12 de out. de 2007

Choque de gestão, o charlatanismo grandiloqüente

A fala do presidente Lula, quando expressou, há alguns dias, em alto e bom som, que choque de gestão, na sua visão, era criar empregos e oportunidades (ou algo nessa linha) foi manipulada e descontextualizada, de maneira capciosa, pela grande imprensa, de sorte que, ao final, ficou parecendo que o presidente havia dito uma enorme sandice, uma temeridade que sugeria “irresponsabilidade” e “incompetência” – o que não é, em absoluto, verdade. Não utilizarei esse espaço para defender as palavras mal ditas pelo presidente, mas para questionar esse remédio amargo vendido como verdadeira panacéia por muito charlatão engravatado que circula por aí vestindo a fantasia de homem público competente e probo – travestindo assim a realidade, a verdade dos fatos.

Em seguida, logo após a repercussão das palavras de Lula no noticiário, esses veículos, estrategicamente, abriram espaço para tucanos emplumados abrirem o bico e exibirem as cores enganadoras de sua plumagem. Li, dentre outros, um artigo do governador Aécio Neves, um outro do economista Yoshiaki Nakano (guru desse, vamos dizer, “chocante” modo de governar tipicamente tucano) e mais um punhado de alguns outros colunistas e articulistas. Esses últimos, jornalistas muito bem remunerados pelo exercício da sabujice aos “donos do poder”, confortavelmente abrigados na grande imprensa – onde mais?

No caso específico do artigo do governador (reeleito em seu estado, diga-se), o que se vê é mera propaganda enganosa, cujo repertório de “argumentos” reduz-se à enumeração e divulgação de supostas (e questionáveis) realizações de seu governo. Os demais fazem uma costura, muito mal cerzida, um arrazoado de sofismas muito mal “arrematado”. Questiono, por exemplo: pode se considerar mérito de algum governo pagar os salários de seus funcionários – e, veja bem, pagar “em dia”! O artigo do governador diz ser meritório. Caberia uma pergunta: os funcionários públicos de MG têm recebido reajustes salariais que contemplem, pelo menos, a recuperação das perdas inflacionárias? Isso também – a exemplo de pagar em dia – deve ser considerado apenas mera obrigação de qualquer governante. Não há mérito algum nisso. Ou estou equivocado? Pelas informações e notícias que me chegam, o funcionalismo público de Minas Gerias há muito não recebe reajuste salarial. Aliás, vale frisar, o tratamento dispensado aos servidores públicos nas gestões tucanas é baseado em princípios nocivos, desrespeitosos, desumanos mesmo. Os tucanos, como se sabe, são os mercadores monopolistas dessa grife mentirosa e vazia do “choque de gestão”.

A ministra Dilma Roussef foi uma das poucas vozes, no governo e no PT, sensatas e ponderadas o suficiente, para dizer, com rara propriedade, clareza e assertividade (característica essas tão raras nas nossas autoridades), que “choque de gestão” é mero recurso de propaganda. Ponto final. Touché, ministra!

O tal “choque de gestão”, emblema da (in)competência tucana na gestão da coisa pública, propiciou, só para citar um exemplo, que as concessões de exploração das estradas paulistas se realizassem com a custa de pedágios altíssimos, escorchantes mesmo. O mesmo processo, agora tocado pela ministra Dilma (a mesma que trata com o devido desdém o tal “choque de gestão”), parece ter obtido resultados muito mais favoráveis ao erário e aos usuários das nossas estradas. É só comparar as tarifas de pedágio cobradas nas estradas paulistas e as que serão cobradas nas estradas federais – uma vez que a comparação entre serviços prestados só poderá ser feita quando esses serviços efetivamente começarem a ser prestados, por óbvio. Sim, o modelo, eu sei, é diferente – mas enfim não seria esse o melhor modelo?

