26 de ago. de 2007

Definitivamente cansei do Brasil.

Cansados do Brasil
Luís Carlos Lopes

São curiosas as reivindicações desta gente do Cansei. Eles dizem que estão cansados dos assaltos, dos assassinatos e de coisas como acidentes aéreos trágicos. Dizem que são contra a corrupção e pensam que a época da ditadura era melhor. Prenunciam a campanha eleitoral presidencial que se aproxima, acusando o governo atual de todos os males do país. E o governo, para eles, é composto apenas pela presidência da República. O resto do Executivo, o Congresso e o Judiciário desaparecem de suas críticas. Os governos estaduais e municipais também escapam de suas fúrias, principalmente, os dirigidos por aqueles que consideram aliados.

As empresas nacionais e estrangeiras, segundo eles, não têm quaisquer responsabilidades nos problemas do país. O crime nada tem a ver com a distribuição de renda, da qual eles fogem, tal como o dito cujo foge da cruz. Existiria uma corrupção de Estado aceitável e a de hoje, para eles, mais grave. Na ditadura viviam no céu, na democracia chegaram ao inferno. Eles precisam rapidamente voltar ao passado. Não criticam o Estado brasileiro e nem as políticas de governo. Criticam pessoas que seriam despreparadas e incapazes, isto é, não seriam membros da elite branca (expressão usada por um deles) e nem teriam a formação universitária correspondente aos cargos ocupados.

Esquecem que para roubar não é preciso diploma. Roubam de doutores a analfabetos, de acordo com a ocasião, que sempre fez e faz o ladrão. A cor da pele nada tem a ver com o roubo. Aliás, os cometidos pelos brancos costumam ser maiores, mais valiosos e menos punidos. Tudo isto é esquecido. Eles turvam seus olhares, evitando ver a realidade que os envolve e encontrando bodes expiatórios para os seus problemas de consciência. Imaginam com impaciência, o jovem negro, pobre, ladrão e, eventualmente, assassino como sendo uma calamidade. Mas, calam-se contra os de colarinho branco que são facilmente absolvidos pela justiça, mesmo depois de serem reunidas provas incontestáveis de suas rapinagens.

Direitos humanos para eles é uma excrescência. Bandido bom é bandido morto, quanto mais torturado melhor. Pensam como alguns dos seus bisavôs que colocavam no tronco qualquer escravo, por ‘delitos’ mínimos. Os direitos deles são sempre os mais justos. Ninguém deve protestar quanto aos verdadeiros problemas sociais e políticos do país. Eles é que estão certos. Não querem discutir os seus reais problemas. Já sabem de tudo e acreditam que podem resolver as questões complicadas que tanto os cansam.

Eles parecem uma frente que juntou malufistas e fernandistas históricos, viúvos e viúvas da ditadura, deslumbrados das mídias, artistas de pouco talento, advogados, empresários, políticos, publicitários, outros profissionais de nível superior, alguns desportistas e até, segundo os jornais, um ou outro pobretão. As madames e os patrões levaram alguns dos seus domésticos para protestar. Nem todos sabem bem o que estão fazendo ali. Possivelmente, acham cool estar entre os famosos. Afinal, é um momento especial e raro para aparecerem na tv. Alguns, já esquecidos pelas grandes mídias, têm instantes de brilho e de fama. Não casualmente, eles são quase todos paulistas quatrocentões, brancos, volúveis e instáveis. Querem dar um sentido às suas vidas. Não agüentam mais o tédio cotidiano e o cheiro da miséria social e moral que os envolvem.

Eles estão cansados com certa razão. O ócio cansa. Falar para os mesmos cansa. Viver sem razão cansa. Omitir-se cansa. Ser brasileiro cansa. A impossibilidade de tirar da visão os mais pobres cansa. Afinal, o Brasil é pobre e miserável e alguns deles têm dinheiro demais. Acreditar-se belo para sempre cansa. Não ser capaz de pensar cansa. Defender a superficialidade cansa. Manipular o próximo cansa. Como seria bom que um novo pai da pátria branco cuidasse de tudo. Em breve, estarão cansados deste movimento e terão que conseguir outras coisas para fazer.

