10 de ago. de 2010

A impunidade das petroleiras

*Khadija Sherife 

Na sede da companhia de exploração de petróleo Transocean, no cantão de Zug, na Suíça, a explosão da plataforma Deepwater Horizon foi celebrada em um hotel de luxo. No dia 14 de maio de 2010, três semanas após o desastre, o proprietário da plataforma – avaliada em 650 milhões de dólares antes do acidente – esperava um primeiro depósito de sua seguradora, no valor de 401 milhões de dólares, pela perda ocasionada. Logo depois, em uma reunião a portas fechadas, o diretor da empresa, Steven Newman, decidiu conceder a seus acionistas de dólares 1 bilhão em dividendos – bastante otimista e sensato, diga-se de passagem.

As plataformas petrolíferas, segundo o Direito marítimo internacional, são consideradas embarcações, de modo que os advogados da Transocean podem reivindicar a redução da responsabilidade financeira da empresa no acidente até ao valor da plataforma pós-desastre: meros 27 milhões de dólares. Essa operação jurídica é fundamentada por uma lei do século XIX, o Decreto de Limitação de Responsabilidade (Limitation of Liability Act), publicado em 1851; o mesmo que, em 1912, permitiu aos proprietários do Titanic pagar apenas 95 mil dólares às vítimas do naufrágio – correspondentes ao valor dos equipamentos de segurança e dos botes salva-vidas. 

Enquanto autoridades e empresários buscam soluções para deter o vazamento e limpar a costa do estado da Luisiana, as famílias dos 11 operários mortos em 20 de abril e milhares de vítimas da maré negra – como trabalhadores do litoral e representantes de movimentos sociais de proteção ao meio ambiente – já entraram no braço de ferro jurídico. A Transocean, contudo, espera se desresponsabilizar com a brecha fornecida pela norma internacional e passar a responsabilidade para a frente. Nesse empurra-empurra, a British Petroleum (BP), operadora da plataforma, tem sido o foco das críticas. Outras grandes petrolíferas retiraram a solidariedade em relação à multinacional britânica, com a justificativa de que o acidente poderia ter sido “evitado” e que, da parte delas, “não teriam perfurado esse poço”.

Já a Casa Branca prepara um acordo segundo o qual os dividendos da BP deveriam ser suspensos durante este ano e depositados na conta corrente de um terceiro, enquanto a avaliação financeira dos estragos estiver em curso. A moratória de seis meses para as plataformas flutuantes, decretada pelo presidente norte-norte-americano, Barack Obama, inquieta os petroleiros, que esperam retornar ao regime habitual o mais rápido possível – embora esse mesmo regime tenha forjado as bases da catástrofe.

Reston, no estado da Virgínia e na periferia de Washington, está a milhares de quilômetros do Golfo do México, de suas costas cheias de óleo e do desastre ecológico. No entanto, foi lá que tudo começou, onde estão os escritórios da corporação International Registries (IRI).

São escritórios pequenos, já que a atividade da IRI não requer mão de obra abundante. A empresa propõe a seus clientes contornar a regulamentação marítima e instalar suas plataformas em um país com leis mais amenas: a República das Ilhas Marshall, um arquipélago de 62 mil habitantes situado no meio do Oceano Pacífico. Na sua área de atuação, a IRI se autodenomina a empresa “mais experiente” do mundo; ocupa-se da exploração e transporte do petróleo. Entre seus clientes, está a Transocean, e claro, a BP.

Paraíso fiscal

Em 2009, o número de registros marítimos das Ilhas Marshall foi o maior do mundo, com 221 plataformas de petróleo – quatro vezes mais que os registros concedidos nos Estados Unidos, país com as maiores empresas petroleiras. Assim como o Panamá e a Libéria, as Ilhas Marshall propõem uma “jurisdição do sigilo”. Reduto de condescendência, as Ilhas servem também de paraíso fiscal e centro financeiro não continental. Nem sequer é necessário estar de corpo presente para adquirir uma “porção de permissividade” no arquipélago para criar “uma firma, uma sociedade limitada, uma empresa de responsabilidade limitada ou uma entidade marítima estrangeira”. Alguma troca de correspondência, fax ou e-mail é suficiente, como pudemos verificar.

Alegando agir em nome de um cliente que desejava “escapar dos entraves regulamentares de seu país de origem”, entramos em contato com os serviços da IRI alguns dias após a explosão da Deepwater Horizon. Uma primeira mensagem eletrônica nos informou que a criação de uma empresa registrada nas Ilhas não tardaria mais que um dia, por um custo total de 650 mil dólares. “Mais 450 dólares de renovação anual”, especificou ainda o interlocutor.

Informaram-nos que o status de nossa empresa não seria publicado, a menos que “o cliente demandasse expressamente”, de forma que poderíamos desfrutar o máximo da jurisdição local: ausência completa de impostos e níveis de confidencialidade comercial inigualáveis.

Nosso cliente deseja instalar uma plataforma de petróleo nas Ilhas Marshall, do tamanho da plataforma da BP, por exemplo. Na mensagem de resposta, a IRI nos propõe um “parcelamento” em cotas de 15 mil de dólares, aos quais convém adicionar um pequeno montante – 15 centavos por barril – de honorários anuais. Com bastante traquejo comercial, ele ainda nos oferece voluntariamente “uma redução de 50%” para “registrar uma frota de 10 (ou mais) plataformas com menos de 15 anos”. A oferta é sedutora: permite escapar do pagamento de taxas e royalties, direitos trabalhistas3 e de qualquer regulamentação ambiental.

A Transocean, maior empresa do mundo na terceirização de exploração de petróleo, aproveitou bem a mesma oferta: 29 das 83 plataformas indicadas no site da firma estão instaladas nas Ilhas Marshall, enquanto o restante está quase todo nos mares da Libéria e do Panamá.

Nosso personagem negociante se inquieta, e pergunta: “Que aconteceria, por exemplo, em caso de acidente, se as autoridades questionassem a identidade dos donos da empresa?”. Logo em seguida, nosso interlocutor nos acalma: “Se as autoridades vierem fiscalizar os registros, ou nossa jurisdição, para solicitar a divulgação de informações complementares sobre os acionistas, diretores da empresa etc., notem que não temos essas informações, já que toda organização do negócio e sua condução são efetuadas diretamente por seus advogados e diretores. A menos que os nomes de diretores e acionistas estejam registrados nas Ilhas Marshall – o que não é obrigatório4 –, não somos obrigados a revelar essas informações”. E assim nos sentimos seguros...