“Choque de gestão” é apenas uma expressão de efeito, grandiloqüente, cara aos charlatões com suas drogas milagrosas. Mera malandragem retórica, completamente destituída de sentido ou conteúdo. É uma ferramenta para o marketing político – apenas isso. Na cidade de São Paulo, o marketing político, do à época prefeito Paulo Maluf, teve a “sacada genial” de construir, às margens das principais avenidas (portanto, com máxima visibilidade), prédios populares batizados, com efeito, de “Cingapura”. Esses prédios eram construídos em terrenos onde antes existiam favelas – existiam e continuariam a existir, esclareça-se. A estratégia era a seguinte: construía-se ali dois ou três prédios, resolvia-se assim o problema de uns poucos sem-teto do local. O restante daquela população permaneceria na mesma favela, ali mesmo nas cercanias, agora oculta/escondida pelo portentoso prédio. A verdade estava por detrás da bonita e providencial edificação. Perceberam a jogada? Mas qual seria então a verdade/realidade que procura ocultar esse famigerado biombo do “choque de gestão”. Reflitamos sobre isso.

Você sabe, o que diferencia o remédio do veneno é a dosagem. Da mesma maneira, uma descarga elétrica controlada pode salvar uma vida e reanimar um ser humano à beira da morte. Mas uma descarga elétrica pode também eletrocutar um indivíduo, levando-o a morte. Da mesma maneira o tal “choque de gestão” pode, isto sim, levar à falência do Estado ou da máquina pública – em vez de melhorá-lo(a) ou aperfeiçoá-lo(a).
A estratégia de gestão tucana é, por todos, sobejamente conhecida. Conduzem, paulatinamente, os órgão e empresas do Estado à ruína: cortam recursos para investimento e custeio, demitem funcionários e, aos poucos que restam, pagam salários vis e desanimadores. Salários baixos traduzem-se em baixa produtividade, pois, como conseqüência imediata desse estado de coisas, vai fosso abaixo a auto-estima dos funcionários, levando-os ao desalento e a mais completa falta de motivação. Mas, aos olhos da sociedade, a culpa será sempre dos servidores “preguiçosos”, “que não gostam de trabalhar”. Os gestores tucanos fazem isso, não somente por incompetência ou porque são maus gestores; fazem-no para debilitar a estrutura do Estado e assim justificar/legitimar futuras terceirizações e privatizações – fontes sub-reptícias e primeiras do caixa 2 que virão a irrigar e fortalecer a máquina partidária. Estabelece-se assim uma promíscua e providencial relação de simbiose (ou seria parasitismo?) entre o público e o privado.

Devemos, por exemplo, de saída fazer a seguinte pergunta: qual a produtividade que desejamos? Seja na esfera do funcionalismo público ou do privado. Aquela produtividade que visa, em primeiro lugar, o bem-estar do trabalhador ou aquela que visa tão-somente o acúmulo de capital – levando a mais-valia a um, antes impensável, paroxismo? Sim, pois existem, pelo menos, dois tipos de produtividade. A deletéria (ou produtividade ruim), que é aquela que é incentivada também, claro, com intuito de se obter redução de custos, mas que é obtida a qualquer custo, pagando-se o preço (altíssimo) da deterioração da saúde do trabalhador: o estresse e outras complicações e transtornos emocionais? Ou a produtividade boa, que é aquela obtida quando se propicia ao trabalhador boas condições de trabalho e salários mais justos? No “choque de gestão” tucano, ou nas empresas do chamado “hiper-capitalismo” predatório, com sua sanha voraz, um trabalhador chega a fazer o trabalho de três ou quatro como resultado de um “enxugamento” progressivo do quadro de pessoal.

Essa fórmula/receita gerencial e a “competência” dos gestores tucanos, capatazes do neoliberalismo ou do “hiper-capitalismo” predatório, é por demais conhecida e não tem nada a ver com eficácia, eficiência ou competência administrativa (ou de gestão). É por demais batida: cortar gastos e investimentos, reduzir os custos com pessoal (por intermédio de cortes ou congelamento de salários), comprometer (sabotar) a qualidade dos serviços prestados, terceirizar e privatizar.

Os paulistas já sentem na carne os efeitos do “choque de gestão” tão propalado pela grande imprensa e posto em prática na gestão Geraldo Alckmin – como foi na de FHC e, agora, na de José Serra. Desnecessário dizer (ou relembrar) aqui das condições em que se encontram hoje a educação, a segurança e a saúde pública no estado de São Paulo. Isso sem falar no desmonte/destruição realizado no patrimônio público e na máquina de um modo geral. Não à toa Alckmin, bem como seus correligionários, em geral não sabem dar uma resposta ao rótulo de “privatistas” ou debater gestão pública com a necessária seriedade.
Com a palavra os cidadãos dos estados de Minas, São Paulo e Rio Grande Sul. Esses poderão nos dizer, com mais propriedade, o que vem a ser esse tal “choque de gestão”.