É verdade que numa democracia criticar o governo é tarefa da oposição seja ela de direita ou de esquerda, partidária ou social. Trata-se de algo salutar e próprio dos regimes que aceitam o diálogo e não amordaçam a palavra. Neste sentido, os cansados do Brasil têm o direito à crítica, bem como têm os mesmos direitos, os que estão cansados da elite brasileira, de seus políticos corruptos de qualquer partido e dos irracionalismos de plantão. O problema que precisa ser notado e que parece grave é que os cansados midiáticos apelam para volta de um passado baseado na tortura, na prisão, na morte, no exílio e na censura. Será que eles esqueceram? Ou será que estamos frente a um novo negacionismo?

CARTA MAIOR

12 de ago. de 2007

TEU RISO- NERUDA

O teu riso

Tira-me o pão, se quiseres,
tira-me o ar, mas não
me tires o teu riso.

Não me tires a rosa,
a lança que desfolhas,
a água que de súbito
brota da tua alegria,
a repentina onda
de prata que em ti nasce.

A minha luta é dura e regresso
com os olhos cansados
às vezes por ver
que a terra não muda,
mas ao entrar teu riso
sobe ao céu a procurar-me
e abre-me todas
as portas da vida.

Meu amor, nos momentos
mais escuros solta
o teu riso e se de súbito
vires que o meu sangue mancha
as pedras da rua,
ri, porque o teu riso
será para as minhas mãos
como uma espada fresca.

À beira do mar, no outono,
teu riso deve erguer
sua cascata de espuma,
e na primavera, amor,
quero teu riso como
a flor que esperava,
a flor azul, a rosa
da minha pátria sonora.

Ri-te da noite,
do dia, da lua,
ri-te das ruas
tortas da ilha,
ri-te deste grosseiro
rapaz que te ama,
mas quando abro
os olhos e os fecho,
quando meus passos vão,
quando voltam meus passos,
nega-me o pão, o ar,
a luz, a primavera,
mas nunca o teu riso,
porque então morreria.

Pablo Neruda

3 de ago. de 2007

Cansei?

O porquê do “cansaço” da elite branca

A elite branca “cansou”. Resolveu, em sinal de protesto, fazer barulho e demonstrar toda sua indignação.

Lula Miranda

A elite branca “cansou”. Resolveu, em sinal de protesto, fazer barulho e demonstrar toda sua indignação. Pode-se vê-los, mais uma vez, devidamente “enquadrados” numa charge do Angeli, onde se vê, como que numa coreografia mais ou menos ensaiada, esses singulares membros da nossa sociedade com os braços para cima a chacoalhar suas jóias e Rolex num veemente e ruidoso protesto. Indubitavelmente bastante ruidoso e veemente... Risível, decerto.

A elite branca, em definitivo, cansou de conviver com um operário na Presidência da República. Um presidente “monoglota” e sem curso superior é duro de agüentar. E os familiares do presidente então!? Todos de uma pobreza lastimável. Onde foi parar o “glamour” da Presidência da República?

A elite branca cansou desse romantismo ignaro e pobre do proletariado no poder. Esse negócio do Partido dos Trabalhadores “lotear” a máquina pública colocando sindicalistas e outros “desqualificados” em cargos estratégicos da administração federal, é duro de engolir. Esses cargos, você há de se recordar, eram antes todos de livre provimento das elites brancas. Claro! Pois só eles sabem governar, só a eles, e aos seus, devem ser reservados os melhores empregos, escolas, faculdades, casas e hospitais.

Esse negócio de pagar faculdade para pobre também é algo que a elite branca já não suporta mais. Cotas para negros e pobres nas Universidades Públicas, então, é algo intolerável. O que é pior: essa história de investimentos em um sistema universal de saúde à custa do rico dinheirinho dos impostos não pagos pela elite branca, é para acabar.

A elite branca cansou de carga tributária extorsiva para financiar essa tal bolsa-esmola. Cansou de ver os seus iguais “enquadrados”, não pelas charges inteligentes do cartunista Angeli, mas pela Polícia Federal mesmo, em horário nobre da TV. Tem “madame” e “doutor” chacoalhando as algemas e fazendo test-drive em camburão zero quilômetro, modelo 2007/2008.

A elite branca quer cheirar sua cocaína em paz e harmonia. A mesma cocaína que desce os morros e favelas para abastecer as festas, e mancha de sangue a alvura de sua hipocrisia branca; não quer a Força Nacional, e o que sobrou da polícia digna e cidadã do Rio de Janeiro, causando contratempos ao bom andamento dos “negócios” no complexo de favelas do Alemão. A elite branca, empalidecida, não admite que o governo da Venezuela não renove a concessão da RCTV, pois temem que um dia a “sua casa”, a sua Rede Globo de Televisão, encontre o mesmo destino.