Empresas como a IRI são herdeiras diretas da política internacional dos EUA, cuja tradição remonta ao cenário pós-Segunda Guerra Mundial. Naquele momento, percebeu-se que, com a demanda que ultrapassava a oferta, o ouro negro se tornaria a riqueza natural mais cobiçada do mundo. Com o apoio da Standard Oil5 e de um antigo secretário de Estado do presidente Roosevelt, Edward R. Stettinius, a Libéria criou em 1948 o primeiro “registro marítimo aberto”, gerenciado desde Nova York pela empresa Stettinius Associates–Liberia Inc. De acordo com a historiadora Rodney Carlisle, naquele momento o código marítimo da Libéria foi “lido, referendado e aprovado pela Standard Oil”.

De olho na Libéria

Até o início dos anos 1990, era a IRI – sucessora da Stettinius depois de uma história de fusões e compras de bancos e empresas – que fazia da Libéria um porto pacífico para as petroleiras. No entanto, durante a guerra civil que dilacerava o país, o presidente Charles Taylor se mostrou muito voraz em relação à empresa, o que desencadeou a ruptura de uma relação que, no auge da guerra, resultava em 70% da receita de seu governo. A IRI se voltou então às Ilhas Marshall – antiga colônia japonesa que ficou sob tutela norte-americana de 1947 a 19867 –, onde desenvolveria um novo programa de registros permissivos. A IRI transfere para as Ilhas o conjunto de seus clientes e, em quinze anos, impeliu a República ao topo do ranking dos refúgios fiscais e regulamentários do mundo.

Atualmente, uma porcentagem significativa das plataformas de petróleo do planeta continua registrada na Libéria. Essa área não é mais gerenciada pela Stettinius, e sim pelo Serviço de Registro Internacional Liberiano de Embarcações e Empresas (LISCR), cujos escritórios estão localizados na periferia de Washington, em Vienna, cidade situada a apenas 13 km de Reston. “Mais de 3,1 mil plataformas de mais de 96 milhões de barris brutos, ou seja, 10% de toda a frota mundial” estão registrados na Libéria, festeja a empresa em seu site na internet.

“Muitas pessoas podem ficar surpresas com o fato de os registros marítimos da Libéria e das Ilhas Marshall estarem a alguns quilômetros de Washington”, observa John Christensen, antigo alto funcionário da Ilha de Jérsei (paraíso fiscal britânico) que, desde então, fundou a associação internacional Tax Justice Network. Contudo, ele não vê nenhum paradoxo: “Na realidade, esses dois espaços ultramarinos foram criados em função de interesses norte-americanos para contornar as regulamentações que protegem os cidadãos dos EUA, entre outros aspectos, dos custos que nesse preciso momento estão sendo produzidos no Golfo do México”.

Voltemos à nossa negociação com a IRI. O representante da empresa, de repente, introduz um elemento que parece ser uma atenuante ao seu discurso entusiasta: “Para uma plataforma móvel de exploração de petróleo operar nas águas de outro país, o proprietário deve aderir ao conjunto de solicitações formuladas por esse país antes de obter a autorização de funcionamento”. Mas o registro das plataformas nas Ilhas Marshall não faria com que os operadores ficassem fora do alcance da legislação norte-americana? Esse detalhe não parece produzir em nosso interlocutor a inquietação que imaginávamos, quando mencionou o que parecia uma condição.

Durante a investigação pública sobre a explosão da Deepwater Horizon, os norte-americanos ficaram chocados ao se inteirar de que “não existe nenhum tipo de vigilância” às plataformas de petróleo. E isso não era o pior: também descobriram, a partir das audiências realizadas pelo serviço de gestão mineral (Mineral Management Service, MMS), que os operadores e proprietários “se autocertificam e estabelecem eles mesmos os critérios que lhes parecem adequados”. O capitão da marinha costeira, Hung Nguyen, tentou resumir da seguinte forma: as regras são “concebidas segundo os critérios da indústria, fabricadas pela indústria, aplicadas pela mesma indústria sem supervisão do governo durante a construção ou manutenção. Não é assim?”. O diretor regional do MMS, Mike Saucier, não tinha outra escolha a não ser concordar.

Alguns anos antes, outra investigação concluiu que o MMS havia isentado a BP de respeitar as regulamentações petroleiras de segurança. Na ocasião, Earl Devaney, ex-inspetor geral do Ministério do Interior, havia qualificado o serviço de gestão mineral de “eticamente irresponsável”. Esse órgão não teria, talvez, aceitado regularmente “presentes” provenientes de empresas do setor de energia?

Se, hipoteticamente, a regulamentação da indústria no que se refere à segurança fosse aplicada, isso acarretaria algum verdadeiro problema às grandes empresas? Não necessariamente: a definição dos critérios de vigilância, sobretudo os que regem os sistemas antiexplosão – instrumentos-chave nesse âmbito –, são confiados às próprias empresas ou a organismos profissionais, como o Instituto Americano do Petróleo (AIP), que representa 400 empresas do setor petroleiro e de gás.

Primeiro beneficiário dos fundos da BP destinados aos candidatos presidenciais, Barack Obama herdou um sistema colocado em andamento sob a administração de seu predecessor, George W. Bush – que estava, por sua vez, sob a pressão do (muito discreto) grupo de trabalho para o desenvolvimento de uma política nacional de energia, encabeçado pelo vice-presidente Richard Cheney.

Formado após uma semana da posse de Bush, em janeiro de 2001, esse grupo de trabalho forjou, em oito semanas, o decreto executivo n° 13211, sobre energia. Os trabalhos foram tão rápidos, a ponto do Conselho Nacional pela Defesa dos Recursos Naturais (NRDC) identificar que o texto retomava a “estrutura” e as “conclusões” de um documento da AIP. Uma das seções mais importantes era, inclusive, “quase idêntica” ao material identificado como base.12 Além disso, as sessões de trabalho se resumiram a encontros reservados com grandes patrões do setor petroleiro, dentre os quais estava John Browne13, da BP.

Lei do silêncio

Ao obter uma cópia das 13,5 mil páginas dos documentos preparados pelo GT, o NRDC concluiu que “as grandes empresas de energia comandavam o grupo de trabalho da Casa Branca, enquanto os oficiais decidiam sobre um plano de bilhões de dólares de subvenções às empresas e eliminavam das regulamentações medidas preventivas cruciais em termos de saúde e do meio ambiente”.

Com esse cenário favorável dos últimos anos, a BP, encabeçando 294 filiais registradas em países que garantem “sigilo”, decidiu aumentar sua produção – reduzindo sua exposição aos riscos – por meio da prestação de serviços a empresas petroleiras. Foi nesse contexto que a Transocean alugou sua plataforma Deepwater Horizon à BP pelo valor de 1 milhão de dólares por dia, até 2013. A partir de operações como essa – e sob a direção de Tony Hayward, ex-diretor do departamento de exploração e produção –, a BP estendeu suas atividades nos campos marítimos de petróleo de modo voluntarista.