Lula Miranda é economista, poeta e cronista. É secretário de Formação para a Cidadania do SEEL – Sindicato dos Trabalhadores em Educação do Estado de SP. Integra o Coletivo de Formação da CUT São Paulo.

Papelão da imprensa

Papel da imprensa

Reportagem não precisa ter contraditório e ampla defesa

A imprensa não é obrigada, antes da divulgação de uma notícia, a fazer profunda investigação sobre a sua veracidade, se estiverem ausentes quaisquer indícios caluniosos, difamatórios ou injuriosos. Da mesma forma, o jornalista não é obrigado a submeter sua matéria a mais ampla defesa e ao contraditório, nos moldes do que acontece em um processo judicial.

O entendimento é da 3ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça de Mato Grosso. Em decisão unânime, o TJ-MT negou recurso ajuizado pelo ex-prefeito de Barra do Garças, Wanderlei Farias Santos.

O ex-prefeito recorreu da sentença de primeira instância, que negou o recurso contra uma empresa de comunicação do município, o apresentador do programa de televisão, o repórter e um professor entrevisto para a reportagem.

O apresentador levou ao ar uma reportagem produzida por um repórter, que tratava de irregularidades no convênio da Prefeitura com o Fundo de Educação. Na reportagem, o repórter tratou da abertura de uma sindicância administrativa criada pelo governo do Estado para apurar eventuais irregularidades na execução do convênio. Um entrevistado, no caso o professor, afirmou que teriam sido desviados R$ 80 mil dos cofres públicos.

Na ação, o prefeito afirmou que a matéria tinha caráter meramente eleitoreiro e que foi feita para alavancar a candidatura do proprietário da emissora de televisão à prefeitura do município. Disse, ainda, que os comentários feitos em relação ao convênio não correspondem à realidade, pois o repórter teria aumentado significativamente o valor do convênio com propósito de caluniá-lo e provocar sua desmoralização. Os argumentos não foram aceitos.

Para o relator, juiz Luiz Carlos da Costa, os réus não praticaram qualquer ofensa à honra do ex-prefeito ao esclarecerem ao público o que entendiam como má administração dos bens públicos. “Não se vê na reportagem clara intenção de desprezo”, afirmou.

O juiz destacou, ainda, que a imprensa não está obrigada, antes de divulgar qualquer reportagem, de submetê-la ao contraditório e a mais ampla defesa, própria de processo judicial.

Também participaram do julgamento o juiz substituto de 2º grau Antônio Horácio da Silva Neto (revisor) e o desembargador Evandro Stábile (vogal).

Revista Consultor Jurídico, 27 de setembro de 2007

11 de out. de 2007

Choque de gestão dos tucanos

Choque de gestão de Yeda pode levar a greve geral em todo o estado

Os professores denunciam a falta de pessoal nas escolas, as más condições de trabalho, a política de enturmação (junção de turmas) e a proposta de aumento da alíquota do ICMS apresentada pela governadora.

Professores gaúchos se acorrentam em protesto contra Yeda

Uma assembléia popular da comunidade escolar foi realizada pela manhã em frente ao Palácio. Ao mesmo tempo em que ocorria essa assembléia, uma comitiva dos professores foi recebida pelo chefe da Casa Civil do governo Yeda, Luiz Fernando Zachia, que se comprometeu a abrir um canal de diálogo com a categoria a partir da próxima semana. No final da manhã, os professores tiraram as correntes e encerraram a manifestação.

Segundo a presidente do Centro de Professores do Estado do Rio Grande do Sul (Cpers Sindicato), Simone Goldschmidt, Zachia prometeu nomear um interlocutor do governo com autonomia para iniciar as negociações. Esse nome dificilmente será o da secretária de Educação, Mariza Abreu, que não tem mais canal nem clima de diálogo com o magistério. Na manifestação desta quinta, uma faixa gigante colocada diante do palácio dizia: “Fora Mariza Abreu”.

Problemas se acumulam

Os problemas no setor da educação vem desde o início do ano, quando escolas do interior do Estado ficaram sem transporte escolar por conta do não repasse de recursos do Estado para os municípios. A governadora Yeda Crusius (PSDB) decidiu aplicar a receita tucana do choque de gestão e determinou o corte de 30% das verbas de custeio em todas as secretarias. Além do atraso no repasse de recursos para os municípios, essa política atingiu em cheio também o trabalho diário nas escolas: falta de professores e de funcionários, falta de equipamentos, fechamento de bibliotecas e laboratórios.