À elite branca não interessa que nesse mesmo governo, que lhes causa indignação e cansaço, o emprego formal bate recorde após recorde: só no primeiro semestre desse ano de 2007, foram criados cerca de 1,096 milhão de empregos com carteira assinada. A elite branca tem verdadeira ojeriza a pobres e desempregados – e também pelos pobres que mofam nas filas em busca de emprego. A elite branca vetou o projeto de FGTS para empregados domésticos – não gastaria o valor de um jantar para pagar a parcela mensal do FGTS da criadagem. Como nos evidencia os nossos vexatórios índices sociais, a nossa elite branca é por demais benevolente e generosa.

Portanto, deixe a elite branca reclamar, e clamar aos quatro ventos o seu cansaço. Afinal, o Veuvet Clicquot nunca esteve tão barato: virou “carne de vaca”, “todo mundo” hoje está bebendo. Viajar ao exterior então! E esse tal “caos aéreo” é, em grande parte, culpa das passagens muito baratas e dessa “gentalha” que deixou de viajar de ônibus (ou de pau-de-arara) e passou a viajar de avião, enchendo assim os aeroportos e aviões com sua pobreza e maus modos. Um horror! Viajar de avião antes era exclusividade dos bem-nascidos.

A elite branca detesta o governo Lula. A elite branca detesta pobre. A elite branca adora as revistas Caras e Veja, os jornais Folha de S.Paulo e Estado de S. Paulo e a rede Globo. A elite branca enxerga o país como uma jazida a ser explorada até a exaustão, apenas isso. E o povo brasileiro, os escravos de sempre que aí estão para servi-la. Apenas isso e não mais que isso.

AGÊNCIA CARTA MAIOR

23 de jul. de 2007

O modelo educacional brasileiro

Waldyr Kopezky

É um absurdo dizer que a educação pública brasileira melhorou! A maior causa disso - diga-se de passagem - foi responsabilidade do governo federal nos anos 90, que (independente do que foi escrito na contituição de 1988, e que era meritório) seguiu as determinações da UNESCO para continuar recebendo ajuda internacional para incremento das políticas públicas na área educacional. Explico: em 1994 (se não me falha a memória), encerrava-se um ciclo de transferência de dinheiro (ajuda internacional da ONU) para os países em desenvolvimento - incluído aí o Brasil - que visava alavancar o número de crianças nas escolas e reduzir de forma significativa o analfabetismo no terceiro mundo.

Neste ano, a última remessa seria enviada, condicionando-se o prosseguimento do fluxo financeiro à apresentação de estatísticas que comprovassem os resultados: redução da repetência e aumento da inclusão nas escolas. FHC e Mário Covas (este, num dos únicos momentos em que devia se envergonhar de sua atuação política - o outro seria na defesa intransigente da manutenção do controle da Cia. das Docas sobre os portos brasileiros, seu reduto eleitoral por excelência) buscaram, então, uma solução genial: implantaram um sistema de ensino consagrado, de um educador renomado (Paulo Freire) e criaram a "progressão continuada", sistema pedagógico que buscaria novas formas construtivistas de avaliar o aprendizado do aluno.

Beleza. Só que isso significava aprovar o aluno sem avaliá-lo (via exames), o que tornava subjetivo o processo. Pior: estimulava-se a todo o sistema de ensino (mediante um sistema de metas) a incrementar a aprovação ano-a-ano. Não se pensou na qualificação do professorado para implantar tal sistema pedagógico, não se adequou as escolas com equipamentos para tal e o resultado, hoje, é claro: uma população de formandos semi-alfabetizados, gente que mal sabe ler ou escrever.

8 de jul. de 2007

O APAGÃO DA EDUCAÇÃO.

