15 de set. de 2007

Fim de semana

TV GLOBO E A ELITE

TV GLOBO E A ELITE

Valores democráticos dos mais instruídos

Por Cristiano Celestino Dourado Borges em 4/9/2007

Este texto refere-se à reportagem do Jornal Nacional quinta-feira (20/8/2007) sobre o livro A cabeça do brasileiro, de Alberto Carlos Almeida. No sítio do JN, temos a seguinte chamada: "Os dados da Universidade Federal Fluminense desfazem a associação negativa entre elite e privilégios e mostram que os mais instruídos têm os valores mais democráticos" (disponível aqui).

Afirmar que a elite tem os valores mais democráticos é, no mínimo, problemático. Apesar da pouca idade, lembro-me bem de quem estava nas ruas na Marcha da Família com Deus pela Liberdade, em março de 1964, apoiando a deposição do presidente Goulart, democraticamente eleito. Se for escrever sobre os vários momentos na história do Brasil onde a elite econômica e/ou aqueles com maior escolaridade apoiaram medidas antidemocráticas, precisaria, certamente, de um livro.

Ainda no sítio do JN, encontro a seguinte tabela que faz parte do livro:

Concordam com a frase: "Se alguém é eleito para um cargo público, deve usá-lo em benefício próprio."

Concordam com a frase: "Se alguém é eleito para um cargo público, deve usá-lo em benefício próprio.

Analfabetos

40%

Até a 4ª série

31%

Da 5ª à 8ª série

17%

Ensino médio

5%

Superior

3%

O discurso e a prática

Em uma interpretação completamente despropositada, afirma-se, tendo por base a tabela acima,que aqueles com nível superior são mais honestos que os analfabetos. Então, como explicamos a corrupção neste país? Se aqueles com nível superior são os mais honestos não precisamos nos preocupar, uma vez que os cargos públicos exigem, em sua quase totalidade, no mínimo ensino médio completo, enquanto aqueles cargos mais estratégicos, como as diretorias dos órgãos públicos, são ocupados, em grande parte, por pessoas que passaram pelos bancos das faculdades.

O que todos aqueles com um mínimo de conhecimento na área de pesquisa em ciências humanas sabem, ou deveriam saber, é que uma coisa é o que os agentes dizem e outra, o que fazem. Em outras palavras, uma coisa é o dito; outra, o feito. Não há como separar estes dois aspectos sob risco de obter informações incompletas e em muitos casos equivocadas, sobretudo quando o que se quer investigar são comportamentos.

Não podemos interpretar discursos como se eles fossem o mesmo que práticas. É possível, analiticamente, separá-los no momento da pesquisa.

Ingenuidade intelectual

Desta maneira, o que vemos é um discurso de democracia, de honestidade, de tolerância etc. que carece de evidências para se sustentar como prática de democracia, de honestidade, de tolerância. Aqueles que responderam à pesquisa podem realmente acreditar que a democracia é superior à ditadura, que a tortura é abominável, que a corrupção é deprimente. Agora, minha experiência mostra que estas pessoas que têm maior escolaridade são aquelas que estão em maior número envolvidas em casos de corrupção, tanto como corruptoras quanto como corrompidas.

Mino Carta com sua precisão e clareza peculiar, ao comentar a pesquisa afirma:

"A acuidade da pesquisa é, no mínimo, discutível. Resta verificar até que ponto os analfabetos entenderam as perguntas e os letrados se esmeraram na hipocrisia. Enfim, queijo de Parma sobre o macarrão: o cidadão branco é mais inteligente, honesto e educado do que o negro e o pardo. O negro é mais malandro, o pardo o menos preguiçoso, mas tem acentuada tendência para o crime." (Mino Carta, disponível aqui.)

Deste modo, afirmar que aqueles que têm maior escolaridade são mais democráticos, tolerantes, honestos etc. porque dizem que são é, no mínimo, uma ingenuidade intelectual.

Observatório da Imprensa, aqui.

7 de set. de 2007

O ASSASINATO DA VIA CHILENA AO SOCIALISMO



“Compatriotas: Esta será seguramente a última oportunidade em que poderei dirigir-me a vocês. A aviação bombardeou as antenas de Radio Portales e Radio Corporación. Minhas palavras não têm amargura, mas decepção, e elas serão o castigo moral para os que traíram o juramento feito: soldados de Chile, comandantes-em-chefe titulares e mais o almirante Merino, que se autodesignou, e o señor Mendoza, esse general rasteiro, que ontem me manifestara sua fidelidade e lealdade ao governo.

