucionar o resto da América Latina não teve sucesso. Fidel vai sobreviver como Che Guevara. Uma imagem, um símbolo.

Folha - No ensaio Nations and Nationalism in the New Century (Nações e nacionalismo no novo século), o sr. lamenta o fato de que as seleções de futebol nacionais estejam perdendo força para os chamados superclubes internacionais. O sr. não acha que o nível do esporte, por conta disso, tenha melhorado?

Hobsbawm - O futebol sintetiza muito bem a dialética entre identidade nacional, globalização e xenofobia dos dias de hoje. Os clubes viraram entidades transnacionais, empreendimentos globais. Mas, paradoxalmente, o que faz o futebol popular continua sendo, antes de tudo, a fidelidade local de um grupo de torcedores para com uma equipe. E, ainda, o que faz dos campeonatos mundiais algo interessante é o fato de que podemos ver países em competição. Por isso acho que o futebol carrega o conflito essencial da globalização.

Os clubes querem ter os jogadores em tempo integral, mas também precisam que eles joguem por suas seleções para legitimá-los como heróis nacionais. Enquanto isso, clubes de países da África ou da América Latina vão virando centros de recrutamento e perdendo o encanto local de seus encontros, como acontece com os times do Brasil e da Argentina. É um paradoxo interessante para pensar sobre a globalização.

Fonte: Folha de S.Paulo, 30/9/07

28 de set. de 2007

Livros didáticos

Livros didáticos
O caderno Aliás de 23/9 trouxe algumas menções de educadores ao livro didático que entendemos equivocadas. Em respeito aos leitores, gostaríamos de apresentar a visão de quem faz o livro didático no País. Em primeiro lugar, ressaltamos que a atual forma
de escolha do livro didático é uma das mais democráticas e transparentes do mundo. O sistema é tão bem-feito que prosseguiu mesmo com a mudança de governo. Graças a esse esforço conjunto da sociedade, o Brasil tem um dos melhores programas de compra e distribuição de livros didáticos, além de reforçar a importância da livre escolha do professor. Ou seja, não há imposição de governantes na escolha da obra e os títulos e abordagens são variados. Como o professor é parte fundamental neste processo, o educador fica confortável para utilizar em suas aulas o livro escolhido por ele. Por conseqüência, o aluno usará efetivamente o material. Também é importante ressaltar que diante de critérios tão rigorosos de escolha as editoras são forçadas a ter sempre o melhor livro didático possível, com investimento em autores, pesquisas e na qualidade de impressão. A complexidade da edição e produção do livro didático, muito maior que a de outros tipos de obras, assim como as altas tiragens necessárias à sua viabilização exigem investimentos vultosos que aumentam significativamente o risco desse ramo editorial. Em conseqüência, as editoras organizam-se como empresas modernas. Dispõem de profissionais de alto nível, de complexa estrutura organizacional, de ampla rede de distribuição e de tecnologia sofisticada. Portanto, não se pode criticar todo um sistema que vem dando certo há tanto tempo sem conhecê-lo com rigor e mais profundidade. Nem criticá-lo em sua totalidade por causa de questões específicas e pontuais.
JOÃO ARINOS,
presidente da Associação Brasileira de Editores de Livros
São Paulo