O apagão anunciado de professores

Faltam docentes na rede pública. E o cenário não é dos mais atraentes para quem chega

Mônica Manir

Lisete Arelaro é do tempo em que professor trabalhava 18 horas semanais na rede pública, levava a pós-graduação no paralelo, pedia a companhia do aluno para sair da escola, ia ao cinema e ao teatro e tinha um fusquinha último tipo. Mas também é da época das vacas magérrimas, com o educador ganhando miséria de reais, acuado em salas protegidas por grades de ferro, pedindo licença médica a torto e a direito e assinando ponto em duas ou mais escolas. Ou em nenhuma. Nesta semana, dados do relatório 'Escassez de Professores no Ensino Médio: Soluções Estruturais e Emergenciais', elaborado por membros do Conselho Nacional de Educação, revelaram que as escolas públicas brasileiras sofrem um déficit de 246 mil docentes no ensino médio. Faltam, principalmente, docentes graduados em Física, Química e Matemática.

Um apagão inusitado de professores? 'É cínico dizer que essa situação é surpreendente', afirma Lisete, para quem a questão já caducava de madura havia pelo menos dez anos, desde que passou a prevalecer à lógica de um corte radical de gordura no funcionalismo público. Chefe do departamento de Administração Escolar e Economia da Educação, na Faculdade de Educação da USP, ela soma a essa lipoaspiração de vagas outros fatores como formação deficiente, jornadas astronômicas, excesso de tarefas burocráticas, salários defasados e ausência da comunidade na escola para explicar a situação capenga do professorado no País. Diante de outra triste notícia na área - os milhões desviados por certas ONGs que se comprometeram com alfabetização de adultos e jovens -, aponta o olhar crítico para as políticas públicas. 'É o Estado novamente repassando o problema, em vez de abraçá-lo como deve ser.' A seguir, ela esboça pontos da areia movediça em que se vêem os professores no Brasil.

CORTE NA DIAGONAL

Nos últimos anos, vigora a concepção neoliberal de que é necessário reduzir gastos a qualquer custo. Baseado no diagnóstico em parte real de que há gordura no serviço público, radicaliza-se. Vai-se tirando as pessoas do sistema até chegar ao caos. Além disso, ao falar de educação básica, somos a maioria mulheres. Somos nós que engravidamos e temos direito à licença-maternidade. Somos nós que normalmente cuidamos dos filhos, da mãe, do pai quando adoecem. Somos nós que estamos ficando doentes. Portanto, seria de bom senso que houvesse outro profissional que correspondesse ao professor-adjunto na rede municipal. Nos dados de que dispomos sobre a prefeitura de São Paulo, para mencionar uma prefeitura rica, não há mais professor-adjunto livre. Todos estão com classe.

AFLIÇÃO DOS MUNICÍPIOS

Houve um processo intenso de municipalização do ensino fundamental no Brasil. O que a Lei de Responsabilidade Fiscal coloca para os municípios? Que não podem ultrapassar 60% da folha com pessoal. Mas ainda existem 66 milhões de brasileiros sem ensino fundamental completo. Em muitos municípios de porte médio, vemos a aflição de prefeitos e secretários de Educação ao ouvir do secretário de Finanças que não dá para gastar mais porque o Tribunal de Contas vai pegar no pé. Temos que mexer um pouco aí. Tanto a saúde quanto a educação são áreas sociais claramente deficitárias, cuja privatização não resolve, porque os pobres não são lembrados por ela. É hora de reavaliar a Lei de Responsabilidade Fiscal e priorizar a educação nos próximos anos. Não no discurso. No discurso faz 50 anos que é prioritária.

ADEUS, ESTABILIDADE.

Um dos atrativos para ser funcionário público era a estabilidade. Ele dificilmente seria mandado embora. Em segundo lugar, o funcionário se aposentava com salário integral. Pequeno, mas integral. Isso não existe mais. A emenda constitucional de 1998 mudou isso. Depois veio a primeira reforma do governo Lula, que mexeu na aposentadoria. Isso talvez explique a média de idade alta do professorado no País: 37,8 anos. Historicamente, nessa faixa etária, ele estaria próximo da aposentadoria. O desejo de segurança terminou, até porque é moda dizer que, quanto mais instável você for, mais produz. É uma teoria maluca, que vai nos deixar todos enlouquecidos. Só serve para criar a competição entre as pessoas, não a solidariedade.