O Cpers já denunciou ao Ministério Público uma situação de “caos na educação pública do RS provocado pela atual política de gestão da Secretaria de Educação do Estado. O sindicato solicitou ao MP a realização de investigações sobre omissões e ilegalidades, por parte do governo estadual e a adoção de medidas para reverter a atual situação. Além disso, entregou ao subprocurador-geral de Justiça para Assuntos Institucionais, Eduardo de Lima Veiga, vários documentos relatando os problemas enfrentados nas escolas. Na avaliação da entidade, a educação pública está vivendo um momento dramático no RS em função da gestão praticada pelo atual governo.

“Pode-se constatar a ausência de um projeto pedagógico, que está gerando um verdadeiro desmonte da rede pública estadual”, diz o documento entregue ao MP.

Alguns dos problemas denunciados no documento são: precariedade da estrutura física das escolas; falta de professores e funcionários; fechamento de bibliotecas, laboratórios e serviços de orientação educacional; falta de transporte escolar em várias cidades do Estado (em Santana do Livramento, por exemplo, 350 alunos ficaram sem aulas até o meio do ano por falta de transporte); turmas com até 50 alunos e junções de séries com conteúdos e interesses diferentes.

Turmas lotadas

A extinção de turmas para formação de turmas maiores nas escolas (com até 50 alguns) aprofundou a crise. A governadora defende a enturmação dizendo que “a reorganização do número de alunos por turma foi muito bem estudada e somente foi colocado em prática após um levantamento criterioso das coordenadorias regionais nos estabelecimentos de ensino”.

“Não é regra geral, mas é significante: segundo as estatísticas, em turmas muito pequenas o nível de reprovação é muito alto e, em turmas maiores, sobem os índices de aprovações”, acrescentou.

Ainda segundo a governadora, das 53.035 turmas existentes na rede estadual de educação, foram reduzidas 2.390, “representando o ingresso do mesmo número de professores em salas de aulas e serviços como bibliotecas e laboratórios”.

Greve geral

Só falta combinar com quem está na linha de frente da educação: os professores e professoras. Mais de cem, com vários diretores de escola entre eles, estiveram no MP denunciando a situação da educação no Estado. Agora, resolveram enviar um recado mais direto à governadora e foram com correntes para a frente do palácio.

O clima de desgaste do governo junto ao funcionalismo público estadual é crescente. Nos últimos dias, diversas categorias do funcionalismo começaram a debater a proposta de uma greve geral em todo o Estado contra as políticas do governo tucano.

Fonte: http://www.vermelho.org.br/base.asp?texto=26616

6 de out. de 2007

Livros didáticos distorcem história do país

Livros didáticos distorcem história do país
Antônio Gois

A história do Brasil ensinada para crianças e adolescentes nos bancos escolares e livros didáticos pode não ser a mesma que os principais historiadores contemporâneos conhecem.

Para historiadores ouvidos pela Folha, conteúdos desatualizados em relação em pesquisas acadêmicas e vícios como visões "engajadas" da história são comumente encontrados em livros didáticos e disseminados em sala de aula.

Para os historiador da UFRJ ( Universidade Federal do Rio de Janeiro) Manolo Garcia Florentino, autor de livros e pesquisas sobre o Brasil colonial, há uma praga do "politicamente correto" nos livros didáticos que, muitas vezes, acaba provocando efeito inverso ao pretendido pelo autor.

Florentino que ganhou prêmio do Arquivo Nacional de Pesquisa por suas pesquisas sobre escravidão no Brasil, cita como exemplo mais claro disso a forma como o negro é tratado em livros didáticos. Segundo ele, os livros, mesmo os mais politicamente corretos, acabam tratando o negro como objeto. "As figuras nos livros, salvo raríssimas exceções, mostram sempre o negro apanhando, em uma situação constrangedora em relação ao branco" diz.

Para Florentino, não se trata de "florear" a história da escravidão no Brasil. "O problema é que os livros ignoram os caso de ascensão social de negros. Há registros de negros que se tornaram livres e compravam escravos".

Apesar desses casos não serem regra no Brasil colonial, Florentino acha importante citá-los por uma questão de formação da identidade negra. "Que criança vai querer se identificar com uma figura que só apanha?"