Frente a estes fatos, só me cabe dizer aos trabalhadores: não vou renunciar!

Colocado neste transe histórico, pagarei com minha vida a lealdade do povo, e digo-lhes que tenho certeza que a semente que entregamos à consciência digna de milhares e milhares de chilenos não poderá ser apagada definitivamente. Eles têm a força, mas não se detêm processos sociais pelo crime e pela força. A História é nossa, ela é feita pelos povos.

Trabalhadores da minha pátria: quero agradecer-lhes a lealdade que sempre tiveram e a confiança que depositaram num homem que foi apenas intérprete dos seus anseios de justiça, que empenhou sua palavra no respeito à Constituição e à lei, e que a respeitou. Neste momento definitivo, o derradeiro em que posso me dirigir a vocês, peço que aproveitem a lição. O capital estrangeiro, o imperialismo unido à reação, criou o clima para que as Forças Armadas rompessem uma tradição que lhes ensinou Schneider e que reafirmou o comandante Anaya, vítimas do mesmo setor social que hoje está nas suas casas esperando através de mão alheia reconquistar o poder, para seguir defendendo seus privilégios.

Me dirijo sobretudo à modesta mulher da nossa terra, à camponesa que acreditou em nós, à operaria que trabalhou mais, à mãe que soube da nossa preocupação pelas crianças. Me dirijo aos profissionais patriotas que há dias continuam trabalhando contra a sedição auspiciada por órgãos de classe, para defender as vantagens que a sociedade capitalista deu a uns poucos.

Me dirijo à juventude, àqueles que cantaram, que entregaram sua alegria e seu espírito de luta.

Me dirijo ao homem chileno, operário, camponês, intelectual, àqueles que serão perseguidos porque em nosso país o fascismo já se faz presente há algum tempo em atentados terroristas, sabotagens de estradas de ferro e pontes, oleodutos e gasodutos.

Frente ao silêncio dos que tinham a obrigação – interrupção momentânea da transmissão de Radio Magallanes - ...a que estavam submetidos. A História os julgará.

Seguramente, Radio Magallanes será calada e o metal tranqüilo da minha voz não chegará mais a vocês...

Não importa ... Não importa, vocês seguirão me ouvindo, estarei sempre junto de vocês, pelo menos minha lembrança será de um homem digno, leal à lealdade dos trabalhadores.

O povo deve se defender, mas não se sacrificar. Não deve deixar-se arrasar nem crivar de balas, mas tampouco pode se deixar humilhar.

Trabalhadores da minha pátria: tenho fé no Chile e no seu destino. Este momento cinzento e amargo, onde a traição pretende se impor, será superado. Sigam sabendo que muito mais cedo do que tarde de novo se abrirão as grandes avenidas por onde passará o homem digno que quer construir uma sociedade melhor...

Viva Chile, viva o povo, vivam os trabalhadores... Estas são minhas últimas palavras ... Tenho certeza de que meu sacrifício não será em vão, tenho certeza de que pelo menos será uma lição moral que castigará a felonia, a covardia e a traição...".

6 de set. de 2007

Manifesto dos Sem-Mídia

"Vivemos numa época em que a informação se tornou tão vital para o homem que passou a integrar o cabedal de seus direitos fundamentais. No transcurso do século XX, as novas tecnologias geraram o que se convencionou chamar de mídia. Trata-se do conjunto de meios de comunicação em suas variadas manifestações, tais como a secular imprensa escrita, o rádio, o cinema, a televisão e, mais recentemente, a Internet.

A mídia se tornou fundamental na estruturação das sociedades devido a ser composta por meios de comunicação de massa. E, em países continentais como o nosso, quem controla o poder de falar para as massas controla um poder que, vigendo a democracia, suplanta até mesmo o poder do Estado. Isso ficou claro no decorrer da história de regiões como a América Latina, onde o poder dos meios de comunicação passou a eleger e a derrubar governos, aprovar leis ou impedir sua aprovação e a moldar costumes e valores das sociedades.

Não se nega, de maneira alguma, que as mídias, sobretudo a imprensa escrita, foram bem usadas em momentos-chave da história, como no estertor da ditadura militar brasileira, quando a pressão da imprensa ajudou a pôr fim à opressão de nossa sociedade pelo regime dos generais. Todavia, é impossível ignorar que a ditadura foi imposta ao país graças, também, a essa mesma imprensa.