No último 20 de abril, os trabalhos de instalação da plataforma Deepwater Horizon estavam quase concluídos, à exceção de um poço que ainda necessitava ser perfurado. Diante do custo diário da plataforma, os gerentes da BP decidiram ignorar os procedimentos de segurança da Transocean. Embora estivessem conscientes dos problemas que o sistema antiexplosão apresentava, perseguiram um único objetivo: perfurar a qualquer custo – “drill, baby, drill”, se retomarmos o slogan da campanha da infeliz Sarah Palin, candidata republicana à vice-presidência dos EUA em 2008.

O ecossistema de Nova Orleãs pode levar centenas de anos para se restabelecer. O diretor de comunicação da Transocean, alegando um problema de “emergência dentária”, não respondeu às nossas questões. Quanto ao diretor da BP, Tony Hayward, não será sem certa dificuldade que tentará se esquivar de suas declarações no dia 18 de maio: “O impacto ambiental desse desastre será, provavelmente, bastante modesto”.


*Khadija Sherife é jornalista, coautora de Aid to Africa. Redeemer or coloniser?, Editora Pambazuka, Cidade do Cabo, 2009. Artigo publicado em Le Monde Diplomatique - Brasil .
 
Fonte: Opera Mundi 
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9 de ago. de 2010

Tragédia das chuvas: quase nada foi feito por Niterói

Desastre natural, que causou a morte de 167 pessoas e deixou mais de 8 mil desabrigados, completa quatro meses e o drama ainda é latente em diversos locais


Na noite de 5 de abril, uma frente fria vinda do sul do País encontrou uma massa de ar quente e ventos que sopravam do mar para o continente no litoral do Rio de Janeiro. Essas foram as condições climáticas que formaram o temporal que, por mais de 36 horas, atingiu o Estado do Rio. Durante toda a noite, um volume de água não visto nas últimas décadas foi suficiente para assolar a capital e as cidades vizinhas. Ruas alagadas e solos encharcados formaram um cenário de caos.



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Mais de 300 pontos de deslizamento e 167 vítimas fatais tornaram Niterói a cidade mais afetada pela tragédia em todo o estado. Quatro meses depois, o drama ainda é latente e a cidade ainda aguarda os investimentos prometidos. Comunidades seguem devastadas e áreas de deslizamento ainda demandam intervenções. Enquanto projetos habitacionais são planejados para tentar sanar a situação dos desabrigados, cerca de 150 famílias, vivendo em abrigos oficiais, ainda esperam um desfecho para o episódio que marcou a história de Niterói.



A tragédia das chuvas completou quatro meses no último dia 5 e Niterói ainda tenta se recuperar das perdas ocasionadas por aquela que é considerada a maior tragédia natural de sua história. Foram 167 mortos e 318 feridos, segundo informações da Secretaria Estadual de Saúde e Defesa Civil. O número de desabrigados também revela a intensidade do drama vivido pela cidade. Ao todo, mais de 8 mil pessoas perderam suas casas devido a deslizamentos e inundações. Deste total, cerca de 500 permanecem nos dois abrigos oficiais da Prefeitura e tentam reconstruir suas vidas.

Tragédia nos quatro cantos da cidade

Pela cidade, o cenário ainda remete às chuvas de abril, com pontos de deslizamento bastante evidentes. Segundo a Secretaria Estadual de Obras, bairros como Badu, Boa Viagem, Cachoeiras, Cantagalo, Charitas, Cubando, Engenhoca e Fonseca vão precisar de intervenções. O que demonstra que, da Zona Norte à Zona Sul, toda a cidade foi castigada.

Moradora da Rua Jornalista Moacyr Padilha, no Ingá, a estudante Camila dos Santos Ribeiro, de 19 anos, é exemplo de como as chuvas afetaram moradores de todas as classes sociais. Acostumada a morar em uma ampla casa de dois andares, a família dela está se vendo obrigada a mudar, já que o imóvel foi comprometido pelas chuvas. “Minha casa está interditada, mas continuamos morando nela até que a obra em uma outra casa que conseguimos comprar fique pronta. Até lá, fico com medo sempre que chove. Mas, pelo menos, já temos para onde ir. Pior são as pessoas que não têm condições de comprar ou alugar um novo imóvel”, relata.

Para o representante do Comitê de Solidariedade e Mobilização das Favelas e Comunidades Atingidas pelas Chuvas, Thiago Melo, é importante que toda a cidade abrace a causa das vítimas das chuvas. “É válido frisar que toda a cidade foi afetada. O problema das chuvas é de toda a população e não pode ser uma luta apenas dos desabrigados”, acredita.

Bumba – Apesar da destruição ter sido ampla, apenas dois dias após o início das chuvas, as proporções da tragédia atingiram níveis alarmantes. Na noite de 7 de abril, sucessivas explosões foram ouvidas na localidade de Viçoso Jardim. Em poucos instantes, 40 casas da comunidade do Morro do Bumba haviam sido varridas pela terra, dando lugar a uma montanha de lama e lixo. As casas haviam sido erguidas sobre um lixão desativado. Com as chuvas, a movimentação do solo resultou em reações químicas que fizeram todo o morro ruir e soterrar dezenas de pessoas. Ao longo dos dias, em buscas incessantes o Corpo de Bombeiros encontrou 47 corpos.

Nem todos foram encontrados

Segundo o diretor-geral do Instituto Médico-Legal (IML) do Estado do Rio de Janeiro, Frank Perlini, todos os trabalhos de identificação de corpos de vítimas das chuvas de abril já foram inteiramente concluídos. A grande maioria foi realizada através de exames papiloscópicos – ou seja, através de análise de digitais – sem que houvesse grande demanda para a realização de análises de DNA.

Mas, para alguns familiares, o drama ainda não chegou ao fim. A dor de perder um ou mais familiares foi somada à angústia de não poder sepultar seus corpos. Esse é o caso do representante de vendas Luciano Araújo, de 31 anos, que perdeu a mãe no deslizamento do Morro do Bumba, em Viçoso Jardim. O corpo de Margarida Rita da Silva, de 51, jamais foi encontrado. “As buscas chegaram a ser retomadas em maio, mas foram encerradas. Já perdi as esperanças de enterrar minha mãe e agora estou contratando um advogado para cuidar dessa situação. Quero que seja feita justiça”, declara.
A família de Jorsânia de Oliveira, 53 anos, também não conseguiu um desfecho para a triste perda de 12 familiares. O corpo da dona de casa não consta na relação dos mortos. Somente um braço foi encontrado – e sepultado sem que a família tomasse conhecimento. “Descobrimos que encontraram o braço da minha mãe quando procurei o IML. Havia um atestado de que haviam reconhecido o membro, que tinha sido sepultado no Cemitério do Maruí. O corpo ninguém encontrou”, conta a filha de Josânia, Ana Cláudia, que ainda tenta conseguir o atestado de óbito da mãe.