O historiador Holien Gonçalves Beserra, coordenador da comissão técnica de avaliação dos livros didáticos de história do Ministério da Educação, concorda com Florentino, mas afirma que a situação vem melhorando. "Havia uma defasagem enorme, principalmente na história da escravidão brasileira, dos livros em relação às pesquisas acadêmicas. Os autores raramente tratavam o negro como agente social".

Para Luiz Felipe de Alencastro, professor-catedrático de história do Brasil na Universidade de Paris 4 ( Sorbonne ), na França, nem todos os defeitos dos livros didáticos são de responsabilidade de seus autores. "A sociedade é conservadora e antipobre e não se interessa em conhecer a situação de vida de um bóia-fria, por exemplo. Duvido que algum livro didático traga informações sobre empregadas domesticas exploradas em casas da classe média", diz.

Para Alencastro, o fato de livros didáticos não abordarem temas importantes - como a história da África, por exemplo - se deve ao desinteresse da academia por certos assuntos.

Vânia Leite Fróes, professora da UFF ( Universidade Federal Fluminense ) que presidiu o 21º Simpósio de História da Anpuh ( Associação Nacional de História ), afirma que, muitas vezes, a universidade falha na divulgação de suas pesquisas. "A universidade fica fechada como um gueto".

"Embora esteja tentando mudar, a universidade tem um processo de fechamento e de falha na divulgação de suas pesquisas para professores e autores de livros. Por políticas equivocadas, ela fica fechada como um gueto", afirma a Vânia.

Florentino cita também como explicação para esse fenômeno o preconceito dos pesquisadores: "Ele preferem publicar teses a trabalhar com livros didáticos".


A HISTÓRIA CONTADA NOS LIVROS DIDÁTICOS



Família Colonial

O que está nos livros:
Trecho de livro didático "História Integrada", da editora Scipione, para a 6º série do ensino fundamental:
"Durante o ciclo da cana-de-açúcar, (...) a autoridade do Senhor da casa-grande era absoluta, estando as mulheres submetidas a um papel subordinado"
Os fatos:
o modelo patriarcal, muito estudado pelo sociólogo Gilberto Freyre, não era regra, por exemplo, em São Paulo, onde há registros de mulheres que comandavam a família enquanto seus maridos, os bandeirantes, ficavam anos fora de casa.



Guerra do Paraguai


O que está nos livros:
Trecho do livro "História e Reflexão", da editora Saraiva, para a 7º série do ensino fundamental, sobre a guerra do Paraguai: "Desde sua independência, em 1811, o Paraguai começou a se desenvolver de um modo diferente. Para isso, distribuiu terra aos camponeses, combateu a oligarquia rural improdutiva, construiu inúmeras escolas para o povo. Francisco Solano Lopez prosseguiu a obra de seu pai de construir no Paraguai um país forte e soberanos, livre da exploração do capitalismo internacional"

Os fatos:
O texto coloca os presidentes paraguaios Antônio Carlos Lopez e Solano Lopez como heróis que lutavam contra o imperialismo inglês. Para muitos historiadores, inclusive paraguaios, eles eram caudilhos e ditadores



Escravos

O que está nos livros:
Na história do Brasil Colonial, o negro aparece nos livros, com raríssimas exceções, como escravos. Trecho do livro "História Integrada", da editora Scipione, para 6º série: "A vida do escravo é um inferno. Os africanos são arrancados de sua terra de origem e trazidos como gado em navios. Sua vida na colônia é ainda pior: têm uma existência amarga e penosa"

Os fatos:
Pesquisas mostram que havia negros que ascendiam socialmente e constituíam famílias estáveis mesmo no período da escravidão.



África

O que está nos livros:
Em geral, os livros tratam os negros vindos para o Brasil por meio do tráfico de escravos como "africanos", sem diferenciá-los culturalmente e com poucas referências aos seus hábitos e maios de vida

Os fatos:
O Brasil é considerado o segundo maior país negro do mundo, atrás apenas da Nigéria. No entanto, fala-se muito pouco da história da África e de sua influência no Brasil.


Autor afirma que não existe verdade absoluta
da sucursal do Rio

Para o autor do livro "História e Reflexão", Gilberto Contrim, não existe verdades absolutas, prontas e acabadas quando se trabalha com história.