O lado perverso da mídia deve-se ao que também é uma de suas virtudes. Como, na sua configuração normal, a mídia pertence à iniciativa privada, comumente não é – ou não deveria ser - controlada por governos ou por facções políticas, e não se pauta – ou não deveria se pautar – por ideologias. O que deveria ser, no entanto, sabe-se que está muito longe de efetivamente ser – e não é de hoje.

A submissão da mídia ao poder do dinheiro é um fato, não uma suposição. Os meios de comunicação privados nada mais são do que empresas que visam lucro e, como tais, estão sujeitas a interesses que, em grande parte das vezes, não são os da coletividade, mas os de grandes e poderosos empresários. Estes, pelo poder que têm de remunerar o “idealismo” que lhes convêm, conseguem profissionais dispostos a produzir o “jornalismo” que o patrão requer.

É nesse ponto que jornalistas e seus patrões se encontram com facções políticas e com ideologias simpáticas aos menores anseios da iniciativa privada. Essas facções e ideologias, então, terminam por constituir uma união estável com certo “jornalismo” que passa a fazer o jogo de políticos que podem transformar em leis e em formas de governar que, muito freqüentemente, privilegiam o interesse privado em detrimento do interesse público.

É óbvio que a mídia sempre dirá que seus pendores capitalistas coincidem com o melhor interesse do conjunto das sociedades. Dirá isso através da confortável premissa (para os grandes do capitalismo) de que as dores que a prevalência do interesse dos capitalistas causa aos estratos inferiores da pirâmide social constituem uma espécie de “sala de espera” para o ingresso no jardim das delícias dos estratos superiores. É a boa e velha teoria do “bolo” que precisa primeiro crescer para depois ser dividido.

A mídia se defende dizendo que a facção política que ora ocupa o poder - e que ela (a mídia) ataca hoje - não pratica nada diferente do que praticava a facção política que governava antes. Alguns veículos mais ousados dizem que os que hoje governam favorecem mais o capital do que seus antecessores. Outros veículos, mais dissimulados, adotam um discurso quase socialista e passam a criticar lucros de bancos e cumprimento de contratos pelo atual governo, fazendo crer que apoiariam uma forma de governar como a de um Fidel Castro, por exemplo.

A mídia brasileira garante que é “isenta”, que não é pautada por ideologia ou interesses privados e que trata os atuais governantes do país como tratou os anteriores. Não é verdade. Bastaria nos debruçarmos sobre os jornais da época do governo que antecedeu o atual e compará-los com os de hoje que veríamos como é grande a diferença.

Não é preciso recorrer a registros históricos para comprovar como os pesos e medidas da mídia diferem de acordo com a facção política que ocupa o poder. Basta, por exemplo, comparar a forma como os jornais paulistas cobrem o governo do Estado de São Paulo e como cobrem o governo do país.

A mesma facção política governa São Paulo há mais de uma década. Nesse período, São Paulo foi tomado pelo crime organizado. A Saúde pública mergulhou ainda mais num verdadeiro caos. A Educação pública permanece como uma das piores do país, a despeito da pujança econômica paulista. Assim, começaram a eclodir desastres nunca vistos na locomotiva do Brasil que é São Paulo.

Ano passado, uma organização criminosa aterrorizou São Paulo. Essa organização nasceu e se fortaleceu dentro dos presídios controlados pelo governo do Estado. A Febem consolidou-se como escola de crimes, e as prisões, como faculdades.

No início deste ano, uma rua inteira ruiu por causa de uma obra da linha quatro do metrô paulistano, administrado pelo governo paulista. Várias pessoas morreram. Foi apenas mais um de muitos outros acidentes que ocorreram nas obras do metrô de São Paulo.

Seria possível passar dias escrevendo sobre tudo que a imprensa paulista deveria cobrar do governo do Estado de São Paulo, mas não cobra. Ler um jornal impresso em São Paulo ou assistir a um telejornal produzido em São Paulo é saber apenas do que faz de ruim o governo federal. Quase não há informações sobre o governo paulista, e críticas, muito menos. O desastre causado pela obra da linha quatro do metrô paulistano foi coberto por alguns dias. Depois, o assunto desapareceu da mídia e nunca mais se soube nada do assunto. A mídia esconde e impede qualquer aprofundamento no caso.

Assim é com tudo que diga respeito a governos de que a imprensa paulista gosta. E o mesmo se reproduz pelo país inteiro. A mídia carioca, a mídia baiana, a mídia gaúcha, todas fazem o mesmo que a paulista.