Além dos corpos de Margarida e Jorsânia, outros sete continuariam desaparecidos, segundo a Associação de Vítimas do Morro do Bumba. A Secretaria Estadual de Saúde e Defesa Civil, à qual o Corpo de Bombeiros está subordinado, informa que, apesar de findas as buscas, continua disponível para atender familiares que tenham indicações de desaparecidos. Quanto aos atestados de óbito, o Tribunal de Justiça do Rio diz que os familiares devem procurar a Prefeitura para orientações sobre como proceder para sua emissão.

Desabrigados sem informações

Horas após o início das chuvas, o número de desabrigados na cidade começou a subir de maneira vertiginosa. À medida que as casas eram destruídas, famílias inteiras começaram a ocupar escolas e igrejas por toda a cidade, locais onde permaneceram durante um mês. Depois disso, aquelas que não conseguiram voltar para suas casas ou encontrar outros abrigos foram removidas aos abrigos instituídos pela Prefeitura em dois terrenos do Exército, que foram desapropriados pelo Governo do Estado com essa finalidade.

Apesar da promessa de manter os abrigos até que fossem construídas habitações populares, a permanência nos abrigos se tornou incerta e já houve ameaças de “despejo”. Em julho, a Prefeitura de Niterói informou que deixaria de manter os espaços. A alegação era de que famílias abrigadas já estavam recebendo o benefício Aluguel Social e, por isso, não poderiam mais permanecer nos abrigos.

“Quando nos trouxeram para cá disseram que ficaríamos por um ano enquanto nossas casas são reconstruídas, mas a Prefeitura não fala mais nada”, relata o segurança Clóvis de Castro, de 42 anos, que diz não ter sido beneficiado com o Aluguel Social.

“As pessoas têm sonhos, têm vida, têm dignidade, mas às vezes a oportunidade falta e ficar em um abrigo sem qualquer posicionamento sobre quando teremos nossas casas de volta só cria revolta”, afirma a dona de casa Lúcia Penha, de 49 anos, que desde maio vive com a família no 3º Batalhão de Infantaria (BI).

Segundo Thiago Melo, o Comitê de Solidariedade conseguiu na Justiça, com ajuda da Defensoria Pública uma liminar que garante a manutenção dos abrigos. Agora, a luta é pela manutenção da dignidade das vítimas. “Queremos ajudar essas pessoas a viverem de maneira digna e não confinadas e sendo tratadas de maneira desumana. Toda a demanda deles ainda está subestimada”, afirma.

A Prefeitura de Niterói informa que a manutenção dos abrigos está garantida enquanto vigorar a determinação judicial.

Orgulho niteroiense também foi abalado

Além de uma catástrofe natural, as chuvas de abril representaram uma tragédia política para Niterói. Essa é a opinião do cientista político e professor da Universidade Federal Fluminense (UFF) Cláudio Gurgel. Para ele, todos os altos índices de qualidade de vida foram amplamente questionados depois da tragédia.

“Era nessa qualidade de vida em que se apoiava a autoestima dos niteroienses, resgatada após décadas de investimentos. Era uma cidade arquitetonicamente rica, com toda a estrutura necessária e fácil de se viver. De repente, o crédito por essa qualidade de vida foi abalado e a Prefeitura, que acreditávamos ser tão atuante, se mostrou frágil”, opina.

Ainda de acordo com Gurgel, a tragédia evidenciou problemas sérios problemas sociais e políticos de Niterói.  “O principal deles foi a distribuição da pobreza, que não se restringe às áreas afastadas da cidade. Prova disso foi a quantidade de mortos e desabrigados em todas a cidade e não só em regiões consideradas carentes”.

O cientista político defende que a municipalidade volte suas atenções para a questão da pobreza. Essa, seria a única forma de resgatar o orgulho da população.  “Niterói vai voltar a se orgulhar a partir das respostas aos problemas dos mais pobres. Precisamos dignificar a vida dessas pessoas”.

Vítimas relatam seus dramas

“Muitas áreas aqui nem foram mexidas pela Prefeitura, desde as chuvas, apesar de ficarmos pedindo o serviço. Parece que a obrigação virou favor. Não vieram técnicos realizar vistorias, não fizeram contenções de encostas”. Gustavo Santana, diretor da Associação de Moradores do Beltrão

“Me inscrevi no Aluguel Social três vezes e ainda não fui atendido. Já fui à Viradouro, ao Cras, à Prefeitura e nada. Estou fazendo obras de reforço na minha casa para que fique mais segura, já que não tenho outro lugar para morar.” Antônio Ramos, 51, porteiro, não consegue receber o aluguel
“Estamos perdidos e sem informações. Nenhuma autoridade nos dá posicionamento sobre o que está acontecendo. Fico sabendo das coisas pelo boca a boca ou pela imprensa. Nunca fizeram uma reunião com a comunidade”. Norma Sueli Pacheco, presidente da Associação de Moradores Bumba

“Saí da minha casa em Teixeira quando ouvi estalos e rachaduras apareceram. O que mais espero é uma casa segura, mas se não estiver pronta e eu tiver que sair do abrigo, o jeito vai ser construir outra no morro.” Clóvis de Castro, 42, segurança abrigado no Batalhão de Infantaria

“Eu morava na Alameda Maria, em Teixeira de Freitas, não morava em favela. Conquistei a casa onde morava e agora estou aqui, na humilhação. As pessoas têm sonhos, têm vida, têm dignidade” Lúcia Penha, 49, dona de casa, abrigada no Batalhão de Infantaria



5 de ago. de 2010

PSTU FAZ FRENTE ELEITORAL COM MTL EM GOIÁIS E APOIA HELOISA HELENA EM ALAGOAS!

Por Liga Bolchevique Internacionalista


Se o PSTU de Alagoas está apoiando Heloísa Helena "apenas" informalmente, o que em si já é um escândalo, conformou em Goiás uma frente eleitoral com o MTL, o mais aguerrido defensor de que o PSOL apoiasse Marina Silva. Lá, a aliança foi concretizada como manda o figurino: registro no TRE, programa de colaboração de classes...


O PSTU acaba de lançar uma edição especial do Opinião Socialista (n. 408) sobre as eleições. A capa do jornal anuncia pomposamente "Um programa socialista para o Brasil". O editorial noticia que o partido realizou um seminário nacional. Neste "em dezoito mesas diferentes, abarcando distintos temas do programa, se discutiu como apresentar as bandeiras socialistas para o Brasil".