"Mais do que falar em verdade, se fala em versões. Eu trouxe um versão da Guerra do Paraguai baseada em pesquisas acadêmicas como a do argentino León Poner, que mostra que o conflito foi fomentado pelo capitalismo inglês com o objetivo de destruir um país que buscava o desenvolvimento autônomo", diz Cotrim.

Ele dá um exemplo de outra versão da história do Paraguai, comum nos livros antes da década de 70, colocando o presidente paraguaio, Solano Lopez, como o vilão do conflito, e enaltecendo brasileiros como Duque de Caxias.

O autor afirma também que a maneira como os livros didáticos tratam da escravidão e da vida social do negro tem evoluído. "A inclusão de exemplos de revoltas negras já é uma prática comum nos livros. Os autores estão dando mais exemplos da vida social dos escravos", diz, citando como exemplo um livro produzido por ele, "Saber e Fazer".

De acordo com a autora Sônia Irene do Carmo, as críticas de pesquisadores aos livros didáticos nem sempre levam em conta que há um limite para a atualização das publicações.

"O livro didático tem um limite que é dado pela capacidade de ser trabalhado no período de um ano letivo, com "x" número de horas aulas semanais. Esse limite é incompatível com as exigências que se fazem", afirma.

A Folha entrou em contato com a assessoria de imprensa da editora Scipione, que publicou o livro "História Integrada", de Cláudio Vicentino, citado no quadro que acompanha esta reportagem. No entando, até o fechamento desta edição, Vicentino não havia procurado a redação.


Professora critica descontextualização
da sucursal do Rio

A praga do politicamente correto nos livros didáticos muitas vezes descontextualiza fatos e personagens históricos. Essa é a opinião da professora Vânia Leite Fróes, da UFF ( Universidade Federal Fluminense ).

Vânia pesquisa principalmente o período medieval e aponta como um dos erros mais comuns dos livros didáticos a interpretação anacrônica de fatos históricos. "Muitos livros tratam personagens históricos mulheres como precursoras de um feminismo. É absurdo você falar dessa visão na Idade Média. Essa é uma problemática que surge para o historiador nos anos 60", diz.

Um exemplo citado por Vânia é o tratamento dado para Heloísa, cuja história ficou conhecida como a de um amor proibido com Abelardo. "Dizer que Heloísa era feminista reflete uma concepção da história mascarada pelo politicamente correto", diz.

Além do politicamente correto, os historiadores citam casos em que a história é ensinada de maneira "engajada", como o da Guerra do Paraguai ( 1865-1870 ). "Em geral, o presidente paraguaio na guerra, Solano López, é tratado como herói progressista, portador de uma luta antiimperialista. Muitos historiadores paraguaios até acham graça dessa visão de um caudilho sul-americano ", afirma o pesquisador Manolo Florentino, da UFRJ.

A reportagem da Folha encontrou exemplo dessa visão da Guerra do Paraguai no livro "História e Reflexão", de Gilberto Cotrim, editado pela editora Saraiva.


África é ignorada, diz pesquisador
da sucursal do Rio

Para o historiador Luiz Felipe de Alencastro, a superficialidade com que os livros didáticos tratam da história da África, e suas influências sobre o Brasil, não pode ser creditada apenas aos autores dessas publicações.

"Recentemente, promovemos na USP ( Universidade de São Paulo ) dois concursos para interessados em pesquisar a história da África. Nos dois caso, apenas uma pessoa se apresentou. Há um desinteresse geral da academia pelo tema e isso acaba se refletindo nos livros didáticos".

Alencastro recebeu no mês passado um prêmio por seu livro "O Trato dos Viventes - Formação do Brasil no Atlântico Sul", em que retrata a importância de fatos históricos ocorridos no continente africano para a formação econômica do Brasil.

Para ele, há uma tendência dos historiadores do país de limitar as pesquisas ao território colonial brasileiro. "É uma visão territorial e anacrônica da história do Brasil, como se a idéia de nação sempre existisse na colônia".


Abaixo estamos reproduzindo o texto-resposta de Cláudio Vicentino, um dos autores que teve seu livro citado na reportagem.