O lado mais perverso desse processo é o de a mídia calar divergências. Cidadãos como estes que assinam este manifesto são tratados pelos grandes meios de comunicação como se não existissem. São os sem-mídia. Muito dificilmente lhes é permitido criticar o moralismo seletivo dos meios de comunicação ou mesmo as facções políticas que esses meios protegem. A quase totalidade dos espaços midiáticos é reservada àqueles que concordam com a mídia.

Claro precisa ficar que os cidadãos que assinam este manifesto não pretendem, de forma nenhuma, calar a mídia. Pelo contrário, queremos que ela fale ou escreva muito mais, pois queremos que fale ou escreva tudo e não só aquilo que quer.

Mais do que um direito, fiscalizar governos, difundir idéias e ideologias, é obrigação da mídia. Assim sendo, os signatários deste manifesto em nada se opõem a que essa mesma mídia critique governo nenhum, facção política nenhuma. O que nos indigna, o que nos causa engulhos, o que nos afronta a consciência, o que nos usurpa o direito de cidadãos é a seletividade do moralismo político midiático, é o soterramento ideológico de corações e mentes.

Por tudo isso, os signatários deste manifesto, fartos de uma conduta dos meios de comunicação que viola o próprio Estado de Direito, vieram até a frente desse jornal dizerem o que ele e seus congêneres parecem negar. Viemos dizer que existimos, que também temos direito de ter espaço para nossos pontos de vista, pois a mídia privada também se alimenta de recursos públicos, da publicidade oficial, e interfere no interesse público.

Hoje está sendo fundado o Movimento dos Sem-Mídia. Trata-se de um movimento que não está cansado de nada, pois mal começou a lutar pelo direito humano à informação correta, fiel, honesta. Aqui começamos a lutar pelo direito de todos os segmentos da sociedade de terem como expor suas razões, opiniões e anseios e de receberem informações em lugar da atual propaganda política que nos tem sido imposta como se fosse jornalismo.

Eduardo Guimarães

2 de set. de 2007

A história é um profeta com os olhos voltados para trás

O perigo do negacionismo

Luís Carlos Lopes

As dificuldades dos povos em manter a memória de seus passados têm sido habilmente usadas pelos negacionistas. O presentismo midiático de hoje significa um corte profundo com as gerações anteriores, o que implica imaginar que o passado nada tem a ver com a atualidade. Este problema trata-se de um artefato ideológico criado a partir a dificuldade real das novas gerações compreenderem o que se passou com as que lhes antecederam. Na mesma senda, é possível de se constatar a existência de novos usos negacionistas, construídos com o mesmo padrão anterior.

O negacionismo ‘clássico’ é um procedimento usual da extrema direita européia. Seus partidários em vários países negam que tenha existido a solução final na Alemanha nazista. O extermínio massivo de milhões de seres humanos é negado. Não teria havido um plano ou não teriam existido os instrumentos criados para provocar a morte de pessoas recolhidas aos campos de concentração. Negam, igualmente, a escravidão recriada no mesmo país, para sustentar a indústria de guerra. Negam fatos que os colocam na posição de partidários dos maiores genocidas na história humana. Dizem que nada disto existiu nos termos conhecidos, e que tudo o que é dito não passa de propaganda. As imagens dos fornos crematórios seriam montagens fotográficas ou filmográficas. Os depoimentos registrados em inúmeras mídias seriam mentiras orquestradas pelos judeus e pelo comunismo.

Paradoxalmente, os membros do núcleo duro destes movimentos mantêm os mesmos preconceitos que geraram o extermínio massivo de judeus, homossexuais, ciganos, opositores políticos, deficientes físicos, dentre outros. Negam o massacre, mas mantêm os argumentos usados para executá-lo. Continuam dividindo o mundo entre os mais aptos e os inferiores, renovando as teses arianas, relativas à existência de super-homens altos, brancos, inteligentes e disciplinados destinados a reinar sobre a Terra. Estas teses, de algum modo, ainda orientam muitos dos preconceitos e práticas sociais existentes no mundo atual. Muita gente ainda acredita que ser ‘ariano’ é pertencer a um contingente humano superior. Os ideais de beleza ocidentais, por exemplo, têm ainda forte influência do mesmo mito, por decorrência disto, a moda e a publicidade se apropriam destes signos hoje negados e reafirmados em vários contextos. O mesmo acontece com várias emissões e visões das mídias de massa.