Percorrendo criteriosamente as 24 páginas da publicação não temos uma única referência ao PSOL, qualquer polêmica ou crítica a esse partido. No ponto que aborda a candidatura burguesa de Marina Silva, nenhuma linha sobre a tentativa do PSOL, orquestrada naquele momento pelo bloco Heloísa Helena, MES, MTL e pela própria APS, de apoiar o chamado "neoliberalismo verde".

Quando adentramos no quadro das candidaturas lançadas pelo PSTU nos estados nota-se que em Alagoas não há candidato ao governo. A mesma "informação" - o silêncio sepulcral - está no sítio de Zé Maria. Já a imprensa burguesa foi mais "alcoviteira" nas informações. Anuncia um apoio informal a Heloísa Helena: "O PSTU, representante da ala mais radical da esquerda brasileira, anunciou ontem que não lançará candidatos este ano em Alagoas. Segundo o sindicalista Manoel de Assis, presidente da legenda no Estado, a participação do partido na disputa eleitoral de 2010 se resumirá a um possível apoio ao PSOL ou uma tímida aliança com o PCB. 'Chegamos a conclusão que não temos condições de lançar candidatos. Nacionalmente, estamos na luta junto com o companheiro Zé Maria, mas aqui em Alagoas não lançaremos nenhum candidato. Nem na majoritária, nem na proporcional. Estamos apenas discutindo um apoio ao PSOL e vamos conversar com o PCB', afirma Assis" (Tribuna Independente, 25/03/2010 - http://www.tribuna-al.com.br/read_news.asp?id=2772.

Se o PSTU de Alagoas está apoiando Heloísa Helena "apenas" informalmente, o que em si já é um escândalo, conformou em Goiás uma frente eleitoral com o MTL, o mais aguerrido defensor de que o PSOL apoiasse Marina Silva. Lá, a aliança foi concretizada como manda o figurino: registro no TRE, programa de colaboração de classes... Apesar do jornal do PSTU "especial sobre as eleições" se limitar a anunciar Rubens Donizetti como candidato a senador naquele estado, como se desejasse esconder algo, o blog do candidato do PSOL em Goiás, Washington Fraga, revela literalmente com todas as letras o caráter "republicano", leia-se, burguês, dessa aliança: "Em nome dos direitos humanos, é preciso ainda condenar a violência policial. Humanizar as polícias militar e civil em Goiás. Com um programa republicano e de defesa do serviço público, valorizaremos o funcionalismo estadual. Contra o latifúndio, o nosso projeto prevê investimentos na agricultura familiar. Apoio aos sem-terras e sem-teto, transporte decente de qualidade, universalização da moradia também constituem bandeiras da coligação Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) e Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado (PSTU). Com uma plataforma ética, contemporânea, republicana, democrática e socialista queremos dialogar com a sociedade civil. Em Goiás. No Brasil, ao lado de Plínio Arruda Sampaio, um dos ícones em defesa da reforma agrária e por um País mais justo e menos desigual. Afinal, construir um novo amanhã é possível. Avançaremos para atender as reivindicações econômicas, sociais, políticas e culturais. Esse é o nosso compromisso programático. Não é apenas uma promessa de palanque eleitoral. Sonhos, acredite neles. Goiás para você, não para eles" ( http://washingtonfraga.blogspot.com/.).


Para nós da LBI não há grande surpresa que o "ortodoxo" PSTU, que alega ter rompido a frente de esquerda nacionalmente por apego ao "programa socialista", se alie com o PSOL em Goiás, controlado por Martiniano Cavalcante e apóie Heloísa Helena em Alagoas, justamente aqueles que defendem o apoio a Marina Silva (PV) e o financiamento de suas campanhas eleitorais pelos empresários. Mas a militância do PSTU deve fazer um balanço dessa política desmoralizante de sua direção. Deve saber que a frente PSOL-PSTU "Goiás para você, não para eles" alarida pérolas reacionárias como "humanizar a polícia" e reivindica tal qual fazem todos os candidatos burgueses charlatões um "país mais justo e menos desigual". Obviamente não há uma linha sequer sobre a necessidade da revolução proletária e da expropriação da burguesia, afinal de contas a frente se apresenta como paladina de uma "plataforma ética, contemporânea, republicana, democrática e socialista para dialogar com a sociedade civil", como, aliás, adora anunciar pelos quatro cantos Heloísa Helena.

DIGA-ME COM QUEM ANDAS QUE TE DIREIS QUEM ÉS...

A plataforma apresentada pela frente PSOL-PSTU em Goiás é, sem sombra de dúvidas um "um programa nos marcos do capitalismo". O MTL é coerente, como reconhece o próprio PSTU.

Quando Martiniano Cavalcante era pré-candidato do PSOL à presidência, depois do PV recusar a aliança com o PSOL optando pelo demo-tucanos no Rio de Janeiro, lançou um manifesto de campanha. Na época, há poucos meses, fevereiro de 2010, o dirigente do PSTU, Eduardo Almeida, publicou um texto de polêmica intitulado "O debate sobre as pré-candidaturas do PSOL - Fracassada a coligação com o Partido Verde e Marina Silva, o PSOL decide sobre uma candidatura própria". Um dos tópicos do artigo era aberto com a seguinte frase "Um programa nos marcos do capitalismo" e afirmava corretamente: "Na formulação do programa para a campanha, Martiniano afirma que 'a síntese desta compreensão política é o programa de campanha. Ele não pode ser uma plataforma de caráter diretamente socialista por pura impossibilidade das condições concretas'. Obviamente, não vivemos um ascenso revolucionário no Brasil. Isso é aproveitado por correntes reformistas como o MES e MTL para defenderem programas de desenvolvimento no marco do capitalismo... Depois, Martiniano acrescenta: 'a correlação de forças não nos permite apresentar propostas gerais de estatização de setores econômicos, sejam da indústria ou dos serviços como educação e saúde'. Ou seja, não se pode defender a estatização nem dos bancos. Não se pode sequer propor uma educação e saúde estatais por causa da correlação de forças" .

Para fechar com chave de ouro a crítica ao MTL, Eduardo Almeida denuncia que "Martiniano defende a continuidade da política desastrosa do PSOL" e arremata: "O manifesto de Martiniano coerentemente afirma que 'é preciso avançar muito, mas avançar na direção de aperfeiçoar os acertos políticos gerais que marcaram a fisionomia do PSOL desde a sua fundação até aqui'. Em outras palavras, é a reivindicação aberta dos rumos atuais do PSOL, do financiamento da Gerdau, da tentativa de acordo com Marina. É a defesa dos passos já seguidos pelo PT, que deu no que deu".