Quarta-feira, 5 de setembro de 2001

Estou recorrendo ao Ombudsman por um erro prejudicial ao meu nome na reportagem do jornalista Antônio Gois do dia 05/09/2001, página C 9. Na reportagem foi afirmado em seu final o seguinte: "A Folha entrou em contato com a assessoria de imprensa da editora Scipione, que publicou o livro História Integrada de Cláudio Vicentino, citado no quadro que acompanha esta reportagem. No entanto, até o fechamento desta edição, Vicentino não havia procurado a redação."

Como destaco abaixo, em texto igual ao enviado ao Painel do Leitor da Folha de São Paulo, não poderia ter procurado a redação da Folha pois nada sabia sobre a reportagem. Surpreendido ao ler a reportagem no dia 05/09/01, recorri à editora que, segundo ela, foi procurada para uma matéria sobre avaliação de livros didáticos de história. Como meus livros não tinham sido avaliados no último PNLD, foi encerrado o assunto tanto pela editora como pelo jornalista. Também telefonei para o jornalista responsável pela matéria, Antônio Gois, que, ao que pareceu, admitiu muito cordialmente que houveram desencontros, não permitindo que eu fosse contatado e participasse daquela reportagem. Dessa forma, acredito que tal citação em que me responsabilizou pela não participação constituiu não apenas um erro mas também uma afirmação comprometedora.

Antes de reproduzir o email enviado ao Painel do Leitor, gostaria ainda de acrescentar o descompasso entre a manchete (o título da reportagem: "Livros didáticos distorcem história do país") e a matéria em si. Segundo Antônio Gois, a manchete não era de sua responsabilidade, pois tinha sido elaborada em São Paulo, concordando com o exagero e sua falta de sentido (ao que pareceu). Ao contrário da matéria, bastante equilibrada, ouvindo vários lados e atendendo diversas posições polêmicas quanto ao assunto referente aos livros didáticos, a manchete resumia com uma simplificação rasteira. Mais do que isso, assumia uma posição quanto à possibilidade (ou existência) de uma única história (a não distorcida).

Texto enviado ao Painel do Leitor

Gostaria de desfazer um equívoco publicado na matéria do jornalista Antônio Gois no caderno Cotidiano do dia 05/09/2001, página C 9. Ali foi afirmado que eu deixei de atender uma solicitação da reportagem da Folha de São Paulo, não procurando a redação do jornal. De fato, não poderia fazê-lo, pois desconhecia completamente tal reportagem e a solicitação. Num assunto tão importante quanto polêmico sobre os livros didáticos, gostaria muito de ter opinado. Mesmo assim, reafirmo minha disposição para outras oportunidades. Certamente a matéria de Antônio Gois abre espaço importante de discussão sobre o ensino de história, ficando longe de esgotar o assunto. O tempo de uma única história, de uma história verdadeira, indiscutível e isenta não convence mais ninguém, muito menos os jovens que tantos ainda teimam em tratá-los como eternas crianças. Professores e estudantes há muito repudiam a idéia de um livro didático oficial, portador de certezas indiscutíveis. Sobre a História efetiva, aquela que se faz na realidade concreta em que todos somos agentes, a História com H maiúsculo, vale lembrar que as distorções das perspectivas do nosso país e das atuações afirmativas para o conjunto da população brasileira continuam vivas, fortes e se escondendo num relativismo maroto, nem isentas e nem convincentes. Assim, bem além daquela manchete da reportagem ("Livros didáticos distorcem história do país") estão elites e alguns intelectuais aliados que continuam distorcendo a História (com H maiúsculo) de todos nós brasileiros.


Abaixo apresentamos o editorial publicado no mesmo jornal, Folha de São Paulo, do dia 09 de setembro de 2001, por tanto, quatro dias depois da matéria ter sido publicada e três dias depois de terem recebido a resposta do autor.

História e Verdade

Embora muitos acreditem que a história seja a ciência dos fatos relativos à vida de um povo, é fenômeno relativamente comum que, de um mesmo evento, dois historiadores extraiam teses diametralmente opostos. Livros didáticos de história, como mostrou reportagem publicada pela Folha na semana passada, não escapam a essa tendência.

Atualmente, um livro brasileiro pode ser criticado seja por tratar Francisco Solano López como líder paraguaio que desejava construir um país forte e soberano seja por tratar todos os grupos étnicos de negros que aqui chegaram apenas com "africanos".

São críticas que, diga-se, fazem algum sentido. Quando se comenta a história da Guerra do Paraguai, é sem sombra de dúvida importante indicar que Solano López se opunha ao imperialismo inglês, mas não dá para deixar de mencionar que o homem era um caudilho.