PISO DE R$ 850,00

Todo dia tem pesquisa dizendo o seguinte: 1. os professores são mal formados; 2. não sabem nada; 3. não adianta dar curso; 4. não mudam a forma de trabalhar. Nessa situação, mesmo o mais jovem não vai querer melhorar o Brasil. Para coroar tudo isso, há o desestímulo financeiro. Aumenta de ponta a ponta no País o número de alunos em sala de aula, mas se mantém o mesmo professor precário, com o salário congelado. Veja a discussão sobre o piso. Se for para falar em R$ 850,00 para 40 horas de trabalho, como em princípio está previsto no projeto de lei que o governo se comprometeu a mandar em agosto para o Congresso, dá desânimo. É possível ganhar mais fazendo qualquer outra coisa. E somos profissionais que precisam do trabalho oculto, ou seja, é necessário preparar a aula, corrigir trabalho. Isso não está previsto no número de aulas.

60 HORAS SEMANAIS

A cada dia, segmentos mais pobres da população ingressam no mercado de trabalho na condição de professor. Cerca de 49,5% dos professores têm pais com ensino fundamental incompleto. Desses, 15,2% têm pais sem nenhuma instrução. Quando ingressei no magistério, em 1968, éramos majoritariamente representantes da classe média e nosso salário era significativamente maior. Fora isso, 32,5% contribuem com 80% ou mais da renda familiar. Ou seja, ganhando o que ganham, as mulheres são cabeça de família. Assim sendo, não podem trabalhar num só lugar e sob regime de 4 horas, mas chegam a 60 horas semanais para ganhar R$ 2.500, R$ 3.000. Não é uma situação tranqüila.

FORMAÇÃO LIGEIRA

Hoje temos empresas formando professores. Empresas seguem a lógica do lucro. Portanto, existe um aligeiramento e uma desqualificação teórica e prática da formação. Ela foi reduzida de quatro para três anos, depois de três para dois. É comum que o aluno já venha dando aula, pois o professor normalista de ensino médio existe no Brasil. Então, quando ele vai para o ensino superior, sua prática, que deveria ser fruto de debates e discussões, vira um privilégio para fazer o curso com maior rapidez. Uma coisa é ser dispensado e completar um estágio docente. Outra é dispensá-lo não de 300, mas de 1.200 horas, como diplomação imediata. Isso não significa que ele, necessariamente, será um mau professor se não fez um bom curso superior. Mas daí para frente o Estado vai ter que investir para compensar suas deficiências.

LEU ALGUM LIVRO?

Costumo perguntar a esses professores sobre os livros inteiros que leram durante o curso. Antes, perguntava quantos foram. Hoje, para ser mais pragmática, pergunto qual. E, muitas vezes, não tenho resposta. Por quê? Porque ele leu uma apostila. Quando pergunto em que baseia sua convicção pedagógica, ele se diz socioconstrutivista. Em educação, dizer-se socioconstrutivista é o mesmo que se dizer brasileiro. Se não afirmar isso, vão dizer que está superado. Ser socioconstrutivista implicaria ler Vygotsky, Wallon, Paulo Freire, novas leituras sobre Piaget. O que leram? Resumos em apostilas. Os professores vêm perdendo a condição principal do exercício docente que é autonomia intelectual para poder escolher, entre as alternativas, aquela que seja a melhor para os alunos.

FÍSICA PARA POUCOS

Os professores de Física são poucos porque, em primeiro lugar, esse é um dos cursos superiores com maior taxa de evasão. Exige alto investimento pessoal e intelectual. Os que, enfim, se formam não querem ser professores. Querem ser pesquisadores. Uma bolsa de mestrado corresponde ao mesmo salário que ganharia como professor. Ele se especializa e, obviamente, tem mercado como físico. As empresas privadas também não fecham essa lacuna porque apostam que um professor de Ciências possa se aprofundar em Física nesses cursos aligeirados. Não vão investir a curto ou médio prazo em formar, de fato, professores de Física, Química ou mesmo Biologia.

ENSINO DISTANTE DEMAIS

A não ser em casos excepcionais, acho um equívoco imaginar que o ensino a distância vai fazer com que todos tenham uma chance. É um discurso populista e demagógico. Uma coisa é estabelecer um "Chat" com os alunos que me encontram. Outra é a grande palestra. Pode-se usar a tecnologia a favor do grupo, mas acho que as experiências feitas por aí confirmam que não há toda essa eficácia. Entendo que o tête-à-tête promove uma amorosidade nas relações. No ensino a distância, você tem um animador cultural, em geral um pedagogo, que discute todas as questões. Eu tive 11, 12 professores que pensavam diferentemente entre si e dessa divergência de opção teórica é que construí a minha, e não de um monitor.