Pois é, deu no que deu e agora o PSTU está aliado ao MTL!!! Já no Conclat, quando essas correntes selaram um acordo sindical, a LBI alertou: "Não sabemos exatamente os detalhes do acordo podre de bastidores selado pela direção do PSTU e MTL, mas sabemos perfeitamente que está baseado, como vimos no Conclat, em uma enorme concessão do PSTU no campo do programa e na acomodação burocrática de aparatos completamente distantes das necessidades da luta direta dos trabalhadores. Foi uma negociação tanto no campo sindical, privilegiando a representação do MTL, membro da ala direita do PSOL, na direção da "nova central", como no próprio campo eleitoral e partidário, um acerto intraburocrático que mais cedo do que tarde virá a tona em toda sua plenitude" (Jornal Luta Operária n. 195, 2ª Quinzena de Julho)

Mais cedo do que tarde veio à tona o acordo podre, a aliança entre PSTU e MTL no Conclat não era um episódio pontual, estava ancorada em um acordo bem mais amplo, cuja base programática era a frente eleitoral em Goiás. Aqui toda fraseologia principista e ortodoxa escrita pela direção do PSTU sobre a impossibilidade da frente de esquerda nacional com o PSOL cai por terra. Colocações aparentemente ortodoxas como "A aproximação do PSOL com o PV de Marina Silva e as diferenças sobre o programa a ser defendido inviabilizaram a Frente de Esquerda, que formamos em 2006" (sítio da candidatura Zé Maria, 10/06/2010) não tem o menor valor político frente a esses fatos escandalosos!!!

O mais hilário é que o PSTU chegou a afirmar que "O MES-MTL-Heloísa Helena, a corrente que sustentou Martiniano Cavalcante, defende também um programa reformista, em geral mais à direita que a APS. Não é por acaso que tanto o MES-MTL quanto a maioria da direção da APS concordaram com a tentativa de aliança com Marina. Além disso, o MES se aliou ao PV em Porto Alegre, e a APS promove a aliança com o PSB da família Capiberibe no Amapá" (Opinião Socialista nº 403, Divisão interna do PSOL e programa democrático-popular inviabilizam acordo em torno das eleições, Eduardo Almeida). Se o MTL tem um programa, segundo o PSTU, "mais à direita" que a APS porque foi justamente no estado de Goiás, onde o grupo de Martiniano tem força, inclusive indicando como candidato a senador da frente Elias Vaz, que vem justamente do PV de Marina Silva, que o PSTU se aliou ao PSOL? Como se vê, a negativa em fazer frente com a APS em São Paulo não se deu por divergências de princípios com o programa da corrente reformista comandada por Ivan Valente ou porque esta se aliou a Capibaribe no Amapá, afinal de contas, para o PSTU a APS está, em geral, mais à esquerda, que o MTL.

Os que posam de principistas se mostram na verdade profundos eleitoralistas. Lembremos que apesar de Heloísa Helena defender um programa clerical e reacionário, bem mais à direita do que o de Plínio de Arruda Sampaio, apesar de todas as afinidades "religiosas" entre ambos e por este motivo ser projetada pela mídia burguesa como a principal representante da esquerda radical brasileira, tanto em sua campanha presidencial de 2006 quanto diante de cada acontecimento da luta de classes posterior, até se recusar a reassumir a campanha majoritária pela "Frente de Esquerda", ela continuava como a candidata reivindicada por consenso para PSOL, PSTU e PCB. Só isto já seria o suficiente para jogar por terra todos os arroubos "ortodoxos" que o PSTU sacou da cartola, supostamente condicionando a reedição da Frente de Esquerda à adoção de um vago "programa socialista, que indique a ruptura com o capitalismo" pela candidatura Plínio. Na verdade, diante de um PSOL fragilizado e de um Plínio sem votos, o PSTU, que até antes da crise que dividiu o partido, pressionava pela vaga de vice, se viu forçado a manter a candidatura de José Maria de Almeida. É esse oportunismo e adaptação a uma política cada vez mais social-democrata e sindicalista vulgar que explicam porque o PSTU se aliou no Conclat justamente com os defensores da aliança burguesa com o PV e porta-vozes de um programa abertamente capitalista e agora estabelece uma frente eleitoral escandalosa com MTL em Goiás.


LIGA BOLCHEVIQUE INTERNACIONALISTA 
 
 
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27 de jul. de 2010

Organizar a luta da classe trabalhadora brasileira na perspectiva de construir a Central Sindical Classista

Os trabalhadores brasileiros, em sua rica história de lutas, vivenciaram diversas experiências organizativas. Desde a Confederação Operária Brasileira, passando pelo Movimento de Unificação dos Trabalhadores e pelo Comando Geral dos Trabalhadores do Brasil, no período pré-golpe de 1964, chegando até a CUT, criada no ocaso da ditadura militar. Todas essas experiências refletiram o momento histórico vivido pela luta dos trabalhadores e o seu grau de organização. Tiveram o seu surgimento, existência e desaparecimento condicionados pela necessidade histórica de os trabalhadores construírem as suas organizações para enfrentar o capital, naquele estágio da luta de classes.
A superação dos limites organizativos impostos pelo Estado, com a circunscrição dos sindicatos à representação das respectivas categorias, sempre foi bandeira do movimento sindical em nosso país. A luta pela liberdade e autonomia sindicais sempre esteve presente na pauta da classe trabalhadora. A realização do Conclat em 1981 desafiou a proibição governamental e apontou para um patamar mais avançado da organização de classe.

A CUT surgiu em um marco de divisão no movimento sindical. Sua trajetória representou as aspirações imediatas dos trabalhadores e congregou, durante uma boa parte de sua história, grande parte dos setores mais avançados do movimento sindical. A CUT esgotou-se enquanto instrumento da luta da classe trabalhadora antes do governo Lula e atingiu os seus limites no advento desse governo. De símbolo da luta dos trabalhadores, a CUT se tornou numa correia de transmissão do governo no movimento operário. O esgotamento da CUT fez diversos setores romperem com essa central e buscarem novas formas de organização.

Do bojo da CUT surgem duas experiências organizativas dos trabalhadores no país: a Intersindical e a Conlutas. Fundada em 2003, na esteira da reforma da previdência, a Conlutas teve como base setores importantes do sindicalismo do setor público, com um grande peso do PSTU em sua direção e formulação política. Define-se como uma organização sindical e popular, em que convivem em uma mesma organização de massa sindicatos, movimentos sociais, estudantes e movimentos contra a opressão. Em 2008, a Conlutas fez o requerimento, junto ao Ministério do Trabalho, de seu registro como central sindical.

A Intersindical foi fundada pelos setores que romperam com a CUT no processo congressual dessa entidade no ano de 2006. A Intersindical surgiu como um instrumento de organização e luta dos trabalhadores. Participaram de sua fundação a Unidade Classista - PCB, a ASS e as correntes do PSOL que não faziam parte da Conlutas: a APS, o Enlace e o Csol. Mesmo sem organização em todos os estados, a Intersindical teve um papel relevante nas lutas do último período.