Analogamente, é simplificação preconceituosa tratar como iguais todos os tipos de negros que vieram ao Brasil sem nem tentar mencionar que havia principalmente bantos e sudaneses, que, por sua vez, se subdividem em várias dezenas de etnias. É realmente desconcertante que o Brasil, a segunda maior nação negra do planeta, menor apenas do que a Nigéria, insista em ignorar tão olimpicamente a história africana.

Reparos à parte, convém registra que houve uma evolução importante. Não muitos anos atrás, os livros escolares ainda enalteciam o duque de Caxias como grande herói nacional. Embora o patrono do Exército brasileiro tenha cumprido a missão que lhe foi dada e possa ainda hoje ser considerado um herói, atualmente questiona-se o papel do Brasil num conflito com contornos genocidas como foi a Guerra do Paraguai.

Toda "verdade" histórica é antes de mais nada um versão para um conjunto de fatos. Essa é uma concepção de história bastante disseminada hoje, no que representou significativo avanço em relação aos tempos em que se acreditava numa história neutra, objetiva e baseada unicamente em fatos indisputáveis.

O risco da interpretação mais moderna é desembocar no desprezo pelo fato. Se tudo é uma questão de juízos, de ideologia, então por que o autor não fica apenas com sua tese e adapta os fatos a ela? De certo modo, isso ocorre. E não se pode afirmar que os historiadores que seguiram exclusivamente essa linha tenham trazido uma grande contribuição para a ciência histórica. O que trouxeram foi falsificação, às vezes consciente, às vezes não. Às vezes evidente, às vezes não.

Existe, obviamente, uma grande e interminável discussão teórica, que deveria, em algum grau, estar presente nos próprios livros didáticos. O fato ( se ainda é lícito falar em fato ) é que, pela diversidade de interpretação hoje à disposição de alunos e de professores, ficou mais fácil começar a entender história. Existe aqui um pouco do que Hegel chamou de dialética.

Sobenh (Sociedade Brasileira de Ensino de História), aqui.

2 de out. de 2007

Quando a polícia abre o baú da imprensa

Quando a polícia abre o baú da imprensa

Por Carlos Brickmann em 2/10/2007

Que o mensalão começou em Minas Gerais, até os fios de cabelo de Marcos Valério sabiam. A primeira investida do esquema beneficiou o governador tucano Eduardo Azeredo, candidato à reeleição (perdeu para Itamar Franco). A imprensa até que deu a notícia, embora discretamente. E esqueceu o assunto.

Agora, alguns anos depois, o tema volta à primeira página, mas só porque a Polícia Federal concluiu seu relatório. Nesse tempo todo, nenhum meio de comunicação investigou o caso por conta própria. Nem mesmo quando Walfrido dos Mares Guia, apontado como partícipe do primeiro mensalão, foi nomeado ministro do governo petista, apontado como partícipe do segundo mensalão. Silêncio. Agora o assunto foi retomado – mas desde quando a imprensa precisa ser pautada pela Polícia Federal?

É feio. E, no entanto, faz parte de um rol de assuntos nunca muito bem explicados, casos que não ficaram em segredo, mas mereceram pouquíssimo destaque e nenhum investimento em reportagem. O caso dos duzentinhos, por exemplo, na época em que, por iniciativa tucana, conseguiu-se aprovar a reeleição do presidente da República. E era um caso interessante, até pelo nome de um dos parlamentares citados – Ronivon. A filha extraconjugal de um senador mereceu amplo espaço, muito maior que o do filho extraconjugal de outro senador (e, nos dois casos, a acusação era a mesma: mães e crianças seriam mantidas por grandes empresas). O caso do metrô paulista, onde um acidente comeu sete vidas, há muitos e muitos meses, também não ganhou investigação. Ninguém pediu sequer para ver o projeto executivo da estação que virou buraco. E não é coisa apenas tucana: os túneis petistas em São Paulo ficaram inundados logo após a inauguração e foi preciso reformá-los. Cadê as matérias?

Pois é: há assuntos que entram na moda, há assuntos que não há força humana capaz de colocá-los na mídia. Tudo bem, vai ver que o mundo é assim. Mas precisava transformar o mensalão tucano, na imprensa, em mensalão mineiro?

Observatório da Imprensa, aqui.