PROGRAMAS IDÊNTICOS

Quando observo 200 escolas usando programas de ensino absolutamente idênticos, me apavoro. Não é possível um sistema em que o professor fale e o aluno responda da mesma maneira no Amapá, em Minas ou no Rio Grande do Sul. Esse caminhar em nome de uma suposta competência para uma formação básica comum dos brasileiros é blábláblá. Caminha-se, isso sim, para um currículo único dando um padrão de classe média disciplinado, obediente, dentro de uma lógica para o conjunto da população brasileira. É engano achar que isso significa qualidade de ensino e melhoria dos resultados no Saeb, Provinha Brasil, esse número infernal de provas. Infelizmente, falamos muito em multiculturalismo, mas no fundo há uma expectativa do professor de que seu grupo de alunos reaja da mesma maneira. Apesar de termos mais pobres dando aula, não quer dizer solidariedade àquele que também é pobre. Se o professor conseguiu chegar aonde chegou, acha que o outro é culpado por não ter o mesmo. Essa discussão me preocupa quando penso nas escolas de periferia. Não tenho dúvida: a violência vai pegar. Esse material pronto não tem a ver com os nossos alunos. Tenho medo disso.

ATRÁS DAS GRADES

Com essa jornada astronômica de trabalho, muitas vezes em escolas diferentes, e com tarefas cada vez mais burocráticas, os professores se distanciaram da comunidade. Não conhecem seus alunos, não criam laços de solidariedade com eles. Isso faz com que exista um tratamento ainda latente, mas que vem se firmando, de que a violência está premente em todos os lugares, que esses alunos com baixa estima são todos perigosos. Os professores estão assustados. Mas é verdade que também têm comportamentos distintos durante a jornada. De manhã, suportam com certo bom humor piadinhas às vezes pesadas. À tarde, se enfezam. À noite, o aluno nem manifestou seu pensamento e o professor o chama de delinqüente. Em algumas escolas públicas de ensino médio, o ambiente também não ajuda. Parecem cadeias de tanta grade. Não se distingue muito aquilo de uma Febem.

'EU PAGO VOCÊ'

O assédio moral é mais freqüente nas escolas privadas que atendem a segmentos da classe média alta. Certos alunos dizem: 'Meu pai é quem te paga e você não pode falar comigo assim'. Ou então, o que é mais cínico: 'Eu te pago e você tem que responder como eu quero, eu defino se você continua ou não nessa escola'. Temos visto isso em algumas escolas de forma surpreendente. Como o salário compensa, parte dos professores ouve isso sem reclamar. E eu arriscaria dizer que depois desconta na escola pública em que também trabalha. Já o pai pobre não entra na escola, a não ser conjunturalmente para uma festa junina, por exemplo. Primeiro porque nós, professores, achamos que quem sabe das coisas somos nós. Apostamos que, se os pais não participarem, melhor. O pai só vai à escola ouvir o quanto o filho dele é delinqüente, o quanto prejudica a aula. Mas ele não considera o filho tão terrível assim porque, muitas vezes, o garoto ajuda em casa. O pai tem de ser chamado para além do próprio filho, saber o que aquela escola tem a ver com o bairro dele, o que tem a aprender.

PROFESSOR NÃO MENTE

Nos últimos 20 anos, a profissão de professor se manteve como a mais confiável entre a população brasileira. A comunidade entende que professor não mente. Posso levar a tese mais esquisita possível para a sala de aula, mas é porque acredito nisso. Se mudar de opinião, peço desculpas pelo equívoco. Essa nossa legitimidade é um campo a nosso favor. Temos que reivindicar uma melhor formação, o trabalho tem de ser um pouco mais digno, mais estimulante. Não vou dizer que vai ser mágico, que alguém vá dobrar salário, mas tem que pensar em como se recupera a atração pela profissão exatamente pelo respeito que ela significa. E não tem jeito: nós, professores, vamos ter de fazer uma revisão sobre o que interessa à juventude hoje, o que quer dizer o conhecimento significativo. Eu acho que nem sempre estamos preparados para enfrentar isso. Nossa juventude não tem um sonho, uma utopia, acha que não terá emprego. Num país sem sonho, sem utopia, é muito difícil a escola sobreviver.

Mônica Manir