Em 2008, no II Encontro Nacional da Intersindical, em São Paulo, após um profundo debate sobre a oportunidade ou não de se criar a Central Sindical naquele momento, precipitou-se uma fissura nesse encontro, tendo como eixo norteador a continuidade da Intersindical ou a unificação com a Conlutas. As correntes do PSOL optaram pela estratégia de unificação com a Conlutas, o que redundou na convocatória para o Congresso de Santos, em 05 e 06 de junho deste ano. Por outro lado, os comunistas, a ASS e independentes optaram por reforçar a Intersindical como instrumento de organização e luta dos trabalhadores.

O Congresso de Santos, que teria como objetivo principal a unificação da Conlutas com as correntes do PSOL que reivindicam a Intersindical, terminou com a retirada dessas correntes, juntamente com Unidos pra Lutar e do Movimento Avançando Sindical. O fracasso da tentativa de unificação tem causas que transcendem o Congresso e evidenciam as contradições de concepção de central, da metodologia de sua construção e de condução do processo em si.

A questão da Central: as diversas concepções 

A Conlutas se construiu como uma organização de sindicatos, oposições e coletivos sindicais, convivendo organicamente com diversos movimentos sociais, incluindo aqueles dedicados às lutas contra a opressão, além de estudantes. As relações entre as diversas expressões nos marcos de um mesmo espaço político e organizacional nunca foi resolvido pela Conlutas. A não resolução dessa questão favoreceu a hegemonia política, não necessariamente numérica, de um partido, o PSTU, sobre as demais correntes políticas. Mais: a diluição da representação política interna e das instâncias de direção fez aprofundar o hegemonismo e o aparelhismo. Em 2008, nas vésperas do congresso nacional da Conlutas, diversas correntes, todas participantes do Congresso de Santos, se retiram da Conlutas por esses motivos.

O PCB contrapôs a essa concepção de central sindical e popular a necessidade de uma organização que expresse a intervenção dos trabalhadores enquanto classe, tendo como mote a contradição capital-trabalho. Os movimentos contra a opressão – anti-racismo, gênero, diversidade sexual – devem ser entendidos pelo ponto de vista de classe. Essas questões são importantes, mas são dimensões da exploração e da opressão do capital sobre o trabalho. Sem essa compreensão, os movimentos contra a opressão se tornam movimentos de busca por melhores condições de participação na dinâmica do sistema capitalista.

A organização dos trabalhadores deve refletir todas as dimensões da luta de classes. Deve-se evitar o risco de se diluir a questão central, a exploração do trabalho pelo capital. As lutas contra a opressão devem, necessariamente, ser tratadas de acordo com as suas especificidades. A inclusão desses setores em uma organização sindical é prejudicial à sua própria dinâmica. E a inclusão dos estudantes se torna ainda mais complexa, tendo em vista que o conjunto dos estudantes não se constitui como classe. O movimento estudantil é transitório e policlassista por sua própria natureza.

Todas as experiências organizativas dos trabalhadores brasileiros refletiram uma necessidade colocada pelo grau de mobilização do movimento operário. Apesar de lutas significativas de diversos ramos e categorias, a mobilização da classe trabalhadora não possui ainda um caráter nacional. A necessária unidade de ação do conjunto da classe é uma tarefa para este momento. O ponto alto de uma ação unificada foi o Encontro Nacional de 25 de março de 2007, ocasião em que o Fórum Nacional de Mobilização, que deveria ter surgido daquele encontro, não vicejou. Também fracassaram as tentativas de elaboração de um programa comum.

O patamar da luta de classes no Brasil coloca para os trabalhadores a necessidade da construção de uma Central Sindical classista. Apesar das diferenças de concepção, da frágil unidade de ação e da ausência de um programa comum, a construção dessa Central não pode se dar apenas como um acordo entre correntes, mas deve ser encarada como tarefa dos diversos setores que lutam pela transformação da sociedade e têm, na luta contra o capital, a perspectiva de uma nova sociabilidade. Esse debate terá por tarefa a unificação das lutas específicas, a concepção de bandeiras gerais e o estabelecimento da solidariedade de classe como pontos básicos para a sustentação do projeto de construção da Central.

A recente tentativa de criação de uma central sindical e popular na cidade de Santos expôs as fragilidades do seu processo de convocação e de preparação, além de reproduzir os mesmos problemas de concepção existentes na Conlutas. Como resultado, ao invés de contribuir para a unidade, aprofundou a fragmentação. Urge a necessidade de se retomar a unidade de ação entre as diversas organizações dos trabalhadores. Esse exercício deve contribuir para a construção da luta da classe na perspectiva da unidade organizacional.

Pressupostos para a reorganização do movimento operário 

Como afirmado anteriormente, a Central Sindical tem um papel de unificação das lutas dos trabalhadores. Para tal, a ação da central supera o puro e simples economicismo. Ultrapassa, também, as manifestações espontâneas dos trabalhadores. A ação econômica, sem politização, descamba no peleguismo e na adaptação do movimento operário ao jogo da concorrência capitalista. Ou seja, não bastam conquistas salariais e de melhores condições de trabalho. Também é importante superar o obreirismo, evitando a divisão entre setor público e privado, situação formal ou informal, lutas da cidade e do campo.

Nós, comunistas, não subestimamos o papel dos partidos e correntes no movimento operário. Organizamos o nosso partido, o PCB, que se propõe a ser um destacamento de vanguarda do proletariado. Temos clareza, porém, que a vanguarda não substitui a classe e a organização sindical, seja na Central, seja nas demais organizações sindicais. Portanto, devemos respeitar os mecanismos de mediação da classe trabalhadora.

O maior patrimônio do movimento operário é a sua unidade. Mas essa unidade não pode ser construída burocraticamente. Promover essa unidade de ação é responsabilidade dos setores que se reivindicam de vanguarda. Nós, comunistas do PCB, estamos dispostos a participar de todas as discussões necessárias à construção da unidade de ação e do programa capazes de nortear o caminho para a efetiva criação da Central Sindical Classista, uma central autônoma frente ao governo e ao patronato, que tenha centro nas organizações sindicais da classe trabalhadora. A construção dessa central não pode ser fundada por mero ato de vontade. Sua concepção tem que ser debatida a fundo entre as organizações da classe e não pode se submeter apenas às disputas entre partidos e correntes. A Central surgirá como uma construção da luta dos trabalhadores em nosso país, juntamente com a sua vanguarda, organizada na unidade de ação.