O negacionismo atual tem múltiplas faces e não é mais monopólio da extrema direita. Ela continua a praticá-lo sistematicamente por toda parte, mas as outras direitas - existem múltiplas direitas - também fazem uso do mesmo procedimento. Tornou-se fácil no mundo do espetáculo midiático proceder assim. Os meios disponíveis para a propaganda política e a manipulação social devem ser invejados, se vistos do inferno. Goebels, ministro da propaganda de Hitler, deve lamentar ter vivido em uma época onde as mídias eram de alcance tão limitado. Na época do nazismo não havia televisão, Internet etc. O Mein Kampf, livro de base do hitlerismo, alcançou, na época, uma edição de cerca de um milhão de exemplares. Hoje, qualquer besteira livresca que venda no mundo, consegue tiragens de milhões e milhões nas mais diversas línguas.

Os inimigos de hoje não são exatamente os mesmos. O que se precisa negar também não é necessariamente a mesma coisa. Negam-se, por exemplo, a guerra do Vietnã e seus horrores, as tragédias perpetradas pelo fascismo vermelho de Stalin, os genocídios e limpezas étnicas dos Bálcãs e da África etc. Nega-se a truculência das ditaduras militares latino-americanas, representadas pela tortura, morte, exílio e censura. Negam-se todas as ignomínias perpetradas contra o gênero humano, em vários casos dizendo-se que era necessário, que não havia outro jeito etc. Elas são inúmeras, fazendo pensar se realmente existe a necessidade de um inferno no pós-morte, porque os tormentos sofridos por muitos são inimagináveis, por quem jamais os sofreu.

Continua-se, outrossim, a se negar que houve e continua a existir violências, discriminações, racismos, exclusões e preconceitos. Os seres humanos, pertencentes à grande família do homo sapiens sapiens, persistem sendo vistos por alguns, como se fossem de diferentes espécies. Isto ocorre, com maior força, se tiverem culturas diversas. Acredita-se na existência de civilizações, corpos e mentes superiores e inferiores, mesmo com todas as evidências científicas atuais de que isto seja um dos mitos do racismo contemporâneo. Confunde-se, deliberadamente, diferenças com oposições fratricidas, tais como as expostas no integrismo puritano e racista e nos fundamentalismos religiosos em voga.

Uma nova mania negacionista, que beira a paranóia, é a de acreditar na teoria conspirativa que imagina a manipulação midiática como algo infinitamente mais forte do que os episódios reais. É verdade que as mídias, sobretudo as empresariais e mais estruturados, manipulam, mentem e tentam, de modo fascista, controlar a opinião comum. Mas, também é verdadeiro que elas têm limites e precisam se basear, vez por outra, em fatos concretos, como, por exemplo, a crise aérea e os episódios recentes da longa história brasileira da corrupção de Estado.

Uma das vertentes políticas contemporâneas da chamada cultura das mídias é o negacionismo clássico. Outra consiste no negacionismo que foi refundado no mundo atual. A construção das ‘verdades’ midiáticas baseia-se na verossimilhança, isto é, em algo plausível e possível de ser concreto e, por isso, consistindo em fácil objeto de manipulação. Os grandes veículos precisam se apropriar da realidade e dar a ela um sentido que lhe interesse, fugindo da objetividade que, paradoxalmente, dizem perseguir. Entretanto, é mais raro, no contexto da democracia formal, dizer algo absolutamente impossível, tal como se fazia na época da ditadura.

O convencimento, quando fruto da manipulação, almejado pelas grandes mídias, precisa se ancorar em algo visível e que não possa ser facilmente desmascarado. A notícia e a opinião são construídas de modo cauteloso. Os fatos reais são narrados a partir de uma ótica de preconceitos e interesses que ressaltam ou escondem, tal como é necessário para se construir os artefatos e a opinião do público receptor. Por isso tudo, também é caracterizável como negacionismo dizer que as grandes mídias falam absolutas inverdades, em todos os casos e em qualquer situação. Nem o ministério da propaganda da Alemanha nazista agia assim. É preciso cautela com o exagero da simplificação.

É importante denunciar como negacionismo todas as imposturas históricas e reconstruções manipuladas que servem à formação da opinião comum. Talvez, assim, os negacionistas tenham maior cuidado, por medo de serem desmascarados e mostrados à luz do sol. Eles são seres das sombras. Detestam que se faça a exposição de suas mazelas. Abominam que se fale sobre o que não podem responder, e sobre o que querem esconder. Temem o debate, em especial, com quem não tem o rabo preso em algum lugar.