Nós, comunistas do PCB, trabalhamos pelo fortalecimento da Intersindical - instrumento de organização e luta dos trabalhadores - e conclamamos, para a unidade de ação e organização da luta, aqueles setores que, tendo divergido da condução hegemonista no Congresso de Santos, entendem a necessidade de construção de uma Central Sindical Classista que surja da ação e do debate entre as diversas organizações da classe trabalhadora e forças políticas que se dedicam de fato à unidade e à organização da classe no enfrentamento ao capital e na perspectiva da construção da sociedade socialista em nosso país.

OUSAR LUTAR, OUSAR VENCER!

22 de jul. de 2010

A NOVA GUERRA DE GIAP – O CAPITALISMO CHINÊS

Laerte Braga 

Vo Nguyen Giap tem 98 anos de idade e derrotou franceses e norte-americanos nas guerras pela libertação da antiga Indochina, o Vietnã. Ao lado de Ho Chi Min e do povo vietnamita.

Um dos maiores estrategistas militares do século passado e chamado pelo jornal LA REPPUBLICA de “general de dois séculos”, acusa o governo de seu país de ser tolerante com o capitalismo chinês, com graves prejuízos para o ambiente e povo do Vietnã.

Seu discurso, duro e preciso, com a autoridade moral de quem se entregou à tarefa de viver pela dignidade e independência de seu país, não foi contestado pelas autoridades comunistas – como ele – do Vietnã.

Giap denuncia o capitalismo chinês, conhecido no Vietnã como “sinistro”, pelo absoluto e total desrespeito ao ambiente e aos países onde põe o seu tacão. 

É difícil dizer que o regime chinês seja comunista. Num país onde a corrupção gerada pelo capitalismo, é intrínseca, é cada vez maior o número de milionários num clube menor de privilegiados e maior o de escravos num clube de mais de um bilhão de pessoas, não há como escapar de uma conclusão simples. Uma ditadura cruel e perversa de um partido traindo os ideais revolucionários que, por um tempo, libertaram o povo chinês.

Giap denunciou a cessão de direitos sobre minas quase intocadas de bauxita na província de Cao Bang. A linguagem é típica de países capitalistas, países e negócios. A formação de “joint ventures com empresas chinesas. A região, como narra Raimondo Bultrini, que conversou com o general e publicou suas declarações na edição de 19 de julho, “é uma encantadora cascata de montanhas e colinas cultivadas, justamente na fronteira com a China.

Em 1979 os chineses invadiram o Vietnã em represália à condenação do governo de Ho Chi Min ao Khmer Vermelho do Camboja. A invasão teve apoio dos EUA (o Khmer matou milhões de pessoas no Camboja). Terá sido a última grande batalha do velho general. Giap, numa espetacular manobra só possível aos grandes estrategistas militares, cortou as linhas chinesas de suprimento, isolou os chineses e um acordo para aquele tipo de retirada nem tão devagar que parece provocação e nem tão depressa que pareça medo, foi a conseqüência. No duro mesmo foi vem rápida.

Os acordos feitos pelo governo comunista (o pragmatismo em determinados momentos cheira a rendição, submissão, partidos revolucionários viram empresas) do Vietnã com o governo sei lá o que da China, vão “mudar para sempre o rosto ainda não contaminado dos altiplanos centrais e setentrionais”. A região faz parte da História das lutas do Vietnã pela independência, foi local de um dos refúgios de Ho Chi Min
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Breve o tacão capitalista chinês sufocando e destruindo o povo e o ambiente.

Os discursos e as entrevistas de Giap, além do apelo do prêmio Nobel Nguyen Huu Ninh, do manifesto de intelectuais, acadêmicos, veteranos das guerras de libertação, não foram capazes de sensibilizar o governo submetido a Pequim.

“É meu parecer que nós não devemos explorar a bauxita. A sua extração irá causar conseqüência graves ao ambiente, à sociedade e à defesa nacional”.

O acordo do governo do Vietnã foi firmado com a chinesa CHINALCO, uma das gigantes do setor de alumínio e em 2012 todo o aparato capitalista estará montado e destruindo a região.

Para Nguyen Tan Dung, primeiro-ministro do “novo comunismo” vietnamita, subordinado ao imperialismo chinês, todo esse amontoado de acordos e joint ventures é “uma das principais políticas econômicas do partido e do governo”. 

Rios como o BA e o SEREPOK em breve estarão contaminados por agentes químicos e tóxicos derivados da “exploração, em uma região habitada pelo maior número de etnias indígenas não vietnamitas”.

Quinze milhões de dólares foi o valor pago a empresa estatal do Vietnã VINACOMIN, pela chinesa CHINALCO.

Comprou um país na chamada visão “social capitalista” do governo atual da antiga Saigon, hoje Cidade de Ho Chi Min.

O discurso e vários pronunciamentos e entrevistas do general Giap calaram fundo em seu povo. A idade avançada e a doença, no entanto, impedem-no de uma luta maior e essa deve ser a primeira derrota de um dos maiores generais da História. Um raro general revestido de dignidade, numa seara onde a barbárie é quase regra geral.

“O ataque de Giap teve efeitos milagrosos. Deu coragem a outras vozes de dissenso, em uma sociedade que se moderniza velozmente. Quem se colocou como escudo do general de 98 anos, expondo-se, foram 135 acadêmicos, economistas e cientistas”. Eles também assinaram um pedido ao governo, com tons duros para com a China:

A REPÚBLICA POPULAR TEM UMA FAMA SINISTRA PELOS DESASTRES AMBIENTAIS QUE ESTÁ PROVOCANDO”

O comunismo na China é rótulo. Mero capitalismo disfarçado e imposto a chineses, agora se estendendo por vários países da Ásia e alcançando a África.

O que se vê é apenas o embate de dois monstros predadores. EUA e China.

Deve servir de exemplo para o processo de integração latino-americana. Como não deve ser.

Giap e Fidel são os últimos governantes com estatura de estadistas, como Oscar Niemeyer, centenário em sua fidelidade a princípios. Giap não foi propriamente um governante, foi comandante militar de seu povo na luta pela independência, contra colonizadores e invasores. 

O que se vê hoje são apenas homens de negócios vestindo essa ou aquela roupa segundo as conveniências, onde nada é pessoal, pois é um mundo em que pessoas são cada vez mais objetos.

CHINALCO, GENERAL MOTORS, CITY BANK, entre nós VALE, ARACRUZ, no mundo inteiro matando pessoas BAYER, MONSANTO, e os gerentes, Obama, Sarkozy, o primeiro-ministro inglês, etc, etc. 

Não é um “Admirável Mundo Novo”, não, não é. É o mundo “O Macaco e a Essência”. 

FONTE: AQUI 

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Acentuam os riscos da restauração capitalista.Pg,140.I 92